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Cultura

Em quarentena, tradicional Ópera de Paris investe na internet e democratiza oferta

Áudio 06:24
Bailarino da Ópera de Paris Francesco Mura treina em casa, em Paris, no dia  9 de abril de 2020
Bailarino da Ópera de Paris Francesco Mura treina em casa, em Paris, no dia 9 de abril de 2020 AFP - LUDOVIC MARIN
Por: Adriana Brandão
13 min

O setor cultural global usa de muita criatividade para sair da paralisia imposta pela epidemia do coronavírus. O universo digital foi o terreno propício para essas invenções. As lives de artistas são um sucesso, mas iniciativas de instituições mais tradicionais e elitistas, como a tricentenária Opéra de Paris, ajudaram e ajudam a animar os longos dias de quarentena.

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 Opéra de Paris, que já tinha tido um início de temporada complicado por causa da greve contra a reforma da Previdência na França, foi obrigada com o confinamento no país, em 17 de março, a suspender todos os espetáculos previstos até julho. As famosas salas do Palácio Garnier e Bastilha ficarão fechadas até setembro, início da nova temporada. Os prejuízos são enormes, mas a Ópera National de Paris, uma instituição pública, aproveitou esse momento para se reinventar.

Ela já tinha um projeto original com a realização de vídeos voltado exclusivamente para a internet chamado de “3ème Scène” (Terceiro palco). Mas com a crise do coronavírus redinamizou seu site na internet, reformou suas páginas nas redes sociais, e se abriu para o mundo, mostrando que, mesmo isolados, seus artistas continuam a trabalhar.

Momentos do confinamento vividos pelos dançarinos e cantores líricos foram filmados e compartilhados. O vídeo “Dire merci” (dizer obrigado), realizado para agradecer os profissionais de saúde que lutam na linha de frente contra a Covid-19, foi postado em 16 de abril e viralizou. A montagem, assinada pelo cineasta Cédric Klapisch, mostra os bailarinos treinando em casa, sob a cadência da expressiva Romeo e Julieta, de Prokofiev, interpretada pela Orquestra da Ópera Nacional de Paris.

Outros vídeos, postados semanalmente, propõem entrevistas ou perfis dos artistas da casa, que também dão aulas de balé clássico e de canto remotas. A ideia é fazer coisas simples para que mesmo amadores possam acompanhar os cursos, em francês.

Espetáculos da temporada

Mas a principal oferta da Ópera de Paris durante a quarentena é a disponibilibilização integral de espetáculos de dança e ópera da temporada. A cada semana, um novo espetáculo, filmado em parceria com o canal público France TV, é postado e disponível no mundo inteiro durante sete dias.

A iniciativa permite que espectadores assíduos, como o professor de balé Marcos Verzani, brasileiro radicado em Paris há 30 anos, possam assistir aos espetáculos cancelados. Para ele, a oferta agrega potencialmente um público muito mais amplo e democratiza a oferta cultural, principalmente para quem não mora em Paris.

“A Ópera, que é uma instituição difícil de aceitar mudanças, foi obrigada a se reiventar (...) Tem esse mito que os espetáculos da Ópera são impraticáveis, mas para quem mora aqui em Paris, que é o nosso caso, todo mundo que quer, a partir de € 10, € 20, consegue entrar. O grande lado positivo é justamente para as pessoas que não moram aqui. Que normalmente teriam que vir, pagar um hotel, transporte para poder chegar e ter acesso. Nesse sentido, é uma democratização muito bem-vinda”, diz Verzani. Até o momento, mais de 2,5 milhões de internautas já assistiram os vídeos, segundo a Ópera de Paris.

Os espetáculos são filmados para serem, normalmente, exibidos em sessões especiais em salas de cinema. A qualidade das montagens e das filmagens dos vídeos disponibilizadas no site operadeparis.fr é elogiada por Marcos Verzani.

“Eu tenho muitos alunos que preferem ir assistir no cinema do que estar num lugar não muito favorável na plateia da Ópera. Eu acho que isso também é uma bela maneira de permitir às pessoas que nunca viram, que nunca puderam ir, de ter uma ideia pelo menos do que acontece nessas grandes casas de produção de dança e de ópera.”

O brasileiro Marcos Verzani, radicado em Paris há 30 anos, é professor da Academia de Dança de Montparnasse.
O brasileiro Marcos Verzani, radicado em Paris há 30 anos, é professor da Academia de Dança de Montparnasse. Nathalie Pressac (c) 2010

Aproximação com o público

Outro lado positivo apontado pelo professor da Academia de Dança de Montparnasse é a aproximação que os vídeos permitem entre os artistas e o público. “Cada dia um oferece uma entrevista, uma aula. É uma maneira de personalizar as pessoas que fazem parte dessa instituição”.

No entanto, Marcos Verzani tem algumas reservas sobre as aulas remotas de balé propostas pelos primeiros bailarinos. “Aula é uma coisa que tem uma relação pessoal, um contato físico necessário entre o professor e o aluno para ver de que maneira você pode fazer evoluir o trabalho. Essas aulas de vídeo podem te dar a impressão que você é capaz de tudo e não tem ninguém para te dizer o contrário, sobretudo em se tratando de amadores. Há um risco muito grande que é o de dar a ilusão de que o amador é capaz de fazer coisas que ele ainda não está preparado para fazer”, alerta.

Como todas as outras escolas de dança da França, a Academia de Dança de Montparnasse está fechada desde meados de março e reabre em setembro, mesmo que o governo tenha autorizado a retomada das atividades a partir de 22 de junho. “Foi terrível, sobretudo no início. De um dia para o outro, todo os 250 alunos que frequentavam as aulas tiveram que encontrar outras maneiras de continuar trabalhando”, conta.  Por causa de suas ressalvas, Marcos Verzani hesitou no início em dar aulas remotas, mas por insistência das alunas, acabou entrando no mundo virtual.

“Como toda a crise obriga uma aceleração e uma transformação, depois de alguns dias de teste, sobretudo com os alunos que frequentavam os cursos de maneira regular, vimos que existem algumas plataformas que permitem, além de dar aula, ver os alunos. Isso mudou a minha maneira de ver e de aceitar essa nova proposta. No início a ideia era só fazer um teste. Três semanas depois, eu estou vendo que é possível continuar um trabalho”.

Mundo pós-pandemia

Apesar da criatividade e da existência digital, muitos artistas estão em situação de vulnerabilidade. Marcos Verzani ainda não sabe se as aulas digitais serão rentáveis e poderiam substituir os cursos tradicionais. Ele salienta que muitos professores e escolas de dança não vão sobreviver a essa crise.

O bailarino brasileiro lembra que não só a Ópera como outras grandes companhias francesas (Philharmonie, Comédie Française...) estão usando a internet para chegar até o público durante a quarentena e espera que essa oferta digital “continue mesmo depois de uma volta ao normal”.

Enquanto isso, veja e reveja os belos espetáculos da Ópera de Paris como a Traviata, de Verdi, e sua bela ária Adeus do Passado, aqui interpretada por Pretty Yende, em uma montagem assinada pelo badalado diretor de teatro Simon Stone.

 

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