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"Contato com vanguardas em Paris foi importante para o modernismo brasileiro", diz historiadora

Áudio 07:24
Márcia Camargos faz palestra sobre passagem de artistas brasileiros por Paris
Márcia Camargos faz palestra sobre passagem de artistas brasileiros por Paris Divulgação

A escritora, jornalista e historiadora brasileira Márcia Camargos, radicada em Paris desde 2016, realiza nesta sexta-feira (9), no Espaço Krajcberg, às 18h30, uma palestra sobre a passagem de artistas brasileiros pela capital francesa nos anos 1920 e sua relação com o modernismo no Brasil. Nesse período, moraram na cidade nomes como Anita Malfatti, Victor Brecheret, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

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“A passagem deles teve um impacto muito grande. Embora o modernismo e a semana de 1922 buscassem uma arte autenticamente brasileira, livre das influências externas, a vinda deles a Paris foi importantíssima porque eles conviveram com as vanguardas mundiais, representadas por artistas como Picasso, Léger e tantos outros”, explica a autora, que tem uma extensa carreira literária, com 27 livros publicados e vários prêmios recebidos.

O interesse de Márcia pelo tema começou com sua tese de doutorado em história social pela Universidade de São Paulo (USP), que resultou no livro “Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque Paulistana” (2001). “O início do século 20 em São Paulo foi essencial para transformar a cidade em uma metrópole cultural e artística. E a Semana de 22 foi um evento importantíssimo da época, assim como o surgimento do modernismo, que teve um grande peso na transformação da arte brasileira."

Esse livro conta a história do salão artístico e literário do senador José de Freitas Vale (1870-1958). "Ele era  um mecenas. Dedicou toda a sua carreira política ao fomento das artes e do ensino público gratuito. Foi um dos criadores do Pensionato Artístico do Estado, que, a partir de 1912, mandou artistas brasileiros para se aperfeiçoar na Europa. Foi nesse programa que vieram para Paris Malfatti, Brecheret, Souza Lima e tantos outros.”

Capa do livro “Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque Paulistana”.
Capa do livro “Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque Paulistana”. Reprodução

“Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque Paulistana” tem prefácio do renomado crítico literário e professor Antônio Cândido, que morreu no último dia 12 de maio em São Paulo. “Eu tive o privilégio de tê-lo como prefaciador da minha obra. Eu brincava com ele que as pessoas compravam meu livro pelo prefácio.”

Posteriormente, Márcia escreveu o livro “A Semana de 22: entre Vaias e Aplausos” (2002), que ganhou o prêmio da Academia Paulista de Letras.

Biografia de Monteiro Lobato

Autora de “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” (1997), junto com Vladimir Sacchetta e Carmen Lucia de Azevedo, ela obteve os prêmios Jabuti e Livro do Ano em 1998. “É uma extensa biografia do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Já havia uma bastante antiga, escrita nos anos 1940, e Lobato precisava ser recuperado, as pessoas não falavam mais nele. Justamente porque a obra dele estava nas mãos de uma editora que não cuidava bem do seu legado. Além disso, havia um litígio grande com a família, que foi resolvido e a obra dele pôde ser relançada. Nosso livro foi muito gratificante porque trouxe o autor de volta à pauta do dia.”

Capa de “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia”
Capa de “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” Reprodução

A historiadora se tornou então curadora da obra de Lobato (1882-1948) e escreveu as apresentações e quarta capa de todo os livros, infantis e adultos, das coleção Obras Completas, lançada pela editora Globo.

“Eu brinco que eu bebia Lobato no café da manhã, no almoço e no jantar. Foi um percurso natural que eu me tornasse a apresentadora da obra dele. Foi gostoso porque eu fui ‘obrigada’ a ler todos os livros, infantis e adultos. Ele foi muito conhecido pela obra infantil, mas ele também escreveu excelente literatura para os adultos.”

A autora também integra o Conselho Editorial da editora Expressão Popular, que incentiva e produz livros a baixo custo para movimentos sociais. “Essa editora tem uma ligação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, mas não só. Ela agrega uma série de escritores, quase que voluntários, que produzem para esses grupos a um preço realmente baixo, porque a gente sabe que, como há tantos intermediários, os livros chegam ao consumidor final com um valor muito elevado.”

E completa: "Se você trabalhar de outra forma, você consegue que as crianças, os jovens e a população carente tenham acesso aos livros, que são importantíssimos para a formação intelectual do povo brasileiro.”

 

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