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Jovens poetas de comunidades cariocas relatam na Unesco impacto da pandemia na cultura

Áudio 07:10
Matheus de Araújo já escreveu dois livros e participa de "batalhas" de poesias.
Matheus de Araújo já escreveu dois livros e participa de "batalhas" de poesias. © Divulgação
Por: Lúcia Müzell

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) promove nesta quarta-feira (22) mais uma rodada do ResiliArt, programa que valoriza e conecta a arte produzida no mundo nestes tempos difíceis de Covid-19. O Brasil não poderia estar de fora: dois jovens poetas do Rio de Janeiro participam da iniciativa e trazem a reflexão sobre as dificuldades para disseminar a cultura nas comunidades cariocas.

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MC Martina e Matheus de Araújo fazem oficinas de poesia e escrita com a organização londrina People’s Palace Projects, que atua no Brasil. "A cultura nunca foi protagonista aqui nessa terra. A gente vive numa terra que parece que governa contra nós. A gente tem que criar outras estratégias para conseguir continuar sobrevivendo”, relata a carismática Martina, idealizadora do Slam Laje, a primeira batalha de poesia falada do Complexo do Alemão, onde ela vive.

"A pandemia trouxe muitas questões à tona. Agravou muitas coisas, como a desigualdade. Tem um verso em que eu falo que 'entre o vírus e a bala, eu não posso deixar faltar nada em casa'. Preciso comer, me alimentar”, complementa a garota, uma das fundadoras do projeto Poetas Favelados.

MC Martina é idealizadora do Slam Laje, a primeira batalha de poesia falada do Complexo do Alemão.
MC Martina é idealizadora do Slam Laje, a primeira batalha de poesia falada do Complexo do Alemão. © Divulgação

Cultura abre para outros mundos

Numa realidade que sempre foi difícil, com ou sem pandemia, a cultura abriu a Matheus de Araújo a possibilidade de se projetar em outros mundos. Estudante de Letras na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), autor de dois livros ("A reza" e "Maré cheia”), o escritor vê a chegada do coronavírus como mais um duro obstáculo na vida dos moradores das comunidades como a dele, o Complexo da Maré.

"Quando a gente pensa que as coisas vão andar de uma forma muito mais fluida, chega a pandemia. Nunca foi fácil e, agora, é mais um motivo para a gente se reinventar, se readaptar para não estagnar e travar”, diz o jovem. "A gente tem que criar esse novo mundo, porque se depender do que a gente vive na realidade, a gente literalmente para, é levado a desistir a todo o momento.”

Vídeo-poemas

Com o apoio do projeto Building the Barricades (Construindo Pontes), da ONG britânica, os dois produziram vídeo-poemas publicados no Youtube. MC Martina encerra um dos seus trabalhos com o questionamento: "já pensou se combatessem o racismo igual combatem epidemia?”

"Quando eu recito, faço o meu trabalho, eu experimento isso momentaneamente, mas eu sei o que é sobreviver. Foi o que eu fiz a minha vida toda”, resume a rapper. “Eu sou uma pessoa supertímida e encontrei na escrita um meio de me acolher, me encontrar. O vídeo-poema que eu escrevo fala muito de dentro, de como o caos de fora influencia no caos de dentro. A timidez é uma consequência do racismo”, analisa Matheus.

O projeto ResiliArt, da Unesco, já atua em 60 países desde o início da crise do coronavírus, que atingiu em cheio o meio cultural. A organização ressalta que a maioria dos artistas do mundo todo já trabalha em condições precárias ou na informalidade, e a recessão mundial provocada pela pandemia coloca o setor em situação de “urgência cultural”.

Os debates virtuais visam aproximar os profissionais e mantê-los mobilizados, compartilhando experiências, contatos e abrindo portas para além da pandemia.

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