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Documentário que destaca exploração dos trabalhadores em Pernambuco conquista crítica na França

Cena do documentário "Estou me guardando para quando o Carnaval chegar", de Marcelo Gomes.
Cena do documentário "Estou me guardando para quando o Carnaval chegar", de Marcelo Gomes. © JHR Films
Texto por: RFI
3 min

O jornal Libération desta quarta-feira (7) destaca a estreia, na França, de "Estou me guardando para quando o Carnaval chegar", novo documentário do cineasta brasileiro Marcelo Gomes. Filmado na cidade de Toritama, em Pernambuco, berço das fábricas de jeans no Brasil, a obra destaca a exploração selvagem da população local. 

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"Era pior antes, mas não é melhor hoje." Esta é a moral do documentário de Marcelo Gomes, escreve o Libération, que afirma que "a uberização do mundo" chegou aos confins de Pernambuco, onde "uma população de microempresários, felizes com seu neoliberalismo desenfreado e com a exploração selvagem, faz as pessoas trabalharem como mulas para ganhar dinheiro".

Natural de Pernambuco, Marcelo Gomes volta às suas origens para trazer à tona lembranças de sua infância, retratando esse cotidiano e entrevistando os trabalhadores. "No país do milagre econômico, onde o sol não se põe jamais", a vida da população desta cidade de 27 mil habitantes gira em torno da produção de jeans, com nenhum direito social respeitado ou sindicato, nenhuma regulamentação de horas trabalhadas ou férias, "o que conta é apenas a produtividade", destaca a matéria.

Neste cotidiano de acumulação de horas e trabalho em quatidade desmesurada para ganhar dinheiro, os moradores aceitam apenas fazer uma pausa para festejar o Carnaval, escreve o jornal francês. "Esse é o único lazer do ano", momento em que o pouco de dinheiro que sobra pode ser gasto, e "tudo o que resta de energia, de folga, de liberdade de movimento" é permitido.

Belas imagens, dura realidade

O jornal descreve "as imagens mais belas do que a realidade filmada", que são acompanhadas pela voz em off do cineasta "questionando o que vê, relembrando, comparando, criticando e se autocriticando". Marcelo Gomes também se concentra nas histórias de alguns moradores, como Léo, "sedutor e inocente, como um personagem de Pasolini, em sua simples beleza e força física". 

Para o Libération, "cada personagem parece uma publicidade viva dele mesmo", exaltando suas condições e seu trabalho, como se "a escravidão fosse sinônimo de sucesso", "nessa tragicomédia hipnótica do capitalismo moderno". O próprio cineasta tenta não entrar na mesma lógica, se perguntando se seu documentário também é uma espécie de publicidade deste sistema.

"É possível fazer uma obra de arte com a mão de obra?", questiona a matéria. Segundo o Libération, essa mesma pergunta pode ser feita a indústrias que produzem incessantemente dia e noite, "para fabricar o que exatamente?". A resposta fica a cargo de cada espectador de "Estou me guardando para quando o Carnaval chegar".

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