Em festival de Toulouse, cineastas brasileiros protestam contra desmonte da cultura por governo Bolsonaro

A documentarista brasileira Maria Augusta Ramos, grande homenageada no Cinélatino, em Toulouse.
A documentarista brasileira Maria Augusta Ramos, grande homenageada no Cinélatino, em Toulouse. © Daniella Franco

Eles são homenageados, prestigiados e premiados neste que é um dos festivais mais tradicionais do cinema latino-americano na França, realizado em Toulouse. Sem clima para comemorações, os cineastas brasileiros fazem do Cinélatino um palco para protesto contra o desmonte da cultura no Brasil.

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Daniella Franco, enviada especial a Toulouse

“É um momento absolutamente tenebroso, de silenciamento de artistas e cineastas, da arte e da cultura. O autoritarismo e o fascismo se alastra nesse momento no Brasil promovido por todo o governo, mas principalmente pelo presidente Bolsonaro e seus filhos”, diz a documentarista Maria Augusta Ramos, radicada na Holanda. Ela é uma das grandes homenageadas desta edição do Cinélatino.

O evento, realizado na Cinemateca de Toulouse, promove uma retrospectiva da obra da cineasta, focada no sistema judiciário do Brasil. Além da trilogia “Justiça”, “Juízo” e “Morro dos Prazeres”, o festival também exibe o aclamado “O Processo”, sobre os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff. Em Toulouse, Maria Augusta também lança seu novo documentário, “Não toque em meu companheiro” em que coloca em paralelo a histórica e solidária greve de funcionários da Caixa Econômica Federal nos anos 1990, durante a curta era Collor, às perdas dos direitos trabalhistas e a uberização do trabalho durante o governo Bolsonaro.

O presidente do Cinélatino, Francis Saint-Dizier, comemora a vinda de Maria Augusta ao festival, que, em paralelo às projeções em Toulouse e em outras cidades da região, também ministra masterclasses. “Um olhar sobre a sociedade brasileira” nesta sexta-feira (11). “A realidade do Brasil hoje nos toca muito. Também somos militantes da democracia e Bolsonaro é o contrário de tudo o que defendemos. Então, poder falar de tudo o que acontece no Brasil, através dos documentários de Maria Augusta, é uma ótima ideia”, afirma.

Cinema de resistência

O Brasil também está representado no Cinélatino por outra documentarista, a cearense Andrea Santana, que mora na região parisiense. Com o francês Jean-Pierre Duret, ela realizou “Rio de Vozes”, que retrata o cotidiano dos moradores que vivem à beira do Rio São Francisco, no Sertão Nordestino.

O trabalho, que vem conquistando a crítica francesa pela poética fotografia e os personagens cativantes com quem Andrea e Jean-Pierre conviveram durante quatro meses de filmagens, também tem uma forte mensagem política.  

“A forma de resistência dessas comunidades diz respeito a todos nós. Porque se tudo isso desaparecer, o rio e todas essas culturas, somos todos nós que vamos ficar fragilizados. Então, o que a gente espera é que os espectadores possam refletir sobre porque estamos deixando tudo isso se acabar. É um filme político porque não deixa de ser uma forma de alerta”, diz Andrea.

A documentarista também expressa sua revolta com a crise no setor cinematográfico brasileiro. “É de uma tristeza profunda. Espero que continue a existir uma grande indignação e uma grande vontade de mudança porque é um absurdo o que está acontecendo. E que daqui a pouco mais de um ano a gente possa comemorar um outro tempo que vai apagar essa memória triste deste período”, ressalta.

Já para o cineasta João Paulo Miranda Maria, que está morando na região parisiense e vem ao Cinélatino para projeção de seu primeiro longa-metragem “Casa de Antiguidades”, esse pode ser um período propício para mudanças. “São momentos como o pós-crise onde há espaço para uma revolução, em vários sentidos e, porque não, artística e cinematográfica. É neste momento que eu estou chegando e é muito importante para mim assumir essa responsabilidade de imaginar o nosso cinema de amanhã”, diz.

“Casa de Antiguidades”, conta a história de Cristóvão - interpretado com maestria pelo ator Antônio Pitanga - que enfrenta o racismo, a exclusão social e a exploração como trabalhador migrante do Centro-Oeste brasileiro em uma comunidade de descendentes de austríacos no Sul do Brasil.

No Cinélatino, o filme recebeu uma menção especial da crítica e recebeu também o prêmio da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. “Casa de Antiguidades” também foi o único filme latino-americano na competição oficial do Festival de Cannes de 2020, que acabou sendo cancelado devido à pandemia de Covid-19.

Curtas-metragens premiados

Também premiados em Toulouse estão dois curtas-metragens brasileiros. “Menarca”, de Lillah Halla, recebeu o prêmio do público. Já “Inabitável”, ficção científica LGBT de Enock Carvalho e Matheus Farias, recebeu o prêmio revelação de ficção.

A dupla, que vive em Recife (PE), não pôde vir ao festival devido às restrições aos viajantes brasileiros no exterior, impostas por vários países para controlar a pandemia de Covid-19. Em entrevista à RFI, eles expressaram sua insatisfação com o descaso do governo brasileiro em relação ao desmonte do cinema nacional.

“Não é só a cultura de agora que está sendo perdida, é a cultura da nossa história. Isso não é apenas falta de cuidado com os artistas e a cultura do Brasil, mas é uma ação afirmativa contra a classe artística brasileira. E a gente sabe que um país sem cultura é um país sem vida, expressão e voz”, afirmou Matheus.

Franck Lubet, responsável pela programação da Cinemateca de Toulouse, se solidariza e acolhe o protesto dos cineastas brasileiros, mas não esconde sua decepção com essa situação. “A Cinemateca sempre foi um lugar de liberdade e expressão. Mas, ao mesmo tempo que eu fico feliz que os cineastas brasileiros possam encontrar aqui seu espaço, me sinto triste porque eu também gostaria que eles fossem ouvidos em seu país. Por isso, espero muito que as coisas possam em breve mudar no Brasil”, afirma.

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