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Diretor selecionado por Cannes fala sobre racismo e sucateamento da cultura no Brasil

Áudio 07:14
O filme brasileiro Casa de Antiguidades fará parte da Seleção Oficial de Cannes.
O filme brasileiro Casa de Antiguidades fará parte da Seleção Oficial de Cannes. © Divulgação

“Casa de Antiguidades”, do paulista João Paulo Miranda Maria, é o único longa-metragem, não só brasileiro, mas latino-americano, de uma seleção de 56 filmes que seriam exibidos este ano no Festival de Cannes, cancelado por causa da pandemia do coronavírus. Atualmente baseado na França, o cineasta conversou com a RFI Brasil sobre cinema, racismo e o sucateamento da cultura no Brasil.

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A produção de João Paulo não vai ter nem tapete vermelho, nem a badalação de Cannes. Mas ele acha que este é o momento do filme, justamente em que o mundo está sob o impacto de um movimento de repugnância ao racismo. Ele explica:

“O filme se encaixa como uma luva neste momento. O longa em si não tem o foco do racismo, mesmo se fala a respeito. Em nenhum momento do roteiro eu descrevia o protagonista como um homem negro. Apenas um brasileiro, do interior, rústico, com marcas do tempo no rosto. Eu precisava de alguém com força, com vibração. Até costumo falar, ‘com sangue no olho’. E isso eu encontrei no Antonio Pitanga. No filme ele enfrenta uma comunidade racista e agora, com o assassinato brutal do George Floyd, essas histórias acabam colidindo."

João Paulo Miranda Maria fala “Casa de Antiguidades”:

O filme é sobre um homem, de Goiás, que acaba em uma comunidade austríaca bem conservadora, no sul do Brasil, no interior de Santa Catarina. Ele encontra uma casa abandonada, cheia de antiguidades e memórias. Isso faz com que ele se lembre de um passado longínquo e ele acaba enfrentando essa sociedade conservadora. O projeto surgiu em 2015, quando eu participei pela primeira vez de Cannes, com meu curta “Command Action”, na Semana da Crítica, e acabei sendo convidado para passar um tempo em Paris e desenvolver o roteiro do meu primeiro longa. Depois, fui conseguindo os parceiros internacionais para a produção, que é franco-brasileira.

 

Entre os selecionados está o longa brasileiro Casa de Antiguidades, dirigido por João Paulo Miranda.
Entre os selecionados está o longa brasileiro Casa de Antiguidades, dirigido por João Paulo Miranda. Carlos Eduardo Carvalho

 

O cineasta explica que o longa, paralelamente também à crise da pandemia, “força a sociedade a rever seus costumes”, a questionar “o consumo, as tradições”:

Primeiramente é um choque cultural, um Brasil diferente. É um filme atual, mas com cara de filme dos anos 70, parece até que estamos na época da ditadura, por exemplo. E não é um Brasil que a gente vai reconhecer, é um interior arcaico, com pessoas falando mais alemão que português. O Brasil hoje está dividido em duas camadas. Uma mais conservadora, que se identifica com Bolsonaro, com viés da direita, e tem o outro lado, que é mais progressista, mais social.

Em relação à violência racial, o diretor lembra que isso vem de longe:

Sempre houve. Na memória do Brasil, na escravidão, há muitas atrocidades que foram feitas. O tema do racismo é muito amplo, muito forte na história da América Latina, principalmente em relação ao Brasil, que foi um dos últimos países a abolir a escravidão. Isso reaparece no filme, através do protagonista. O Pitanga, aliás, participou do único filme que ganhou a Palma de Ouro, “O Pagador de Promessas” (de Anselmo Duarte, 1962), e atuou no Cinema Novo, quando houve toda uma revolução de linguagem, de estética, e é justamente esse caminho que estou seguindo. Não é um filme convencional. Além do conteúdo provocador, ele mexe na ferida do Brasil de hoje, mas também com a linguagem. É um cinema autoral, experimental, artístico, que vai muito na linha dessas vanguardas que vieram dos anos 60. É uma continuação e eu até tomo essa responsabilidade, pois estreando no maior festival de cinema do mundo, mesmo não fisicamente, o selo de Cannes gera uma responsabilidade de estar dentro da história do cinema.

Como Cannes vai promover esses filmes?

Ainda não temos muitos detalhes, sabemos que todos os programadores estão em contato com outros festivais parceiros. A ideia é que o filme estreie em outros festivais no segundo semestre e, depois, nos cinemas. É esperar que a gente retome a experiência coletiva da sala de cinema, que é muito importante, principalmente para este filme, que precisa ter um impacto primeiro da sala de cinema. Depois, claro, vem o streaming. Queremos divulgar o máximo.

 

Antonio Pitanga interpreta um operário negro em uma cidade no sul do Brasil.
Antonio Pitanga interpreta um operário negro em uma cidade no sul do Brasil. Carlos Eduardo Carvalho

 

Qual a importância desse processo na França, de desenvolver o roteiro e chegar até Cannes?

Foi fundamental. Eu vim do interior. Foi uma luta fazer um tipo de linguagem, o meu caminho não foi convencional, procurando fazer um cinema que não está na tendência, ou seja, criar uma tendência, um estilo próprio. Isso é muito difícil, principalmente quando se pensa em mercado. Tudo começou a mudar quando eu fui selecionado pela primeira vez com o “Command Action”, que eu fiz com mil reais, com dinheiro de rifa. Voltei no ano seguinte com outro curta, “A Moça que Dançou com o Diabo”, feito também com rifa, e ganhei um prêmio de menção do júri. Eu percebi que estava tendo muito mais oportunidades fora do Brasil. Eu não tinha estrutura nenhuma no início da carreira. O longa tem parceria do Brasil, da Ancine, do governo brasileiro, agradeço, mas aqui tenho uma estrutura melhor para desenvolver os meus projetos. Acaba sendo uma base muito importante. Eu acabei vindo para a residência da Cinéfondation em 2017, também vinculada ao festival, e aí começaram a surgir convites. Passei a pensar em uma carreira como cineasta internacional. Tanto que neste momento estou morando em Paris.

João Paulo Miranda Maria fala a  respeito do sucateamento da Cultura:

Acho lamentável, também estou comentando nas redes sociais, participando de manifestos. Isso já vem, desde 2016, com golpe de Estado. A cultura passou a ser desvalorizada, perdeu força no atual governo. Cada vez mais ela está sendo destruída. No caso da Cinemateca Brasileira, totalmente sem recursos, sem eletricidade, funcionários sem receber, é a memória de uma cultura que está sendo apagada, jogada às traças, deixada em um brejo. Tudo sendo destruído, como se estivessem realmente tacando fogo nos filmes. É muito triste, uma angústia enorme. Estando fora do Brasil, eu vejo que tenho de tomar até mais responsabilidade, aproveitar de uma estrutura internacional, de visibilidade, para ajudar os brasileiros.

João Paulo Miranda de Maria, diretor de "Casa de Antiguidades".
João Paulo Miranda de Maria, diretor de "Casa de Antiguidades". Patricia Moribe

 

 

 

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