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Mostra em Paris celebra início da carreira de Miguel Rio Branco e fotógrafo desabafa: "Está difícil ser brasileiro hoje"

Áudio 21:15
O artista plástico, Miguel Rio Branco
O artista plástico, Miguel Rio Branco © Captura de tela
Por: Maria Emilia Alencar
28 min

Com mais de 50 anos de carreira, Miguel Rio Branco, fotógrafo, artista plástico, cineasta, talento multidisciplinar com obras em museus do mundo inteiro, expõe atualmente suas fotos de 1968 a 1992 no espaço LE BAL em Paris.

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Rio Branco não pode vir a Paris para a inauguração da exposição, mas se a pandemia autorizar, ele espera estar presente na capital francesa para ver a sua instalação inédita na bela Gare de l’Est em novembro. Foi de seu atelier e sítio em Araras, na região serrana do Rio – de onde ele só sai para os compromissos internacionais – que ele conversou por Zoom com a RFI.

Sobre seu trabalho, o entusiasmo do artista de 74 anos continua intacto. Sobre o Brasil, ele não esconde a decepção e a revolta: “Estamos numa situação quase terminal. A gente realmente está mal”, lamenta.

Miguel Rio Branco “descobriu o Brasil” já adulto. Filho de diplomata, ele nasceu em Las Palmas, nas ilhas Canárias, e cresceu em diferentes metrópoles na Europa e Estados Unidos. Bisneto do Barão do Rio Branco, neto de J. Carlos, um dos maiores caricaturistas e cronistas de costumes do início do século 20 no Rio, ele tinha, apesar dessa ilustre descendência, um contato distante com as suas raízes.

Descobrindo o Brasil

“Quando eu voltei ao Brasil em 1967, foi o começo dos grandes choques de uma série de choques que continuam vindo até hoje. Comecei pelo sertão da Bahia, vendo um país à procura de sua própria identidade. Acho que até hoje não encontrou, espero que não tenha achado, porque se for isso que estamos vendo aí, a gente está ferrado”, ironiza. Visivelmente decepcionado com a situação atual do país, ele acrescenta: “Hoje, os choques são piores porque a gente está regredindo em vez de ir para a frente”.

Sua veia artística se manifestou inicialmente com a pintura, que ele faz até hoje. A fotografia surgiu um pouco depois. Em 1966, estudou no New York Institute of Photography e em 1968 na Esdi (Escola Superior de Desenho Industrial) da UFRJ no Rio de Janeiro, que foi fundamental para a sua formação. Depois de idas e vindas a Nova York, onde trabalhou como diretor de fotografia, ele começa a expor suas fotos a partir de 1972.

Nessa exposição no LE BAL em Paris vemos em grande parte obras feitas no Pelourinho e em Carnaíba, zona de garimpagem no Recôncavo baiano, nos anos 70 e 80. O artista lembra por que “escolheu o Brasil”.

“Eu sempre achei que o Brasil, um país com várias etnias, um país com várias misturas e sem aquele racismo dos Estados Unidos, poderia oferecer alguma coisa nova para o mundo. Mas hoje em dia, infelizmente, a gente viu que não... Eu escolhi o Brasil como esse país grande, rico, com um potencial gigantesco, que foi pouco a pouco sendo destruído”, acrescenta, antes de desabafar: “Hoje eu realmente não sei, acho que ser brasileiro está difícil”.

Cumplicidade e olhar critico

Para realizar o trabalho fotográfico hoje apresentado em Paris, Miguel Rio Branco lembra que conquistou a cumplicidade das prostitutas do Pelourinho e de Carnaíba. “Eu virei o retratista do pessoal” brinca ele.

As personagens estão no centro do trabalho. As fotos não têm muita perspectiva e são quase monocromáticas, com exceção do vermelho que sobressai em muitas delas. Mulheres ou transexuais exibindo seus sexos, quase que conversando com a câmera, em total confiança. Fotos invendáveis, como ressalta ele, mas que fazem parte de coleções de museus.

“A fotografia só como documento não me interessa. Isso não funciona para mim em termos de expressão artística”. Essa frase representa muito mais o Miguel Rio Branco artista plástico do que o fotógrafo, colaborador da agência Magnum durante os anos 80.

Nessa série, as cicatrizes dos corpos machucados pelo tempo e pela vida estão em destaque na obra. O lado plástico do pintor que ele é, vemos também na textura dos muros descascados, na luminosidade, nos ambientes cheios de marcas e referências.

A abordagem poética também é flagrante, a começar pela foto que ganha o cartaz da exposição, intitulada Mona lisa, com o belo olhar melancólico e enigmático de uma mulher que fixa a câmera.

O aspecto onírico dessas fotos também surpreende, lembrando que além do clique da máquina fotográfica, existe algo mais. Fragmentos dissociados do real e captados pela câmera. “Muitas vezes o interessante na imagem fotográfica é o olhar que vai além do que aquela informação está lhe trazendo. Aquela informação só não é o suficiente para mim”, explica ele, sublinhando: “Você tem que ter uma elaboração visual que possa ir além disso”.

“Maldicidade”

Miguel Rio Branco teve várias vidas e antes de se instalar em seu sítio de Araras correu o mundo. Nessa exposição parisiense podemos também ver a sua série de fotos dos anos 60 e 70 dos sem-teto, dos “esquecidos” de bairros de Nova York, como East Village e Bowery.

“Eu voltei para Nova York, onde eu tinha vivido como filho de diplomata e estudado no Liceu francês. Mas eu voltei sem dinheiro e fui viver no que podemos chamar de a parte de baixo da cidade”. Ele observa que, nessas circunstâncias, teve a capacidade de utilizar a câmera como maneira de expressar o choque que teve com uma sociedade que não deveria permitir esse tipo de diferença social. “Você vê as pessoas sendo massacradas mas isso faz parte de um sistema”.

“Meu trabalho sempre teve um olhar crítico e um olhar poético. Essa dualidade sempre foi constante", afirma. Muitas dessas fotos, em preto e branco, que exalam a violência da sociedade americana e a situação de desigualdade dos negros do país, fazem também parte de seu último livro “Maldicidade” da editora alemã Taschen, publicado em 2019, reunindo cenas urbanas de metrópoles de diversas partes do mundo, onde ele aborda o isolamento dos marginalizados das grandes cidades.

O neologismo “Maldicidade” é, segundo ele “uma contração de maldita cidade e a expressão em francês mal d’amour. Você sente a vontade de cidade, mas ao mesmo tempo você sabe que a cidade é complicada e difícil de viver nela. A sobrevivência na cidade se tornou cada vez mais impossível”.

O Brasil é fotogênico?

No posfácio de um dos seus livros, o célebre fotógrafo Sebastião Salgado e sua mulher e assistente Lélia, escrevem que Miguel Rio Branco é o fotógrafo internacional mais profundamente brasileiro, conseguindo captar as cores do Brasil como ninguém.

À pergunta, “o Brasil é um país fotogênico? ” Ele responde: “O Brasil é um país lindo, tem um povo fantástico, mas estamos vivendo a pior época...”

A exposição Miguel Rio Branco no LE BAL em Paris pode ser vista até 6 de dezembro de 2020.

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