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"Bandeira do Brasil foi sequestrada", diz coreógrafo Luiz de Abreu, que apresenta solo no Festival Panorama na França

Áudio 06:49
O coreógrafo e bailarino Luiz de Abreu.
O coreógrafo e bailarino Luiz de Abreu. RFI
Por: Márcia Bechara
11 min

O tradicional Festival Panorama de dança contemporânea, que acontece há 27 anos no Rio de Janeiro, está sendo realizado este ano em Pantin, nos arredores de Paris, depois de ter suas verbas cortadas no Brasil. Um dos destaques da programação é o coreógrafo e bailarino Luiz de Abreu, que apresenta na França, num trabalho de transmissão com o também bailarino Calixto Neto. O solo "Samba do Crioulo Doido" desconstrói clichês que objetificam o corpo do homem negro.

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"Samba de um Crioulo Doido", criado em 2004 como espetáculo selecionado pelo Rumos Itaú Cultural, no Brasil, é um solo de Luiz de Abreu, apresentado em vários festivais pelo mundo. Aclamado pelos jornais franceses em sua passagem pelo Festival Panorama, no Centro Nacional da Dança da França, o solo "nasce a partir da pele negra", como conta Abreu. "O trabalho veio deste corpo, do samba e de todos os clichês que o Outro tem do corpo negro", diz. "Desconstruo esses clichês e os construo de outra forma", conta Abreu.

"Quando estou criando, penso em como materializar minha ideia. No caso desse solo, acho que foi de maneira irônica. A peça fala por ela mesma. Uso umas botas de mulata, uso a bandeira do Brasil, uso uma boca que cria um lábio muito grande. Esses elementos começam a falar por si e a reivindicarem o seu lugar, materializado ali na peça", afirma o coreógrafo. 

"O meu trabalho foi escutar esses materiais. Ou seja, a bandeira do Brasil, onde se passa esse lugar? É o pano de fundo... Ela não é um cenário simples, ela é o pano de fundo, onde se passa essa história. Esse corpo negro que está inserido nessa história. Pego essa bandeira do Brasil e a introduzo no ânus. Eu a introduzo em mim", diz Abreu.

"Em 2004, vivíamos o começo de uma abertura democrática. A gente estava recriando essa nação. Mulheres, gays, negros com seu poder de fala. Essa bandeira era nosso orgulho porque, além de ser um símbolo da pátria, ela representava a nossa nação, o nosso pertencimento", avalia o artista. "Hoje, essa bandeira foi sequestrada. Um grupo de pessoas decidiu que essa bandeira era só deles", ironiza.

Tecido social

"Então [neste trabalho] eu digo não. Não! Essa bandeira não é só o pano, é o tecido social. Ou seja, sou eu, eu estou dentro daquela bandeira. Por isso eu entro e saio daquela bandeira. Eu me embrenho, eu me perco nos seus fios, nas suas tramas", diz o performer.

Abreu, que ficou cego no ano passado após complicações no tratamento de uma doença autoimune nos olhos, realiza um trabalho de “transmissão” com o também performer negro Calixto Neto, radicado em Paris.

"Não se trata apenas de ensinar a coreografia, os movimentos e os gestos para uma outra pessoa. Na verdade, é a transmissão de um negro para outro negro. E não só de gestos e movimentos, mas de vida. Tem uma coisa transgeracional, eu sou mais velho do que o Calixto, sou de uma outra geração. O meu jeito de produzir e de ver o mundo, o meu filtro do mundo é dos anos 1960. Então a gente troca não só o gesto, mas também conhecimentos de vida", conta Luiz de Abreu.

"É um trabalho de mão dupla, de dialogia. Não é só a a escuta, mas escutar o contexto um do outro. Eu acho específico, porque é [um trabalho] de dois negros. Eu acho que, dentro do que chamamos de dança contemporânea, é muito raro isso acontecer", avalia Abreu. "Esse tipo de transmissão acontece na tradição oral, na tradição negra de dança e de cultura popular. Mas dentro da arte contemporânea, essa transmissão que Calixto e eu estamos fazendo é rara, específica e até um pouco inovadora", diz.

"Samba do Crioulo Doido" também foi um dos destaques esse ano da mostra FARaway, em Reims. Para conferir a programação completa do Festival Panorama, em Pantin, basta acessar o site do Centre National de la danse (CN D), até o dia 21 de março.

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