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“Pagu no metrô”, de Adriana Armony, segue os passos da ícone feminista brasileira em Paris

Áudio 06:53
A escritora carioca Adriana Armony.
A escritora carioca Adriana Armony. RFI
Por: Adriana Brandão
12 min

A escritora carioca Adriana Armony encerra em Paris uma temporada de um ano. Durante a estada, ela seguiu as pistas deixadas na capital francesa por Patrícia Galvão. A escritora, modernista, icône do feminismo brasileiro, conhecida como Pagu, também passou pouco mais de um ano em Paris, entre 1934 e 1935, numa época de grande agitação política. O resultado da pesquisa de Adriana Armony é o projeto “Pagu no metrô”, um romance-ensaio que será publicado em breve.

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Adriana Armony é autora de cinco romances: “A Fome de Nelson” (2005), “Judite no País do Futuro” (2008), “Estranhos no Aquário” (2012), “A Feira” (2017) e “Vamos Chamá-la de Maria” (ainda não publicado). Ela também organizou a antologia de contos “Primos”, em parceria com Tatiana Levy, e onde assina o surpreendente “Espinosa se deita”.

A escritora carioca é doutora em literatura pela UFRJ, professora do Colégio Pedro II e veio a França fazer um pós-doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle sobre a estada de Patricia Galvão (1910-1962) por Paris, um “período muito importante e pouco conhecido” da vida da escritora paulista, ex-mulher do modernista Oswald de Andrade e militante comunista.

Os detalhes de sua passagem por Paris foram ocultados pela própria Pagu em sua “Autobiografia precoce de Patrícia Galvão”, escrita na prisão, durante a Ditadura Vargas, depois que voltou da França. Na carta-confissão, a escritora fala de sua desilusão com o stalinismo, especialmente com o machismo existente no Partido Comunista e fala da ideia da libertação feminina. Mas “por que não existe o pedaço” sobre Paris? quis saber Adriana Armony. “Ela tem sido uma figura sempre emblemática, mas pouco se sabe realmente sobre essa mulher que é muito mais complexa do que apenas o mito Pagu”.

Manifestações antifascistas

Sabe-se que Patrícia Galvão chegou a Paris em meados de 1934, depois de uma volta ao mundo como jornalista, correspondente de jornais brasileiros. No Brasil, ela já havia publicado “Parque Industrial”, o primeiro romance proletário brasileiro; “um grande romance que ainda não foi lido de forma justa”, afirma a pesquisadora.

Na capital francesa, Pagu aderiu ao Partido Comunista Francês com um pseudônimo, frequentou os surrealistas, René Crevel, Benjamin Péret e a cantora brasileira Elsie Houston, participou de manifestações antifascistas, foi presa, ferida e quase expulsa da França.

“Com estes poucos dados, tentei reconstituir o meio filosófico e histórico que a Pagu esteve mergulhada. Foi um trabalho quase 'detetivesco' de seguir as pegadas dela. Busquei arquivos de polícia, de hospital. A história não é exatamente essa. Ela ficou internada vários meses, mas por outros motivos”, conta Armony, que mantém o suspense. “Revelo no meu livro”, promete.

O ano de 1935 é o mais misterioso, diz a escritora, que preencheu os silêncios e lacunas que encontrou na passagem de Pagu por Paris com a imaginação.

Romance-ensaio

Como em outras de suas obras, Adriana Armony parte de um episódio real para criar sua ficção. O livro “Pagu no metrô”, que foi sendo escrito ao mesmo tempo que a pesquisa sobre Patrícia Galvão, tem várias camadas: “o relato da pesquisa é também um romance, meio policial. Ele conta a história de Pagu, mas também resvala para o delírio”, explica.

O delírio fica por conta das referências ao “Zazie no metrô”, romance do francês Raymond Queneau, que conta a história de uma menina do interior que visita Paris pela primeira vez durante um período de greve nos transportes. “Dei muita sorte que minha temporada termina na França com essa grande greve no metrô. Zazie é uma menina abusada em vários sentidos; irreverente, mas sempre às vésperas do estupro, a Pagu também (...) Eu discuto no livro questões relativas a assédio, estupro. É irônico que ela seja um símbolo da libertação feminina”.

Como Pagu, Adriana Armony volta ao Brasil depois de um ano em Paris, em um momento complexo: “Tem uma série de coincidências nesse projeto. A Pagu viveu o período de ascensão do fascismo. A gente está vivendo uma escalada autoritária. A gente não sabe exatamente o que vai acontecer. Mas eu estou apreensiva, mas estou também esperançosa de uma certa maneira. Acho que há muito o que fazer. O fato das coisas estarem como elas estão abre um espaço e, enquanto a gente tiver esse espaço, a gente tem que lutar por ele”, conclui.

Quem estiver em Paris e quiser saber mais detalhes sobre o projeto “Pagu no metrô” de Adriana Armony, a escritora propõe nesta terça-feira (28) um encontro imaginário com Patrícia Galvão no Centro Cultural Franco-Brasileiro Alter Brasilis (11 rue du Fauconnier 75004 Paris) que será completado com um curta-metragem sobre o processo da pesquisa, realizado por Marcela Moura.

Clique para ver a íntegra da entrevista em vídeo

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