Berlinale estreia formato online inédito; Brasil compete com longa sobre yanomamis

71.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, que este ano testa formato inédito online em março.
71.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, que este ano testa formato inédito online em março. AP - Britta Pedersen

Nada de tapete vermelho nem do glamour das tradicionais estrelas. Coerente com as exigências da pandemia, mas também de seu perfil inovador e rebelde, a edição 2021 do Festival Internacional de Cinema de Berlim - a Berlinale - abre suas portas nesta segunda-feira (1°) em formato híbrido, com uma edição compacta em março fechada para o mercado, e um breve evento presencial em junho. Único longa brasileiro na competição oficial, “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, retraça a mitologia yanomami para denunciar garimpos ilegais, com roteiro coassinado pelo xamã e ativista Davi Kopenawa.

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Quinze filmes em competição, mas sem grandes estrelas, tapete vermelho ou salas escuras: a Berlinale, o primeiro festival de cinema europeu do ano, estreia online nesta segunda-feira (1°), símbolo de um setor cultural prejudicado pela pandemia.

Na mostra competitiva Panorama, o Brasil vem representado nesta edição 2021 pelo belo longa-metragem “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, diretor brasileiro que levou o Prêmio Especial do Júri em Berlim, em 2018, pelo “Ex-Pajé”. O filme “A Última Floresta”, que mistura a linguagem documental à encenação "hors pair" da cosmogonia yanomami por atores índios, recupera mitos da tradição indígena numa aventura pela floresta Amazônica, entre resgate da memória oral e ativismo contemporâneo. O longa denuncia a invasão dos garimpos ilegais, tragicamente ligados à história do povo yanomami.

“A Última Floresta”, longa-metragem dirigido por Luiz Bolognesi, fará sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, como parte da mostra Panorama, nesta quarta-feira (3).
“A Última Floresta”, longa-metragem dirigido por Luiz Bolognesi, fará sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, como parte da mostra Panorama, nesta quarta-feira (3). © Pedro J Márquez

Outra produção brasileira, "Os Últimos Dias de Gilda", de Gustavo Pizzi, concorre na mostra parelela com "uma reflexão sobre a liberdade, o papel da mulher na sociedade, a autoaceitação e a perigosa aliança entre religião e poder público". Adaptação do monólogo teatral homônimo de Rodrigo de Roure, a série foi criada e dirigida por Gustavo Pizzi e co-escrita com Karine Teles. 

A seleção da Berlinale tradicionalmente dá lugar de destaque ao chamado "cinema de autor" e aos "primeiros filmes". E, normalmente, tende a ignorar os blockbusters do cinema norte-americano ou as grandes produções do box office.

Doze diretores e seis diretoras concorrem ao prestigioso Urso de Ouro, que deverá ser atribuído na sexta-feira (5), no final deste festival, num formato reduzido de 5 dias em vez dos 10 tradicionais. O júri, composto este ano por seis diretores premiados pela Berlinale, excepcionalmente não tem presidente em 2021.

Também, pela primeira vez, o festival deve atribuir um prêmio de interpretação “sem-gênero” (gender neutral), no lugar dos tradicionais prêmios de melhor ator e melhor atriz, uma verdadeira singularidade entre os grandes festivais mundiais de cinema.

Devido à pandemia, esta 71ª edição será então realizada em duas etapas neste formato híbrido, sendo as exibições abertas ao público adiadas de 9 a 20 de junho.

Filmados durante a pandemia

As produções foram realizadas total ou parcialmente durante a pandemia, disse o diretor artístico da Berlinale, Carlo Chatrian. “Embora apenas alguns filmes mostrem diretamente o novo mundo em que vivemos, todos eles carregam a incerteza destes tempos”, disse ele, “uma sensação de pavor está presente em todos os lugares”.

Criada em 1951, a Berlinale foi no ano passado o último grande festival europeu a poder ser realizado antes dos fechamentos de salas. A programação dos festivais europeus, desde então, foi virada de cabeça para baixo. Cannes, que costuma acontecer em maio, não pode ser realizado no ano passado e a edição de 2021 já foi adiada para julho.

Mas dada a situação sanitária, o festival pode ter que esperar até o outono, quando a programação já está apertada, com os festivais de San Sebastian e o Festival de Cinema de Veneza.

Assim como a Berlinale, outros festivais optaram pelo streaming, por falta de algo melhor: o festival de Gérardmer, o maior da Europa dedicado a filmes de gênero, fez a mesma escolha em janeiro, assim como o Sundance, um dos maiores festivais de cinema independente do Estados Unidos.

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