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Cultura

Peça em cartaz em Paris faz sátira violenta das forças políticas e sociais do Brasil atual

Áudio 05:20
Cena da peça Abnegação que fica em cartaz até dia 3/10 no teatro Monfort em Paris
Cena da peça Abnegação que fica em cartaz até dia 3/10 no teatro Monfort em Paris © A. Brandão/ RFI
Por: Adriana Brandão
12 min

A peça "Abnegação" estreou nesta quinta-feira (24) no Teatro Monfort de Paris. O texto, de autoria do dramaturgo paulista Alexandre Dal Farra, é uma sátira violenta sobre as forças políticas e sociais que agitam o Brasil de hoje. A direção da montagem francesa é de Guillaume Durieux.

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Em cena, cinco personagens, quatro homens e uma mulher, revelam as contradições que surgem com a chegada de um partido político de esquerda ao poder. O Brasil ou o nome do partido não são nomeados. As referências ao país estão nos nomes dos personagens — Zé, Paulo, Celso .... — e no cenário que reproduz a paisagem de uma fazenda tropical. Na origem da montagem francesa, a leitura na França de Abnegação I (que é o primeiro de uma trilogia) em 2016, no evento “Les Moissons d’été”, seguida da tradução e publicação do texto no ano seguinte pela editora “Les Solitaires Intempestifs”. Desde então, a montagem da peça começou a ser pensada.

Devido à pandemia, o autor Alexandre Dal Farra não pode vir à França para a estreia. Durante todo o processo de criação, ele colaborou lado a lado com o diretor francês Guillaume Durieux, fazendo algumas alterações no texto escrito inicialmente em 2013, para que a peça fosse mais universal.

“Como a estrutura era muito violenta em todos os sentidos, a misoginia era apenas mais uma violência dentre todas as outras. Isso não é uma crítica ao PT, isso é a sociedade brasileira. O meu medo era isso soar na França exótico, pitoresco e tem umas pequenas alterações nesse sentido”, diz.

Universal

Mas as mudanças foram mínimas, ressalta Dal Farra: “Na época da leitura da peça na França, tinha uma coisa que me incomodava. As pessoas perguntavam: ‘o que você acha que tem nessa peça de universal?’ Eu falava: ‘por que o universal é o que acontece na Europa central, nos Estados Unidos? É obvio que isso é colonial. Todo mundo sabe disso, é a grande moda do momento. Por que eu não posso trazer aqui algo que é muito real, muito brasileiro, mas que é de todos? A gente precisa tornar isso universal também. Entender que a transformação disso em exotismo, é também uma construção ideológica.”

O diretor brasileiro defende a ideia de um teatro onde você possa colocar o mal em cena: “Eu defendo muito o ‘Abnegação’ e tudo que tem de violento nele. Essas coisas não estão lá porque eu tenho uma cabeça problemática, mas porque elas existem no nosso mundo. Eu estava falando de coisas em 2014 que hoje são brincadeira de criança se você comparar com qualquer frase que qualquer pessoa que está no poder no Brasil fala diariamente. Essa violência, esse horror que aparece, ele já estava aí, só a gente que não estava querendo ter contato com ele.”

Humanizar os personagens

O diretor Guillaume Durieux trabalhou quatro anos para adaptar e montar "Abnegação" na França. Ele foi seduzido pela relação entre a realidade e o fantástico da peça. “O Alexandre fabricou um objeto extremamente político, que nos fala mais da condição humana do que de uma simples fábula política. Ele escreve do Brasil para o Brasil, mas acho que pela poesia e ao desconfiar da ficção, atinge uma dimensão mais universal.”

O diretor defende que “o país deste espetáculo é o teatro” e diz que seu maior desafio foi humanizar os personagens: “Para mim, o maior desafio dessa montagem foi encontrar uma certa delicadeza, porque temos cinco personagens em cena extremamente corruptos. Essa montagem não é uma provocação, não queria que o espectador se sentisse agredido, ao contrário, quis humanizar o máximo possível os personagens.”

Para isso Guillaume Durieux recorreu à música e introduziu um coral com os atores que não estava presente na montagem original. “Temos cinco monstros diante dos olhos e eles têm que parecer conosco, como fez Shakespeare em "Macbeth" ou "Richard III". Esses cinco personagens não conseguem se falar. Achei que os atores tinham que ter um lugar para se expressar e isso se faz pela música. Não são os personagens que cantam, são os atores e a unidade acontece.”

“Peça enigmática”; “como um filme de Tarantino”

A ideia deu certo. Sylviane Fortuny, assistiu à pré-estreia de "Abnegação" e gostou. “É uma peça enigmática. Nos perguntamos o que aconteceu, mas o fato do enigma continuar é muito mais intenso que se soubéssemos tudo. A montagem mostra a humanidade dessas pessoas e não nos sentimos longe delas.”

Philippe Dorin, que também assistiu à pré-estreia comparou “Abnegação” com filmes de Tarantino ou Scorsese: “É uma peça muito forte, uma peça de atores. É como uma sinfonia. Essa cena entre quatro paredes é admirável. Não há nenhuma anedota. Poderia ser um filme do Tarantino ou do Scorsese. A gente não sabe muito bem o que está em jogo, mas sabemos do que se trata, vemos isso todos os dias no meio político, financeiro, mafioso. É universal.”

A peça “Abnegação” fica em cartaz no Teatro Monfort de Paris até três de outubro, mas devido as medidas sanitárias contra a Covid-19, o número de lugares em cada representação é reduzido.

 

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