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Coreógrafa Lia Rodrigues dedica prêmio francês “aos artistas brasileiros que estão sendo atacados”

Áudio 07:04
A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues ganhou o prêmio "Personalidade Coreográfica do Ano", na França.
A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues ganhou o prêmio "Personalidade Coreográfica do Ano", na França. © Sammi Landweer
Por: Adriana Brandão

A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues acaba de receber o prêmio “Personnalité Choréographique de l’Année” (Personalidade Coreográfica do ano) concedido pelo Sindicato Profissional de Críticos de Teatro, Dança e Música da França. Ela foi recompensada por seu engajamento e trabalho artístico nas favelas brasileiras. A companhia de Danças Lia Rodrigues existe desde 1990, mas desde 2003 é sediada e atua na Favela Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, de onde são originários vários dançarinos do grupo.

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A companhia se apresenta com frequência e sucesso na França e em vários outros países Europeus, onde têm parceiros fundamentais que garantem a sua sobrevivência. Lia Rodrigues é artista associada de dois teatros parisienses, o Théâtre National de Chaillot e o 104, e empresas francesas e europeias apoiam seus projetos artísticos e educacionais na Favela da Maré.

Neste início de 2020, a companhia Lia Rodrigues estava com agenda cheia, programada em vários teatros europeus, festejando seus trinta anos de existência, com o projeto Constelação, que reúne espetáculos de seu repertório, como “Fúria”, uma de suas últimas criações que fez muito sucesso de público e crítica. Duas de suas coreografias “Nororoca” e uma versão de uma Fábula de La Fontaine seriam interpretadas no Teatro de Chaillot de Paris. A estreia estava marcada para o dia 17 de março, dia do início da quarentena na França e tudo foi cancelado.

Personalidade coreográfica do ano na França

Lia Rodrigues recebeu o anúncio do prêmio “Personnalité Choréographique de l’Année” na Holanda, onde está em quarentena desde março. Ela divide com o indiano Akram Khan uma das recompensas mais importantes da Associação de Críticos franceses que decidiu manter a premiação, apesar da interrupção da temporada a partir de março, para “afirmar o apoio ao setor cultural, particularmente afetado pela pandemia”. Os dois foram premiados pelo “engajamento de Khan no dever de memória e de Lia Rodrigues no drama das favelas brasileiras”. Os dois artistas “ilustram como a arte coreográfica é sensível aos murmúrios do mundo”, apontou o comunicado do Sindicato francês.

Lia Rodrigues ficou honrada com a recompensa que dedicou “aos artistas brasileiros que estão sendo atacados”. “Eu acredito que esse prêmio não é para mim pessoalmente, é para colocar luz nas artes brasileiras. O Brasil está sendo destruído por um presidente fascista, facínora, assassino que tem destruído os povos originários, tudo o que a gente conseguiu construir. É um país que está destroçado e as artes dentro disso também”, denunciou nessa entrevista à RFI. Apesar de estar longe do Rio, a coreógrafa continua trabalhando e ressalta a importante campanha desenvolvida pela ONG Redes da Maré, sua parceira, nesse momento de crise: "a Maré diz não ao coronavírus".

Leia a entrevista completa

RFI: Esse prêmio é uma recompensa de toda a sua carreira até aqui?

Lia Rogrigues: “Obrigada pelo convite principalmente neste momento terrível que vivemos. Acho que, antes de tudo, é importante falar desse momento, principalmente no Brasil que está sendo destruído por um presidente fascista, facínora, assassino que tem destruído os povos originários, tudo o que a gente conseguiu construir, ele está destruindo. É um país que está destroçado e as artes dentro disso também.

Eu acredito que esse prêmio não é para mim pessoalmente, mas eu acho que é para colocar luz nas artes brasileiras. É assim que eu recebo o prêmio. Não é somente um prêmio pelo tempo que eu trabalho como coreógrafa, como artista da dança, é também um prêmio pelo trabalho que eu faço na Maré. Além de ser uma artista, eu trabalho lá como artista e isso é muito importante de ser dito. Não estou fazendo um trabalho social, mas um trabalho artístico na favela da Maré junto com a ONG Redes da Maré, minha parceira desde o início. Tem uma Escola de Dança, tem o Centro de Artes, minha companhia esta baseada lá, mas não é um trabalho apenas social.

Eu recebo esse prêmio com muita alegria, acho que ele ilumina uma parte da cultura brasileira que está sendo atacada, vários artistas sendo atacados, e a arte brasileira sendo atacada permanentemente assim como tantas outras instituições brasileiras."

A pandemia te pegou aqui na Europa? Tudo foi cancelado. Você voltou ao Brasil?

“Eu fiquei na Europa. A gente estava num ano muito importante, celebrando os 30 anos da companhia, o que é bastante raro para uma companhia independente. Nós tínhamos uma agenda muito bonita, principalmente aqui na Europa. Há alguns anos eu sobrevivo graças ao apoio de instituições europeias. Eu sou artista associada a dois teatros na França, o Théâtre National de Chaillot e o 104, e tenho vários parceiros na França e em outros países que têm me ajudado. Eles têm realmente sido companheiros firmes para que a companhia possa continuar seu trabalho, não apenas criando, mas a Escola de Dança da Maré recebe da Fondation d’Entreprise Hermès apoio desde o início, desde 2011. E isso faz toda a diferença, principalmente agora que o Rio de Janeiro está num colapso, o estado e a cidade. Há muitos anos que não existe nenhum dinheiro para nenhuma atividade artística. Se não fossem os meus parceiros aqui na França, eu não poderia continuar o meu trabalho.

Eu fui pega de surpresa aqui na Europa. Estávamos em Aix em Provence, com “Fúria”, com uma agenda muito linda para o ano inteiro, e foi tudo cancelado. Eu consegui que meus artistas da companhia embarcassem para o Brasil e eu fiquei. Meu companheiro mora na Holanda e eu fiquei. Eu não tinha noção que ia durar tanto, eu achei que eu pudesse ir e voltar. Estou aqui já há quatro meses. Estou numa situação privilegiada. Tenho o privilégio de poder estar num lugar que eu tenho calma, diferente da maioria da população brasileira. Estou num lugar que me deixa ter um isolamento muito confortável. Mesmo assim estou distante da minha família, da minha casa, do meu trabalho. Mas continuo trabalhando daqui, meu trabalho continua na Maré. A Redes da Maré está fazendo uma campanha maravilhosa “a Maré diz não ao coronavirus”, uma campanha importantíssima que está conseguindo ajudar mais de quinze mil famílias que estão abaixo da linha da pobreza, distribuindo cestas, distribuindo quentinhas para os moradores de rua.”

O Centro de Arte foi aberto e transformado em um local de distribuição de alimentos?

"Uma coisa tão bonita essa mudança. Um lugar que é para as artes, que tem dois palcos muito bonitos que agora estão forrados de alimentos, de água. Eu acho muito bonito como a arte, a cultura, a sociedade se entrelaçam. O mais importante agora é a solidariedade, como a gente encara esse momento. E a sociedade civil tem se organizado no Brasil, fazendo o papel que o Estado não consegue cumprir e a Redes tem feito isso de uma maneira muito bela."

Vários dançarinos e coreógrafos mantiveram contato com o público pelas redes sociais. Você também?

"Nós temos uma outra posição privilegiada. Graças ao apoio daqui dos meus parceiros na Europa, eu estou conseguindo manter com que os artistas da companhia possam ganhar durante esse tempo de pandemia e possam ficar em casa, num verdadeiro isolamento o que é muito raro. Essa é uma situação única, um privilégio único. Eu estou conseguindo fazer isso com muita luta.

Eu não tenho tido nenhuma inspiração para propor nada para o público. Não me sinto neste momento capaz de inventar isso. Eu estou inventando formas de sobreviver. Eu acho que é uma pandemia, não é uma competição de produtividade. Eu tenho visto projetos incríveis na internet, mas eu tenho ficado muito reservada, num silêncio bem grande. Nós (os integrantes da companhia) nos encontramos por zoom, estamos lendo juntos, convido pessoas para conversar conosco. É um trabalho mais interno do que externo neste momento."

Dançarinos disseram que o distanciamento imposto pela epidemia trouxe reflexões sobre a forma de dançar e que isso vai trazer influência. A pandemia pode influenciar suas coreografias futuras?

“Não tenho a menor ideia. Só quando eu entrar em criação. Eu não sou uma pessoa das redes sociais. Eu sou uma pessoa bastante preservada nesse sentido. Eu me dedico muito ao trabalho que eu faço com a companhia da Maré. Eu não sei, eu acho que é muito importante a gente falar: eu não sei! Essa é uma experiência única. Nunca vivi isso antes. Eu acho que é um momento de reflexão sobre o modelo econômico que a gente está seguindo.”

Você chegou a ver essas produções de dança que foram feitas durante a quarentena?

"Muito pouco! Acho que de repente essa produção faz parte desse sistema neoliberal e capitalista. Eu acho muito legal ter outras pessoas criando outras formas. Não quis dizer que não é importante. É superimportante, mas eu acho que a diversidade é importante, o silêncio também é importante, parar também é importante, quando é possível. Eu estou muito envolvida no trabalho na escola para que ela continue. Estou acompanhando uma plataforma que vai ser lançada em breve para consertar o teto do Centro de Arte. Tenho muitas frentes.”

Você não esperou o movimento antirracista para dar voz e valorizar as populações marginalizadas brasileiras. O fortalecimento atual desse movimento é significativo?

“É muito importante que ele se fortaleça, mas é muito importante que as pessoas entendam que isso não é uma coisa de agora. A questão do racismo estrutural no Brasil é uma coisa que acontece desde sempre. E eu acho que é dever e responsabilidade de nós brancos privilegiados termos ações concretas nessa direção. Dar voz, partilhar. Eu espero que isso permaneça e não seja apenas uma onda. É impossível ter uma democracia quando a gente tem um racismo tão estrutural e forte como a gente tem no Brasil. A democracia só é possível quando a gente luta contra o racismo efetivamente, senão a nossa democracia não existe."

Quais são seus projetos para o pós-pandemia?

"Temos o projeto “Constelação” que é em torno dos 30 anos da companhia, mostrando nosso repertório, ainda esta de pé. Estamos programados em Barcelona, em outubro. Mas não sei o que vai acontecer porque depende da entrada dos brasileiros no espaço Schengen. Essa é a grande questão. Como a gente tem um governo que considera a Covid uma gripezinha, os números são assustadores, ninguém sabe que medida tomar e as pessoas não conseguem nem se proteger.

Os espetáculos de setembro acabaram de ser cancelados. Nós íamos para Lisboa e Suíça, mas devido a essa insegurança que todo mundo sente em relação ao Brasil com esses números ainda no pico, foi cancelado, e não sei o que vai acontecer em outubro. Senão, no ano que vem, temos uma nova criação para estrear em dezembro em Paris em 2021, uma turnê França, em janeiro, e nos Estados Unidos em maio. Mas para isso temos que estar vivos, ‘atentos e fortes’, como diz o Caetano.”

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