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Iniciativa para entronizar Rimbaud e Verlaine como casal homossexual no Panteão gera controvérsia na França

Verlaine et Rimbaud, "poetas malditos" do século 19 iniciaram uma relação curta e intensa em 1871.
Verlaine et Rimbaud, "poetas malditos" do século 19 iniciaram uma relação curta e intensa em 1871. © Wikimedia Commons
Texto por: Adriana Brandão
5 min

Nos últimos dias, o mundo literário e cultural francês está em ebulição após a iniciativa, acolhida favoravelmente pela ministra da Cultura da França, para que os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine entrem juntos como casal homossexual no Panteão de Paris. “Nada menos panteônico do que a vida e a obra de Rimbaud; nada menos rimbaldiano do que o Panteão”, compara Saulo Neiva, diretor da Agência Universitária da Francofonia para o Caribe e professor titular da Universidade Clermont-Auvergne.

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Desde 9 de setembro, data da primeira petição pedindo a “panteonização” dos dois poetas franceses malditos, a polêmica não para de crescer. Na origem da iniciativa, três especialistas de Rimbaud. Eles lançaram um abaixo assinado no jornal Le Monde propondo que os restos mortais dos dois poetas sejam transferidos para o monumento em homenagem aos grandes homens da Nação como “casal homossexual” e como “símbolo da diversidade”. A petição diz ainda que Rimbaud e Verlaine foram vítimas da “homofobia” implacável do século 19 e que eles são os “Oscar Wilde franceses”.

Além de escritores e outras personalidades, a petição ganhou a adesão de nada menos que nove ex-ministros da Cultura. A atual responsável pela pasta, Roselyne Bachelot, aprovou a ideia e a encaminhou para o presidente Emmanuel Macron, a quem cabe a decisão final.

Gafe

“Macron, não cometa esse erro, ou pior, essa gafe” lançou um manifesto publicado no mesmo jornal e assinado por grandes nomes da literatura francesa e internacional, a começar pelo poeta sírio Adonis, várias vezes indicado para o Nobel de Literatura. Os críticos denunciam uma tentativa redutora, politicamente correta, e uma americanização da cultura francesa. “Associar os nomes de Rimbaud e Verlaine (...) e forçar publicamente, em uma espécie de união civil mórbida, um reencontro que Rimbaud não queria, constituiu uma abordagem social e não memorial”, condena o texto.

O manifesto afirma ainda que os dois poetas teriam detestado a ideia, que é um “contrassenso”. Arthur Rimbaud (1854-1891), autor de “Uma Temporada no Inferno” e “Iluminuras”, não escondia seu desprezo pelo patriotismo. Paul Verlaine (1844-1896), autor de “Romance sem palavras”, chegou a pedir que seus amigos da Comuna de Paris bombardeassem o Panteão.

Quadro "Un Coin de Table", de Fatin-Latour, mostra, entre outros poetas, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud sentados na primeira fila (os primeiros da esquerda para a direita).
Quadro "Un Coin de Table", de Fatin-Latour, mostra, entre outros poetas, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud sentados na primeira fila (os primeiros da esquerda para a direita). © Reprodução wikipédia/ Henri Fantin-Latour-Musée d'Orsay

A relação deles, intensa e breve, não tem nada de um conto de fadas e quase terminou em tragédia. Rimbaud tinha 17 anos quando conheceu Verlaine, dez anos mais velho. Eles ficaram 4 anos juntos e quando o jovem poeta decidiu acabar com o romance, houve uma briga, Rimbaud levou um tiro no ombro e Verlaine ficou dois anos preso.

“O que você acharia de ser enterrado ao lado do seu ex-amante para a eternidade?”, perguntou no Twitter o escritor Laurent Nunez. Além do mais, desde quando se entra no Panteão devido à sua orientação sexual?

Trasnsgressão e ruptura

O professor titular de literatura da Universidade Clermont-Auvergne e diretor da Agência Universitária da Francofonia para o Caribe, Saulo Neiva, também é contra a iniciativa. Segundo ele, “a vida e a obra de Rimbaud se caracterizaram pela transgressão, ruptura e experimentação e seria contraditório panteonizá-lo no século 21. Como se nossa época tivesse desaprendido a lê-lo! Ou não aceitasse a intensidade com que viveu e escreveu”. 

Por essas razões, Neiva acredita que reunir Rimbaud e Verlaine parece inadequado. “Não seria uma tentativa de asfixiar essa paixão tão tumultuosa entre as paredes solenes de um monumento imponente? Seria o engessamento e emburguesamento de uma paixão feita de explosões”, diz o professor.

Golpe de marketing

Os autores da iniciativa são ainda acusados de um golpe de marketing. Os três estão envolvidos na nova publicação de uma biografia de Rimbaud, de Jean-Jacques Lefrère, que chega agora às livrarias francesas. Mas eles não se intimidaram com as críticas. No final de setembro, publicaram um contramanifesto em que chamam os “detratores” de “geração de 68 atrasada”.

O jornalista Frédéric Martel, um dos idealizadores da ideia, defende que “há uma homofobia recorrente nos estudos literários. Nosso objetivo era revelar isso. Daqui para frente os estudos sobre Rimbaud vão poder se reposicionar sobre esta questão negada durante muito tempo”.

Rimbaud está enterrado em Charleville-Mézières, sua terra natal, e Verleine em Batignolles, na periferia de Paris. “Deixem os poetas livres, como eles viveram”, pedem os opositores à “panteonização”. O Panteão de Paris acolhe 73 homens e 5 mulheres. Entre eles apenas um poeta, Victor Hugo.

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