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“Estamos presos em Tupinilândia”, diz autor de romance distópico sobre Brasil publicado na França

Áudio 07:02
O escritor Samir Machado de Machado
O escritor Samir Machado de Machado © Tadeu Vilani
Por: Adriana Brandão
12 min

O romance brasileiro “Tupinilândia”, de Samir Machado de Machado, chega às livrarias francesas neste mês de setembro, pela editora Metailié, com tradução de Hubert Tézenas. O escritor gaúcho tem seis livros publicados no Brasil, e “Tupinilândia”, lançado em português em 2018, é o primeiro a ser lançado no exterior.

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O romance de aventuras conta a história de um parque de atrações brasileiro, inspirado na Disneylândia, e construído em segredo no meio da floresta amazônica no início dos anos 1980, no final da Ditadura civil-militar brasileira. Seu idealizador, um rico empresário, admirador de Walt Disney, queria celebrar o nacionalismo e a volta da democracia. Mas o parque, invadido por militares, nunca foi inaugurado. Três décadas depois, um arqueólogo descobre nas ruínas do parque, devoradas pela floresta, uma colônia fascista que ignorava tudo do mundo exterior. Tupinilândia é um romance distópico sobre a história recente do Brasil.

Ele está sendo apresentado na França como um “blockbuster literário, entre Georges Orwell, autor de "1984", e Jurassic Park”. Samir de Machado Machado gostou da comparação. “Temos uma situação orwelliana no Brasil. Temos um ministério do Meio Ambiente que está dedicado a devastar o  ambiente; temos um ministério da Educação basicamente contra a educação; temos um ministério da Justiça que na verdade está se tornando uma polícia política do governo, perseguindo jornalista e opositores. Nós já estamos vivendo a distopia que nossos avós imaginaram que se tornaria o país”, afirma à RFI.

O jovem escritor, que nasceu em Porto Alegre em 1981, se inspirou em Fordlândia —a cidade criada pelo norte-americano Henry Ford em 1920, no meio da floresta amazônica, às margens do rio Tapajós, no Pará, que fracassou como projeto utópico, mas existe até hoje —, mas também nos filmes de aventura que embalaram sua infância.

“Eu queria escrever uma história de cidade perdida que fosse no Brasil. Minha mãe me falou de Fordlândia, que eu não conhecia. Fui pesquisando e percebi que estava trabalhando com as minhas referências de infância, que eram os filmes de aventura e ação da década de 80, principalmente os filmes do Spielberg, "Indiana Jones" e "Parque dos Dinossauros”.

Literatura de entretenimento

Ele usa códigos da literatura de aventura e reflete temas como nostalgia, memória e nacionalismo. Apesar dos temas sérios, defende que faz uma literatura de entretenimento. “Costumo dizer em relação à história da literatura brasileira contemporânea, que quase todo mundo quer ser Balzac e esquece de ser Júlio Verne. Eu queria ser mais Júlio Verne (...) O entretenimento popular acaba sendo a forma mais política de trabalhar a cultura nacional”, acredita.

Quase toda a obra do gaúcho é composta por romances históricos ambientados no Brasil, mas ele acha que Tupinilândia foi o primeiro a interessar uma editora estrangeira por “condensar o imaginário do Brasil atual”.

Os moradores da colônia perdida de Tupinilândia, ex-militares e seus familiares, se recusam a aceitar que a Ditadura Militar acabou, vivem presos nos anos 80 e acham que todo mundo de fora é comunista. “O que não é muito diferente da nossa cultura atual”, comenta Samir.

Metáfora do Brasil?

Ele diz, no entanto, que não quis fazer uma metáfora do Brasil atual. “Não era minha intenção fazer uma previsão do futuro. Eu via o livro como uma metáfora do Brasil de então. Tupinilândia foi escrito mais ou menos em 4 anos, entre 2014 e 2018, no período do impeachment da Dilma e do governo Temer. Era uma reflexão entre aquele momento inicial dos anos 80, que era o fim da ditadura, e o segundo momento que começou em 2016 e que, cada vez mais, parece ser também o fim de alguma coisa, com o governo Bolsonaro, que é um governo fascista que não se admite fascista.”

Mas o livro, que faz uma reflexão sobre a identidade e a cultura nacional, acabou sendo premonitório e por isso, na opinião de Samir Machado, foi bem recebido no Brasil. “Bem ou mal, com a pandemia e com o governo atual nos todos no Brasil estamos presos dentro de Tupinilândia, assim como os personagens do livro”.

 

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