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RFI Convida

"Bolsonaro não é líder": Emicida lança EP no exterior e reivindica a "doçura"

Áudio 38:56
Emicida lança o EP "Quem tem um amigo (Tem Tudo)" no exterior.
Emicida lança o EP "Quem tem um amigo (Tem Tudo)" no exterior. facebook.com/EmicidaOficial
Por: Márcia Bechara
52 min

O rapper, poeta e compositor Emicida fala, nesta entrevista à RFI, sobre a estética das "lives" na pandemia, a nova economia da música e sobre o novo EP com a canção "Quem tem um amigo (Tem tudo)", lançado globalmente na semana passada, mas também sobre a desconstrução dos estereótipos clássicos do rap, sobre o "presidente da morte", como ele se refere a Jair Bolsonaro, e o "país pelo qual precisamos voltar a nos apaixonar". 

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RFI: Vendo sua live no domingo (10), há a sensação de que todo um novo universo visual e interativo – com público à distância – se abre para os artistas na pandemia (e talvez na pós-pandemia?). O tempo parece se alongar, infinito, numa transmissão online. Queria saber como você cria neste novo habitat. 

Emicida: Ainda não me arrisquei a criar coisas novas nessa janela de tempo que estamos vivendo. Eu, particularmente, estou há 60 dias dentro de casa. Tenho estudado muito. O estudo da música acaba funcionando como uma espécie de terapia. Essa cultura nova das lives, na verdade são ferramentas que já estavam disponíveis, mas que a gente não utilizava porque tinha o advento da presença física. Por mais interessante que seja fazer uma live, ela não substitui o real. 

RFI: Uma outra relação com o público?

Emicida: Com certeza, às vezes fico pensando se não é também uma questão geracional, se a gente não ficou velho. Quando eu era mais novo, a música rap, pelas pessoas que iam nos bailes black da periferia de São Paulo dos anos 1980, era uma "música de vagabundo". Mas nos anos 1980, para as pessoas que iam nos bailes dos anos 1960, a música dos bailes black de 1980 também era "coisa de vagabundo". Então tem uma questão geracional de não perceber essas transformações culturais. Por exemplo, nunca na História uma geração passou por tantas plataformas de informação como a nossa. A gente viu o vinil, a fita (cassete), o mini-disc, o CD, a gente viu o MP3 quando o formato ainda era download, quando a gente entendia que o digital de alguma maneira poderia estar ligado a essa necessidade de "posse", então "tem que baixar a música para ela ser minha", aí vimos o streaming e agora a gente está dando um novo salto, nas vésperas da inauguração da internet 5G em escala global, onde a interação em tempo real está se impondo. Mas, por mais divertido que seja, não substitui o real. É como receber um beijo ou o emoji de um beijo. São duas coisas completamente diferentes, mesmo que elas representem algo muito semelhante. Acho que quando passar tudo isso, esse jeito de fazer concerto vai ganhar um protagonismo maior, acho que isso não vai se dissipar na pós-pandemia. Acho que algumas tecnologias serão aceleradas, a realidade virtual vai dar um salto gigante, talvez a gente veja nos próximos seis meses o que só veríamos em 2024. O que temos de nosso são nossas interações sociais, e a maneira da gente construir ou alimentar essas interações sociais é através do digital. Mas me preocupa também os mecanismos de vigilância do nosso cotidiano, eles evoluirão bastante nesse momento. E agora, com um super argumento completamente valido que é a manutenção da saúde  da população. Isso é legítimo, mas o que vai acontecer com nossos dados pessoais depois da Covid-19?

RFI: Existe, além do universo da criação, também uma nova economia da música, para essa coisa essencial que é saber financiar os artistas, reinventar essa economia. O Laboratório Fantasma parece estar nesse processo. Como você vê essa nova economia? 

Emicida: O mais interessante desse momento é: se quiser, eu posso abrir uma live agora. A Laboratório Fantasma, há 11 anos atrás, foi o epicentro de uma nova forma de gerenciar música no Brasil. Entendemos que gerenciar uma carreira musical não se restringe a vender ingresso ou disco. As pessoas, há bastante tempo, consomem um estilo de vida. É por isso que as redes sociais dos artistas têm um fluxo tão grande. Temos uma boa noção da complexidade do ambiente onde a gente opera. Você tem uma raiz muito firme em seu lugar de origem, mas você também tem uma antena muito bacana que te conecta com o mundo inteiro. Produzir conteúdo, nesse momento, é uma forma de ser visto, a gente precisa ser lembrado quando voltar o “novo normal”. Fazemos isso através dessa cultura de lives. Produzir conteúdo de qualidade é muito caro. Por mais que as pessoas tenham se habituado a consumir coisas pouco criteriosas, ainda existem aquelas que se preocupam com qualidade, pesquisa e elaboração. Fazemos parte desse grupo, não abdicamos de nossa pesquisa para construir essas pontes. A live do domingo contou com o apoio da Pic Pay, da Budweiser, e também das próprias plataformas. Estamos concentrados em entender agora quanto da audiência se transfere para essas experiências digitais que não necessariamente são lives. Se você olhar, por exemplo, a curvatura de crescimento do mundo dos games, isso é muito interessante, ele não tem retração. Estamos atentos a isso, e já estávamos bem antes do coronavírus. Entendemos que isso representa uma narrativa, um estilo de vida, e uma forma de entretenimento também. Conseguimos monetizar as lives porque somos donos do conteúdo exibido, mas não são todos que conseguem. Marcas e pessoas se conectam há muito tempo. Com essa monetização, conseguimos ajudar todas as pessoas que trabalham conosco. Em toda a cadeia de produção da arte, uma parcela ínfima desta cadeia é composta de artistas. Muitas outras pessoas trabalham além dos que sobem no palco, é com elas que estamos preocupados agora.

RFI: "Quem tem um amigo (Tem tudo)" é a canção que você escolheu para lançar globalmente, do disco AmarelO. Agora, com várias referências, Dragon Ball, Wilson das Neves, Zeca Pagodinho, Rashid, Tokyo Ska Paradise Orchestra e Os Prettos. É importante falar de amizade neste momento?

Emicida: Antes disso tudo acontecer, a gente já tinha entendido que essa canção tinha um potencial para fazer algumas conexões, para além do Brasil, não só por causa do tema, mas da sonoridade. Há alguns anos já tocamos fora do Brasil, não nos interessa ser apenas uma reprodução do rap que é feito na América do Norte. Temos uma música muito rica aqui, e queremos compartilhar toda essa riqueza com o mundo. Somos os herdeiros da Elis Regina, do João Gilberto, do Gilberto Gil, do Caetano Veloso, somos a geração que vem depois, temos que oferecer alguma coisa grandiosa para o mundo.  O disco “AmarelO” como um todo e essa música “Quem tem um amigo (Tem Tudo)” mira muito nessa grandiosidade. Porque a gente também atravessa um momento onde o Brasil não vem sendo pauta justamente por essa grandiosidade. As informações que têm levado o Brasil aos tabloides são exatamente o contrário do Brasil pelo qual a gente se apaixonou. E é fundamental que a gente mostre que esse Brasil ainda existe. Esse Brasil que foi cantando pelo Wilson das Neves, pela Bete Carvalho, e que é cantado por nós ainda existe. Falar de amizade é importante porque o único lugar que o capitalismo não alcança são as nossas relações sociais. E é muito triste que a situação da pandemia suspenda justamente essa coisa que nos dá força para viver. Falar de amizade nesse momento é usar a grande força da música de ser este “amigo invisível” que entra na vida das pessoas pelo fone de ouvido.  

RFI: Você representa de certa forma um universo estético “durão”: o rap e os rappers eram, até pouco tempo, uma exclusividade de um universo masculino bad boy, e periférico. Você chega e revira tudo: meninas cis e trans podem e devem entrar no seu palco, e uma onda de doçura pode invadir as letras, e você cria uma empresa familiar que lidera frentes no mainstream que há muito pouco tempo excluíam criadores como você. Até onde essa doçura pode ser subversiva? 

Emicida: Com certeza, a doçura é responsável por toda a transformação positiva que a gente consegue gerar no mundo. Há 11 anos a Laboratório Fantasma desenvolve uma construção empírica que trava uma guerra importante dentro das universidades: ficamos sabendo que há hoje cerca de 1.500 artigos acadêmicos citando a empresa. O ambiente das universidades precisa ser escurecido. É interessante como toda essa geração que adentrou a universidade na última década tem se referenciado nas coisas que a gente tem construído. A gente só conseguiu construir isso por causa da doçura. É o que eu costumo chamar de “ser água”, que não são necessariamente contrárias, mas são muito diferentes. A colonização, a experiência eurocêntrica do mundo, ela se move como se fosse uma rocha. Quando uma rocha se move, ela cria uma espécie de desabamento, um caminho de muita destruição. Já a água tem uma experiência contrária. Por mais que ela possa ser agressiva, e ela se torna agressiva no momento em que ela é represada, revidando violentamente como uma resposta – se não me engano, [o dramaturgo alemão] Bertold Brecht tinha uma frase que dizia “as pessoas falam da violência do rio, mas não mencionam a violência das margens que comprimem esse rio” – eu acredito muito que a gente opere como água. Como já dizia o nossa saudoso Fela Kuti: “a água não tem inimigo”. É na água que a gente se inspira nesse momento, a água de Iemanjá, a água doce dos rios de Oxum. A gente foi apresentado a uma ideia de masculinidade que é muito doentia e muito violenta. No contexto de um bairro pobre, essa masculinidade ensina a gente a ser respeitado ou temido. A gente vai se habituando e criando uma casca num lugar tão violento quanto essa masculinidade. A doçura de se mover e de pensar como a água é o que protegeu a gente dessa lógica. A gente não só é doce, como reivindicamos o direito à doçura, porque ele é urgente.

RFI: Brasil, e a inevitável pergunta do que significa e como você se sente criando e liderando frentes de opinião num pais capitaneado por uma liderança - Bolsonaro, que você classificou como "genocida".

Emicida: As pessoas falam que o Brasil está sob uma má liderança, mas precisamos resgatar o sentido das palavras. Bolsonaro não é um líder. Qualquer pessoa que tivesse uma empresa nunca uma pessoa com as caraterísticas do Bolsonaro seria alçada à função de líder. A liderança requer responsabilidade, visão e capacidade. Estamos flutuando num limbo de muita agressividade e ignorância, isso é muito perigoso. Alertamos para isso há muito tempo. Mas também temos uma visão macro do que estamos vivendo: a situação atual é uma consequência de muita coisa que aconteceu antes. Estamos colhendo o fruto podre de todas as pseudo-conciliações que o Brasil acreditou que fez, mas não fez. Você tem uma abolição da escravatura que acontece num modo completamente questionável, uma canetada de um parágrafo. São milhões de trabalhadores que trabalharam de graça durante quatro séculos abandonados à mingua nas ruas deste país. Existe uma crise social e existencial gigantesca. Culturalmente, o país se organiza para prejudicar e exterminar estes trabalhadores da maneira mais rápida possível. Há um genocídio indígena em curso. Na exposição da fotógrafa Cláudia Andujar, que assina a capa do disco “AmarelO”, há um vídeo de Jair Bolsonaro dizendo todas as atrocidades que ele ia fazer se se transformasse numa pessoa mais poderosa, ele diz isso no Congresso brasileiro, nos anos 1980 e hoje, em 2020, a gente assiste essa pessoa assentada na cadeira da Presidência da República, fazendo tudo o que ele disse que ia fazer. Temos que ser maduros e dizer: ninguém está desavisado nessa brincadeira. A Ditadura, que continua completamente presente não só no nosso imaginário, mas na nossa realidade, está presente no modo operacional das forças policiais do Brasil. Pessoas que estão desaparecidas e seus comprovados assassinos, livres até hoje. E eu nem estou entrando no aspecto ambiental. O garimpo está arrebentando tudo de novo, a floresta e as pessoas, levando o coronavírus para tribos que não tinham contato nenhum com a cidade. Chamo isso de pseudo-conciliações do Brasil, junto com uma imprensa irresponsável e muitas vezes conivente, uma população passional, e um monte de possibilidades sórdidas oferecidas nesse mundo da publicidade, da política enquanto publicidade, nesse mundo pós-Cambridge Analytics. Com todas essas falsas conciliações, temos o poder de produzir esse show de horrores, que todos os dias produz tragédias. O Brasil está sem liderança e à deriva. Mas não acredito que seja o fim. Mas vai doer muito. Acredito que meu papel aqui é informar, compartilhar, construir, inspirar e dizer as coisas com base na nossa experiência de periferia do Brasil, preta, orgulhosa. Mas a gente sabe que essa catástrofe é real, e vai ainda produzir muita dor e muita morte. Alcançamos 12.000 mortos de coroavírus no Brasil hoje. Enquanto o mundo inteiro vê a pandemia como um grande problema a ser combatido o mais rápido possível, Jair Bolsonaro vê o coronavírus como se fosse um grande aliado na sua cruzada de morte.  

 

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