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Artes visuais/Lygia Clark

Guggenheim de Bilbao celebra centenário de Lygia Clark com mostra de pinturas experimentais

O museu Guggenheim de Bilbao inaugurou na sexta-feira (6) uma grande exposição dedicada às primeiras obras da artista brasileira Lygia Clark (1920-1988), no ano em que se comemora o centenário de seu nascimento.
O museu Guggenheim de Bilbao inaugurou na sexta-feira (6) uma grande exposição dedicada às primeiras obras da artista brasileira Lygia Clark (1920-1988), no ano em que se comemora o centenário de seu nascimento. RFI/Márcia Bechara
Texto por: Márcia Bechara
9 min

O museu Guggenheim de Bilbao inaugurou na sexta-feira (6) uma grande exposição dedicada às primeiras obras da artista brasileira Lygia Clark (1920-1988), no ano em que se comemora o centenário de seu nascimento. A mostra A pintura como campo de experimentação, 1948-1958, faz referência à expressão “campo experimental”, criada por Clark em 1956. Das primeiras naturezas mortas à “pintura-escultura”, a exposição conduz o visitante pela primeira década da obra da artista mineira, num mergulho vertiginoso pela explosão dos limites da pintura, pela reinvenção das convenções geométricas do plano e pela modulação do espaço.

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Enviada especial a Bilbao

Lygia Clark, pseudônimo de Lygia Pimentel Lins, gostava de se autointitular uma "não-artista". A belo-horizontina, no entanto, tornou-se referência absoluta para uma geração de artistas contemporâneos que se debatem com os limites das formas convencionais da arte, buscando novas subjetividades. Clark provoca furor também no mercado de arte brasileiro. Em 2013, sua obra Superfície Modulada nº 4 foi vendida por R$ 5,3 milhões em um leilão que ocorreu na Bolsa de Arte de São Paulo, tornando-se a obra de arte mais cara de um artista brasileiro já negociada em um leilão.

Depois da grande retrospetiva de suas obras no MoMa de Nova York em 2014, intitulada Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948–1988, a artista volta a ser homenageada, no centenário de seu nascimento, pelo museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, com uma exposição que se debruça sobre a evolução de sua primeira década de "pinturas experimentais".

Dividida em três galerias intercomunicantes, a mostra A pintura como campo de experimentação, 1948-1958 mostra a impressionante curva ascendente de transformação da artista na compreensão das linhas, dos planos, do uso das cores e da explosão dos limites da pintura, nos dez primeiros anos de sua carreira. "Especialmente na primeira década artística de Lygia Clark, os anos entre 1948 e 1958 são fundamentais para se entender o caminho desta artista icônica na América Latina do pós-guerra na busca da linha, das cores, do espaço", diz a curadora da exposição, Geaninne Gutiérrez-Guimarães.

Através de suas viagens entre Paris e o Brasil, Lygia absorveu a abstração do concretismo europeu e a reinventou em suas obras. Seu trabalho se constrói num diálogo com Mondrian (1872-1944), considerado um dos pioneiros da abstração. Da descoberta da linha “orgânica” aos limites do plano, da explosão de cores ao minimalismo monocromático do volume, a exposição no Guggenheim de Bilbao mostra a modernidade precoce da artista brasileira Lygia Clark, um dos pilares do neoconcretismo carioca, ao lado de nomes como Lygia Pape e Hélio Oiticica.

Mas mesmo que a principal vitrine da obra de Clark para a maior parte do público de artes visuais sejam as experimentações com esculturas, as instalações do período neoconcreto e a posterior integração sensorial do público em seus trabalhos, em séries históricas como "Bichos", "Trepantes" ou "A Casa é o Corpo", as primeiras pinturas da artista brasileira, em cartaz no Guggenheim de Bilbao, revelam a pesquisa visceral que ajudou a constituir a espinha dorsal de sua trajetória hors pair

"Através dessas composições ela começa muito tradicionalmente com paisagens, interiores, retratos, figurações, e, ao longo da mostra, podemos ver como ela mudou não apenas para composições mais abstratas, mas também a uma paleta mais colorida. Por meio de suas viagens entre Paris e o Brasil, podemos ver como ela absorveu essa abstração europeia e a trouxe para seu país", explica.

Linha do tempo

Obcecada por suas pesquisas estéticas e filosóficas, Lygia Clark recebeu uma primeira formação artística no final da década de 1940, no Rio de Janeiro, ao lado dos artistas brasileiros Roberto Burle Marx e Zélia Ferreira Salgado. Em 1950, ela realiza sua primeira temporada em Paris [para onde voltaria depois, com o início da Ditadura Militar] para continuar seu treinamento com os mestres modernos Fernand Léger e Árpád Szènes.

Sua primeira exposição, intitulada L.Clark-Ribeiro, ocorreu em 1952 no Instituto Endoplástico da capital francesa, onde apresentou seus primeiros experimentos com a abstração e formas em obras bidimensionais. Ao retornar ao Brasil, no final do mesmo ano, realizou sua primeira individual, Lygia Clark 1950-1952, no Ministério da Educação do Rio de Janeiro.

A primeira parte da exposição no Guggenheim de Bilbao, Os primeiros anos, 1948-1952, mostra, por meio de pinturas e temas tradicionais como retratos, paisagens e naturezas mortas, "o tratamento precoce das linhas, da forma e do espaço desenvolvidos pela artista posteriormente", lembra Geaninne Gutiérrez-Guimarães.

"Na primeira parte da exposição, estamos falando do treinamento informal que Lygia fez com o arquiteto paisagista Burle Marx e com Zélia Ferreira Salgado no ateliê de Burle Marx no Leme, no Rio de Janeiro", diz a curadora. Clark continuou a buscar seu próprio caminho dentro da abstração durante sua primeira curta estadia em Paris, entre 1950 e 1952, quando estudou pintura com os mestres modernos Fernand Léger e Árpád Szenes. A produção da artista neste momento varia de desenhos em grafite e pinturas arquitetônicas a composições cromáticas modulares, baseadas em geometrias prismáticas e formas triangulares.

"Em apenas 10 anos, a artista brasileira se move muito rapidamente, em momentos-chave de sua trajetória artística. Podemos entender também na mostra todas as conexões que se passam na cena artística dos primeiros anos de Lygia no Brasil. Quando ela volta de Paris, a abstração geométrica domina o cenário. Ela então muda suas composições abstratas para uma geometria muito rigorosa, formando o Grupo Frente com Hélio Oitica, Lygia Pape, Aloísio Carvão e Ivan Serpa. Esse grupo se debruça fortemente sobre a representação da abstração geométrica, que é tratada justamente na segunda parte da exposição, A abstração geométrica, 1953-1956", diz.

Como o Grupo Ruptura, em São Paulo, o Grupo Frente absorve as ideologias da arte concreta europeia e adota os princípios da forma pura e da objetividade, que se opõem ao naturalismo e à figuração predominantes no início da modernidade brasileira. Clark participa das exposições coletivas do grupo entre 1954 e 1956.

A terceira parte da exposição no Guggenheim de Bilbao, A modulação do espaço, 1957-1958, traz uma série de grandes composições monocromáticas baseadas sobre planos "negativos" e "positivos", onde a artista procura manipular e reinventar a geometria do plano, com as séries Planos sobre superfícies moduladas, Espaços modulados e Superfícies moduladas.

"Icônica, mulher e radical"

"Lygia Clark teve um enorme impacto não apenas na arte abstrata, mas também entre artistas contemporâneos. Por exemplo, aqui no museu Guggenheim de Bilbao, em 2014, fizemos uma mostra do [artista brasileiro] Ernesto Neto. Quando ele esteve aqui, conversamos sobre sua conexão com Lygia Clark, como a obra dela, principalmente das décadas de 1960-1970, que exige uma participação para ativar as obras, que está muito presente no trabalho dele", analisa a curadora.

"Se eu tivesse que definir Lygia Clark em três palavras, eu diria icônica, mulher e radical", conclui Geaninne Gutiérrez-Guimarães. A exposição Lygia Clark, A pintura como campo de experimentação, 1948-1958, fica em cartaz no Museu Guggenheim de Bilbao até o dia 24 de maio.

* A jornalista viajou a convite do museu Guggenheim de Bilbao

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