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Meio Ambiente

Menos deslocamentos e explosões, mais reciclagem: como o cinema pode ser mais ecológico

Áudio 06:30
A terceira temporada da famosa série francesa Baron Noir, da emissora Canal+, foi rodada sob a égide da proteção ambiental.
A terceira temporada da famosa série francesa Baron Noir, da emissora Canal+, foi rodada sob a égide da proteção ambiental. Préfécture du Nord/ divulgação
Por: Lúcia Müzell
12 min

Locações extraordinárias em um paraíso escondido do mundo, explosões espetaculares de tirar o fôlego, reconstituição histórica à beira da perfeição. Quando assistimos a um filme, esses detalhes da produção costumam impressionar, mas você já pensou na pegada ecológica da indústria do cinema? Pouco a pouco, o setor começa a prestar atenção em diminuir a poluição, gerada desde a elaboração do roteiro até a estreia e a forma de distribuição.

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O discurso de Joaquin Phoenix ao receber o prêmio de melhor ator no Globo de Ouro ressaltou a emergência do problema, ao acusar Hollywood de ignorar a poluição da sétima arte. Para começar, a escolha do local das filmagens raramente leva em conta o impacto ambiental.

É de praxe a equipe inteira se deslocar para as gravações com seus equipamentos, sem qualquer preocupação com as emissões dos transportes. Com 20 anos de experiência no setor, o produtor francês Mathieu Delahousse viu de perto os desperdícios do cinema e alerta: é preciso dar prioridade máxima aos recursos locais.

“Temos o hábito de trabalhar sempre com os mesmos fornecedores. Sequer paramos para pensar se podemos encontrar na região da filmagem profissionais que nos providenciem os mesmos produtos, em vez de trazer tudo de Paris”, comenta. “Essa reflexão pode ocorrer sobre todos os aspectos da produção: das refeições servidas no set aos técnicos que trabalharão, passando pela decoração. Podemos, por exemplo, encontrar fornecedores de madeira responsável para montar os cenários.”

Para economizar tempo e dinheiro, cenários vão para o lixo

Diante das incoerências que acompanhava, Delahousse e um colega decidiram abrir uma consultoria especializada em promover um cinema mais ecológico. Ele conta que, no início, há quatro anos, o projeto era alvo de deboches, por dar sugestões como acabar com as embalagens plásticas nas gravações e trocar os veículos a gasolina por elétricos. Mas hoje, percebe que a tomada de consciência mundial sobre a crise ambiental fez com que as propostas da Secoya Eco Tournage fossem cada vez melhor acolhidas.

“Vamos preferir um cenário que seja todo desmontável e possa ser montado de novo, em vez do que se faz mais habitualmente, que é destruir tudo e jogar fora para não perder tempo, sem que ninguém mais possa reutilizar esse material”, observa.

Mathieu Delahousse é um dos fundadores da Secoya Eco Tournage, que promove filmes mais ecológicas do roteiro à distribuição.
Mathieu Delahousse é um dos fundadores da Secoya Eco Tournage, que promove filmes mais ecológicas do roteiro à distribuição. Secoya Eco Tournage

Maquiagem também polui

Rara exceção a essa prática de descartar tudo é o figurino, que costuma ser alugado ou revendido após o uso no cinema ou no teatro. Até mesmo a maquiagem do elenco pode ser melhor escolhida, frisa o produtor.

“Muitos produtos de beleza são ou poluentes, ou ruins para a pele, ou os dois ao mesmo tempo. É preciso tomar mais cuidado, afinal um ator pode passar 200 dias por ano maquiado para as cenas”, lembra o francês. “Muitas das maquiagens reputadas pela qualidade possuem, na realidade, ingredientes cancerígenos ou causadores de outros problemas.”

E o que dizer das explosões megalomaníacas dos filmes de ação – ou seja, emissões diretas de CO2 na atmosfera? Mathieu Delahousse ressalta: a solução não é restringir a criatividade do cinema, nem acabar com as superproduções. Mas ele tem certeza de que é possível se chegar aos mesmos efeitos de uma forma mais consciente.

“Não faz muito sentido lançar um James Bond sem carros explodindo, mas podemos pensar melhor em como realizar essas explosões. Talvez voltando a usar miniaturas, como nos anos 1970, e aperfeiçoando a cena com efeitos especiais digitais”, afirma. “Podemos analisar se é mais poluente desta maneira ou fazendo tudo direto no computador, afinal a poluição digital também existe.”

Poluição digital

O impacto ambiental da informática no cinema é considerável. As emissões geradas pelas toneladas de gigabites para a finalização de um filme são apenas o começo do problema: o ápice é a entrada do longa nas plataformas de streaming. Assistir um filme pela internet polui bem mais do que rodar um DVD.

Todas essas adaptações têm um custo, de cerca de 2% do total da produção. Parece pouco – no entanto, para filmes com orçamento limitado, o esforço pelo planeta significa extrapolar a conta. A barreira financeira ainda é a mais difícil de vencer, afirma o produtor francês.

“Se todo mundo experimentar e, daqui a um tempo, fizermos um balanço dessa mudança, tenho certeza de que ficaremos surpresos com os avanços. Mas se continuarmos a esperar que sejam os outros que comecem, não sairemos desse ciclo”, avalia Delahousse.

Na Europa, a expectativa é de que não tardem a ser aprovados subsídios para produções ecorresponsáveis. Na França, por exemplo, filmes que respeitam a paridade de gêneros recebem 15% a mais de financiamento do governo. Propostas semelhantes podem se replicar para a questão ambiental.

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