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Cultura

Paris: Exposição "Tumulto em Higienópolis" traz polifonias e contradições das grandes cidades

Áudio 07:28
A artista alemã Katinka Bock com a escultura monumental "Rauschen", em cobre e fibra de vidro.
A artista alemã Katinka Bock com a escultura monumental "Rauschen", em cobre e fibra de vidro. RFI
Por: Márcia Bechara
14 min

Em algum lugar fronteiriço entre o edifício do Copan, no centro de São Paulo, e o bairro chique de Higienópolis, encontra-se o fértil terreno de observação que inspirou a artista alemã Katinka Bock a criar a exposição Tumulte à Higienópolis (Tumulto em Higienópolis, em português) em cartaz na nova Fundação Lafayette Anticipations, no coração de Paris.

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Indicada ao prestigioso prêmio Marcel Duchamps na França, a obra de Katinka Bock -  esculturas, ações performativas ou instalações  , é sempre resultado de uma experiência pessoal relacionada a um local específico, e fruto de uma intensa observação histórica, política e social.

A artista alemã, radicada em Paris, conta que sua relação com o Brasil é recente e data da série de viagens que fez à capital paulista este ano a convite da Galeria Pivô, quando criou a exposição "Avalanche". "Como trabalhava no [edifício] Copan, fiquei particularmente interessada pelas diferenças entre os bairros, que são muito flagrantes, especialmente entre os arredores do Copan e o bairro seguinte, que é Higienópolis", lembra.

"Desde a primeira vez que fui ao Brasil, fiquei hospedada nesse bairro. O nome em si já me alertava, Higienópolis. Tem a higiene e a pólis, ou seja, a cidade. É uma combinação interessante, mas também que traz um alerta. A higiene, na contemporaneidade, tem um duplo sentido, entre uma história muito obscurantista, por um lado, e, de outro, uma história modernista de vanguarda", avalia a artista, nascida em Frankfurt, na Alemanha.

Bock conta que se interessou pelo fato de que o bairro de Higienópolis teve a primeira canalização de água corrente da cidade toda construída em cobre, um material particulamente apreciado pela artista alemã, que utilizou placas gigantecas desse metal, vindas da demolição de um famoso edifício, o Anzeiger-Hochhaus, na cidade de Hannover, para construir uma das principais peças da exposição Tumulto em Higienópolis: a gigantesca escultura intitulada Rauschen.

"O que vai embora primeiro: o corpo ou a dignidade?"

Mas são as contradições paulistanas que chamam a atenção da artista, como o contraste e a desigualdade verificados pelas ruas da cidade. "O bairro vizinho, nos arredores do Copan, é muito marcado pela presença da droga, e tem o [viaduto do] Minhocão, que é como uma serpente, aberto ao público, é como uma lâmina que corta a cidade", lembra.

"E existem ainda aqueles prédios vizinhos que ficam tão próximos que sofrem com a poluição. O que se passa acima e, sobretudo, abaixo do Minhocão, esta via suspensa para os carros? Como vivem as pessoas, o que quer dizer viver na rua? O que isso provoca na pele, na dignidade. O que vai embora primeiro, o corpo ou a dignidade?", questiona Bock.

A artista alemã diz ter "transplantado artificialmente" o nome do bairro de São Paulo para a exposição de Paris, porque não há, especificamente, na mostra de Paris, materiais vindos diretos da capital paulista. "Mas existe muito do pensamento que vem de lá, sobre as causas sociais e os elementos de separação desta cidade", argumenta.

"Existe uma peça nesta exposição que se chama ‘Higienópolis’, uma porta em vidro que corta o muro, como todas aquelas propriedades que se isolam da calçada pública com cercas de vidro, e isso, acredito, diz bastante sobre a cidade. Sobre a transparência, mas também sobre o hermetismo, apesar de tudo" analisa.

Prédio da Segunda Guerra

O bronze, a cerâmica e o cobre estão entre os materiais preferidos pela artista alemã, cuja exposição ocupa dois andares deste novo espaço, inaugurado no ano passado, a Fundação Lafayette Anticipations, uma espécie de braço cultural e patrimonial do famoso grupo que congrega as Galerias Lafayette. Katinka Bock conta sobre como trabalhou o cobre retirado de um prédio histórico que atravessou a Segunda Guerra na Alemanha.

"Ganhei de presente este material, retirado do teto, antes da reforma do prédio. Imaginei então uma forma que poudesse acolher o metal sem que ele fosse rompido. É uma forma aberta, uma escultura, não é mais um elemento arquitetônico. É como se fosse um órgão, um corpo", conceitua a artista.

"O cobre é um material incrível. Quase cem anos se passaram e o prédio não foi destruído durante a guerra porque se tratava de um ponto de referência para os aviões que bombardeavam a cidade. Toda a cidade foi destruída, menos essa construção. Este é o ponto de encontro entre a pequena e a grande história", conclui Bock.

A exposição Tumulto em Higienópolis fica em cartaz na Fundação Lafayette Anticipations em Paris até o dia 05 de janeiro de 2020.
 

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