César 2021: entrega do César, o "Oscar francês", é marcada por protestos contra cinemas fechados

A equipe do filme "Adieu les cons" recebeu o César de melhor filme no palco do Olympia de Paris, na ausência do diretor Albert Dupontel.
A equipe do filme "Adieu les cons" recebeu o César de melhor filme no palco do Olympia de Paris, na ausência do diretor Albert Dupontel. AFP - BERTRAND GUAY

O grande vencedor da 46ª edição do César 2021, o Oscar do cinema francês, foi a comédia "Adieu les cons" ("Adeus, idiotas", em tradução livre), do cineasta Albert Dupontel. O filme conquistou sete prêmios, entre eles os de melhor filme, melhor direção e ator coadjuvante, uma premiação considerada um pouco "exagerada" pelo jornal Le Monde. 

Publicidade

O filme de Dupontel é uma fábula anárquico-poética na qual um geek à beira do suicídio (interpretado pelo diretor) socorre uma ex-cabeleireira (Virginie Efira) na busca pelo filho que ela abandonou logo após o nascimento. A consagração do humor ácido e absurdo de Dupontel, 57 anos, que conquistou seu primeiro prêmio de direção, não teve, no entanto, a unanimidade da crítica. "Este filme, no qual um cego guia dois maltratados pela vida, tira sua força do tapa na cara que dirige aos bem-intencionados e a instituições como a polícia", escreve o Le Monde. "Mas sete prêmios parece muito", diz o jornal.

Dupontel brilhou por sua ausência na casa no palco do Olympia, em Paris, onde a premiação foi entregue na noite desta sexta-feira (13). Mas o júri seguiu a preferência do público. Nos nove dias em que permaneceu em cartaz, no ano passado, o filme foi um sucesso de bilheteria, com 700 mil ingressos vendidos, em plena pandemia. 

A grande decepção desta edição do César ficou para o longa de Emmanuel Mouret – "Les choses qu'on dit, les choses qu'on fait" ("As coisas que dizemos, as coisas que fazemos", em tradução livre). O filme era favorito, com 13 indicações, mas deixou o Olympia sem recompensas, assim como o longa "Eté 85" ("Verão 85"), de François Ozon.

O prêmio de melhor atriz foi atribuído a Laure Calamy por “Antoinette dans les Cévennes” (Antoinette nas Cevenas, em tradução livre), no qual interpreta uma iniciante em caminhada esportiva, acompanhada por um burro. O desempenho da atriz encantou o público entre os dois lockdowns decretados na França, entre o primeiro e do segundo semestre do ano passado. 

Sami Bouajila ganhou o César de melhor ator por "Un fils" ("Um filho", em tradução livre), do cineasta Mehdi Barsaoui. Ele interpreta o papel de um pai dilacerado. “Muitas vezes, tenho a impressão de que os papéis nos escolhem, mais do que nós os escolhemos”, disse o ator ao receber o prêmio, explicando como as filmagens no deserto da Tunísia o lembraram das histórias de infância de seu próprio pai.

Artistas negros premiados

A 46ª edição do César teve atmosfera diferente da ocorrida no ano passado, quando a atriz Adèle Haenel deixou a sala num protesto ruidoso à premiação do cineasta Roman Polanski como melhor diretor, apesar das denúncias de estupro e agressões sexuais.  

Um dos pontos altos da noite foi a nomeação de dois artistas negros – Fathia Youssouf e Jean-Pascal Zadi como revelações feminina e masculina de 2020, respectivamente. O presidente da cerimônia, Roschdy Zem, prêmio de melhor ator em 2019, frisou que “a profissão está mudando”. "As regras do jogo estão mudando, não para interromper o jogo, mas para disputar com igualdade, desta vez", disse ele.

Jean-Pascal Zadi codirigiu e atuou como ator principal de "Tout simplement noir" ("Tudo simplesmente negro"), uma comédia que ataca os estereótipos racistas. “Cada geração deve encontrar sua missão, cumpri-la ou traí-la”, disse, ao receber a estatueta, citando o pensador Frantz Fanon. A revelação feminina Fathia Youssouf é coroada aos 14 anos por sua interpretação em "Mignonnes" ("Bonitinhas", em tradução livre), filme sobre uma jovem parisiense de origem senegalesa, nascida em uma família adepta da poligamia.  

A cerimônia no Olympia com um número reduzido de convidados foi marcada pela grande preocupação do setor com a crise sanitária prolongada. Um ano depois do início da epidemia de Covid-19, os cinemas franceses estão fechados desde outubro e sem perspectiva de reabertura. Artistas, técnicos, distribuidoras e proprietários de salas se sentem desprezados pelo governo. Nos últimos 12 meses, as salas ficaram nove meses impedidas de funcionar. Por isso, a frustração da categoria foi manifestada no palco do Olympia em várias ocasiões na noite de sexta-feira.

O protesto mais comentado foi o da atriz Corinne Masiero, que interpreta a Capitã Marleau em uma série popular da TV francesa. Ela subiu ao palco para entregar o prêmio de melhor figurino e apareceu nua, com o corpo parcialmente coberto por uma pele de animal manchada de tinta vermelha, semelhante à utilizada por Catherine Deneuve em "Peau d'Anne" ("Pele de Asno", em tradução livre).

Com o sangue fazendo alusão às imensas dificuldades enfrentadas pelos artistas franceses neste momento crítico da pandemia, Corinne Masiero exibiu em seu ventre a frase "Sem cultura, sem futuro" e nas costas "Devolva a arte, Jean", em referência ao premiê francês, Jean Castex.

“Agora, nós estamos assim, todos nus”, disse ela, com absorventes femininos nas orelhas, para ilustrar os períodos de interrupção de trabalho de artistas e técnicos.

“Os meus filhos podem ir à Zara e não ao cinema. É incompreensível! Precisamos de vontade política para que o cinema continue a evoluir", disse Stéphane Demoustier ao receber o César de melhor adaptação para "La fille au bracelet" ("A menina da pulseira", em tradução livre). Ela se dirigiu à ministra da Cultura, Roselyne Bachelot, presente na premiação, e cobrou "mais responsabilidade" do governo em relação às decisões na área da Cultura.

Com informações da AFP

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.