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Cultura

Conheça o “País dos monstros” na reabertura pós-quarentena do Museu d’Orsay de Paris

Áudio 08:52
A exposição "No país dos monstros" está organizada em duas partes: a personalidade, vida e obra de Léopold Chauveau e seu fascinante universo infantil.
A exposição "No país dos monstros" está organizada em duas partes: a personalidade, vida e obra de Léopold Chauveau e seu fascinante universo infantil. © Captura de tela
Por: Adriana Brandão

O Musée d’Orsay, o segundo maior museu da capital francesa, reabre nesta terça-feira (23), após mais de três meses de quarentena. O público vai poder apreciar novamente as obras expostas, incluindo os famosos impressionistas, mas também duas exposições temporárias suspensas com o confinamento: “Au pays des monstres (No país dos monstros), Léopold Chauveau” e “James Tissot, l’Ambigu moderne (o ambíguo moderno)”.

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O museu reabre suas portas, mas não poderá receber o público como antes. Devido às medidas sanitárias para evitar a propagação do coronavírus, a instituição só poderá aceitar um terço dos cerca de 13.000 visitantes que acolhia por dia, antes da quarentena. Os ingressos, com hora marcada, são vendidos exclusivamente online e o uso de máscaras é obrigatório a partir de 11 anos.

Os turistas estrangeiros, que normalmente representam 60% do público, serão raros neste ano atípico. A direção do Museu d’Orsay conta com as exposições temporárias para atrair parisienses e franceses e tentar diminuir os prejuízos de milhões de euros.

“Fizemos tudo para não cancelar nenhuma exposição temporária. Essas mostras são o motor da frequentação para um público de proximidade. Para esses visitiantes, Tissot é um evento que suscita curiosidade”, explica Laurence des Cars, presidente da instituição pública que, de qualquer maneira, deverá contar com uma “ajuda excepcional do Estado” para se reerguer.

A mostra “l’Ambigu moderne” é a primeira retrospectiva de James Tissot (1836-1902) em Paris desde 1985. O francês, que morou muito tempo em Londres, não é tão conhecido quanto Gauguin ou Renoir, mas sua obra representa "uma outra forma de modernidade", dizem os especialistas. O pintor "romanesco e literário", entre impressionismo e academismo, inspirou vários cineastas do século 20, como Martin Scorsese, James Ivory ou Jane Campion. L’Ambigu moderne não chegou a ser inaugurada antes do confinamento e ficará em cartaz até 13 de setembro.

"James Tissot, o Ambíguo Moderno"  exposição no Musée d'Orsay a partir desta terça-feira, 23 de junho. "Em Busca de James Tissot".
"James Tissot, o Ambíguo Moderno" exposição no Musée d'Orsay a partir desta terça-feira, 23 de junho. "Em Busca de James Tissot". © Fotomontagem RFI

Universo estranho

A obra pouco conhecida de Léopold Chauveau (1870-1940) é uma surpreendente descoberta. Médico de formação por imposição da família, o francês largou o jaleco branco aos 50 anos para se dedicar exclusivamente à sua paixão: as artes plásticas e a literatura. A obra de Chauveau ficou durante muito tempo à margem da História da Arte até que uma doação de um neto ao Museu d’Orsay em 2017 revelasse seu nome.

Com suas esculturas, desenhos e contos, o artista autodidata criou um universo estranho, singular e original, habitado por animais e seres híbridos. Em entrevista à jornalista da RFI Muriel Maalouf, a curadora da exposição, Ophélie Ferlier-Bouat ressalta a proximidade entre a obra de Chauveau e o universo infantil:

“Tanto na escrita quanto nos desenhos, sua obra tem realmente uma proximidade com a infância que é inédita nos anos 1920/1930. Nessa época, com frequência, as histórias eram moralizadoras. Já suas histórias para crianças são fábulas de animais sempre com elementos que surpreendem o leitor: quem parece malvado se revela finalmente ajudando outros animais. Há esses recursos inabituais que agradam muito as crianças”, aponta a curadora.

Na exposição no Museu d’Orsay, os visitantes estão rodeados de monstros, gentis e desajeitados saídos diretamente do inconsciente, que passaram a ser o motivo único da obra de Chauveau partir de 1907. São criaturas de um mundo imaginário onde o artista encontrou refúgio.

“O mostro aparece muito cedo na sua produção. Chauveau fala deles como seus filhos. Ele é o papai, o genitor, dos monstros. Evidentemente, a singularidade, a diferença dos monstros, ecoa na própria singularidade do artista. Desde a escola de medicina, ele se sente muito diferente de seus camaradas e socialmente é alguém que não se sente à vontade. No entanto, ele frequenta um meio intelectual em torno de André Gide, de Roger Martin du Gard e poderíamos pensar que ele é sociável. Nada disso! Isso explica aliás o fato dele nunca ter sido verdadeiramente conhecido”, comenta Ophélie Ferlier-Bouat.

Contraponto ao fascismo

Os monstros criados pelo artista são criaturas familiares para Marc Chauveau, seu neto que doou suas obras ao Museu d’Orsay e permitiu sua redescoberta. Ele legou à instituição 18 esculturas e 100 desenhos que integram a exposição e confessa que sente falta da presença dos monstros.

“Eles são como amigos. Quando eu saía do apartamento com minha mulher, a gente os olhava. Havia um que parecia triste de nos ver partir. Quando voltávamos, havia outro contente de nos ver voltar. Assim como meu avô, eu diria que tínhamos uma relação muito pessoal com eles”, conta Marc Chauveau à RFI.

O artista explicou em 1939, pouco antes de morrer, que desenhava “monstros gentis” em contraste com “monstros verdadeiros e vivos que desestabilizam agora o mundo”. Essa era sua maneira de fazer barragem à escalada do fascismo na Europa. Léopold Chauveau era próximo ao Partido Comunista, mas nunca se filiou à sigla.

“Ele era uma personalidade à parte que não gosta de pertencer a um grupo, não gosta de partidos políticos. No fundo, ele era quase um anarquista, uma pessoa de um espírito muito livre”, ressalta a curadora Ophélie Ferlier-Bouat.

“Au pays des monstres, de Léopold Chauveau” agrada tanto adultos quanto crianças. A exposição fica em cartaz no Museu d’Orsay, em Paris, até 13 de setembro.

A maioria dos museus franceses já reabriu após o fim do confinamento no país, mas o Museu do Louvre, o maior e mais importante deles, só volta a funcionar em 6 de julho.

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