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Covid-19: prorrogação de confinamento na França cancela festivais e preocupa artistas

Em 2019, o festival de música Eurockéennes, em Belfort, no nordeste da França, reuniu quase 130 mil pessoas.
Em 2019, o festival de música Eurockéennes, em Belfort, no nordeste da França, reuniu quase 130 mil pessoas. AFP - SEBASTIEN BOZON
Texto por: Maria Paula Carvalho
5 min

Ainda que a atividade econômica na França deva ser retomada gradualmente a partir de 11 de maio, o setor cultural deverá levar mais tempo para se recuperar. Prova disso é que os grandes festivais, como o de Cannes, não poderão acontecer antes de meados de julho. A RFI conversou com artistas que viram seu percurso profissional ser inteiramente transformado devido à epidemia de coronavírus e que aguardam com ansiedade o fim do confinamento, mesmo sem saber quando voltarão a subir aos palcos.

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Anabel Red, 24 anos, é bailarina. Ela viu sua agenda esvaziar do dia para a noite. Como muitos outros artistas, Anabel costuma se programar com meses de antecedência e esperava com impaciência a temporada de verão, época em que as companhias costumam rodar a Europa. Porém, por conta da Covid-19, a dançarina, baseada na Bélgica, está sem trabalho desde 12 de março.

“Eu deveria estar em Lyon para me apresentar no fim de semana, mas as apresentações foram canceladas”, disse à RFI. “Eu tinha previsão de realizar um workshop na cidade em maio, que foi adiado para junho, mas nem sei se vai acontecer. O confinamento e a incerteza prejudicam minha criatividade e não tenho motivação para preparar algo que talvez seja cancelado”, lamenta.

Para complementar a renda, a jovem trabalha como modelo vivo numa escola de Belas Artes e dá aulas de dança. Mas tudo está fechado e ela se preocupa com as contas que não param de chegar, como expõe num vídeo publicado numa rede social. “Eu consegui pagar o meu aluguel do mês de abril, mas não sei como vai ser daqui para a frente. Já são três meses sem salário”, desabafa.

Ela diz que todo o setor de eventos sofre com o fechamento dos espaços culturais. “Fomos os primeiros a fechar as portas e provavelmente seremos os últimos a abrir porque precisamos de plateia e as aglomerações estão proibidas. Será que o público vai retornar? Será que as pessoas terão medo de ir aos teatros depois do confinamento?”, questiona.

Maior evento de teatro do mundo cancelado

A incerteza provocada pela pandemia de coronavírus também resultou no cancelamento do Festival de Avignon.  A organização do evento teatral mais famoso do mundo, que acontece todos os verões no sul da França e reúne companhias profissionais e pequenas trupes, anunciou o cancelamento de sua edição de julho de 2020.

"As condições não são atendidas para a realização da 74ª edição", escreveram os organizadores em um comunicado à imprensa, depois de "tomarem conhecimento das declarações do presidente da República". Emmanuel Macron explicou na noite de segunda-feira (13) que os festivais não poderiam acontecer antes de, pelo menos, meados de julho.

Programado para o período de 3 a 23 de julho na região da Provença, o evento que chega a reunir um público de 50 mil pessoas foi definitivamente suspenso, deixando muitos amantes da cultura desolados. "Compartilhamos a esperança enquanto isso era permitido, mas a situação impõe outro cenário. Nosso dever agora é preservar e inventar o futuro do Festival de Avignon", declarou o diretor Olivier Py.

O bailarino Kostia Chaix (de chapéu vermelho), na encenação do espetáculo The West, da Companhia Constanza Macras/Dorky Park.
O bailarino Kostia Chaix (de chapéu vermelho), na encenação do espetáculo The West, da Companhia Constanza Macras/Dorky Park. © Thomas Aurin KOSTIA CHAIX / arquivo pessoal

O bailarino Kostia Chaix, de 24 anos, era um dos que estavam de malas prontas para participar do circuito Off de Avignon. “É como a grande vitrine da arte do palco contemporâneo da França e eu iria dançar todo o mês de julho”, disse à RFI.  

Mas essa não foi a sua única decepção. “De março a setembro, eu perdi mais de 20 espetáculos. Desperdiçamos meses de ensaios e por causa do confinamento vamos perder mais de 6 meses de treinamento, já que nessa profissão necessitamos de uma regularidade de exercícios e ficar parado tem um custo enorme para a nossa condição física”, preocupa-se.

“Eu tinha 10 espetáculos agendados em Berlim e uma turnê em Brasília e Salvador, marcada para o mês de abril, que foi adiada para outubro, mas a gente não sabe se vai poder viajar para fora da França até lá”, explica o bailarino franco-brasileiro formado no Conservatório de Lyon.

Além disso, “o problema é que mesmo depois do fim do confinamento não vai ter trabalho imediatamente, pois nesse tipo de profissão, a gente precisa viajar para participar de audições. E tudo vai estar parado”, lamenta. “Talvez leve três ou quatro temporadas para tudo se normalizar. Sem falar que deve haver fechamento de companhias pequenas, já que os teatros vão privilegiar a retomada com as maiores”, diz. Na sua opinião, o mais triste “é que a dança é mais do que uma profissão, é uma paixão e não podemos exercê-la”.

O bailarino franco-brasileiro Kostia Chaix.
O bailarino franco-brasileiro Kostia Chaix. © Arquivo Pessoal

Festival de música cancelado 

O festival de música Eurockéennes, que aconteceria de 2 a 4 de julho em Belfort, no nordeste da França, também foi cancelado devido à proibição de grandes reuniões até meados de julho, conforme anúncio do governo francês. 

"O Eurockéennes não ocorrerá em 2020", escreveram os organizadores em um comunicado à imprensa nesta terça-feira (14) em que detalharam o esquema de reembolso de ingressos já adquiridos. “Os termos e as condições para o reembolso serão especificados na segunda-feira, 20 de abril", acrescentaram os organizadores do evento que, entre outras atrações, reuniria nomes de peso como Massive Attack, Simple Minds, DJ Snake, Lomepal e Last Train.

Premiado em março como o melhor festival internacional, o Eurockéennes de Belfort reuniu em sua edição de 2019, 128 mil participantes em três dias. Organizado por uma associação sem fins lucrativos, o festival é presidido por Matthieu Pigasse.

"Infelizmente, esse cancelamento coloca sérias questões sobre o futuro do festival e da associação Territoire de Musiques. Sujeitas a uma complexa equação financeira, o Eurockéennes sofrerá duramente com este ano sombrio", estimaram os organizadores que, no entanto, afirmam "fazer tudo para mantê-lo" no futuro.

Além dos Eurockéennes, outros grandes festivais de música da França, realizados durante o verão no Hemisfério Norte, também anunciaram o cancelamento de suas edições de 2020, como o Hellfest - um dos maiores eventos de heavy metal da Europa, o Art Rock, o Printemps de Bourges, além do Solidays e do Lollapalooza, em Paris.

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