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RFI Convida

Exposição fotográfica sobre incêndios florestais na França dialoga com catástrofes na Amazônia

Áudio 07:13
A fotógrafa, Lúcia Guanaes
A fotógrafa, Lúcia Guanaes © RFI
Por: Silvano Mendes
15 min

A fotógrafa Lúcia Guanaes apresenta até o final de novembro no Sul da França duas exposições. As mostras são baseadas nas consequências dos incêndios florestais vividos pela região em 2017. Mas o evento acabou ecoando a situação da Amazônia.

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Lúcia Guanaes expõe entre o Brasil, seu país de nascimento, e a França, seu país de adoção, onde vive há 40 anos, trabalhos de temáticas diversas, que já se transformaram em mostras dos dois lados do oceano. Seu projeto mais recente é o fruto de uma residência artística realizada em Cap Lardier, na região da Côte d’Azur.

Apesar do local paradisíaco, frequentado por milhares de turistas, a fotógrafa foi convidada para retratar o impacto de importantes incêndios que atingiram a reserva natural em 2017, quando 500 hectares de florestas foram destruídos. O objetivo da estadia era mostrar as regiões afetadas pelo fogo.

Mas ao receber o convite, em 2019, Lúcia estava com outro incêndio em mente: as queimadas na floresta amazônica, e principalmente o momento que ficou conhecido como “o dia do fogo”, quando o Brasil registrou milhares de focos de incêndio simultâneos. “Eu estava totalmente em estado de choque diante dessa situação. E, ao mesmo tempo, com raiva e um sentimento de impotência e de fim de mundo. Nesse momento que eles me convidam e eu chego no Cap Lardier com nesse estado de espírito, meio deprimida”, conta a fotógrafa.

Além do trabalho documentário

O objetivo do convite era retratar a região francesa após os incêndios de 2017. Mas Lúcia, ainda impressionada com o que tinha visto no Brasil, adaptou o projeto. “Disse que não queria fazer um trabalho documentário. Queria falar desse sentimento de perda face a uma floresta que queimou, uma árvore morta... Então eu pedi para que fosse organizado em dois tempos”, conta.

Foi assim que ela passou o outono de 2019 (no hemisfério norte) na região, para “procurar os cadáveres de árvores”, antes de retornar, na primavera de 2020, para imortalizar a resiliência da floresta. “Escolhi fazer em preto e branco para criar uma espécie de distanciação, um clima onírico, e falar dessa floresta que temos dentro da gente, e não tanto da floresta real”, comenta a fotógrafa.

Ação do homem, apesar de sua ausência

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Lúcia excluiu os seres humanos de seus clichês. “Foi voluntário. A minha ideia era colocar cada pessoa que vê a foto sozinha, diante da natureza. Mas, indiretamente, a figura humana aparece através de árvores serradas, de troncos de árvores. Então você vê que é uma floresta onde existe um trabalho humano”, explica.

“É importante saber que uma floresta mediterrânea demora entre 50 e 100 anos para se recompor. Se existe um incêndio a cada dois anos, no segundo incêndio ela não se recompõe mais. Daí a importância de se educar a população sobre o perigo de incêndios em florestas”, alerta a fotógrafa. Ela lembra ainda que uma floresta tropical pode, segundo alguns especialistas, levar até 600 anos para se recompor.

Questionada sobre a receptividade de seu trabalho no Brasil e na França, Lúcia faz a diferença clara entre os dois públicos. “De uma maneira geral, o francês é muito mais ligado à natureza que o brasileiro. Por exemplo, quando houve esse incêndio (no Cap Lardier), todas as instituições, independente do partido político, decidiram resolver o problema. No Brasil, é como se não existisse ainda essa consciência. Ainda vemos discussões de representantes do agronegócio que vão dizer que é bom cortar floresta porque limpa [a região]. Eles não têm uma visão a longo prazo do que vai acontecer. O Brasil tem que parar com uma exploração predatória da natureza”, finaliza.

O trabalho de Lúcia Guanaes é apresentado na exposições “Mémoires d’incendie”, no Parque Nacional do Port-Cros, e “(Re)générations au cap Lardier”, em La Croix Valmer, ambas na mesma região do Sul da França, perto de Saint-Tropez.

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