Especial Berlinale

Berlinale: Pioneira alemã do cinema trans revisita dores e conquistas da comunidade queer de São Francisco

A icônica Annie Sprinkle (dir.) ao lado de sua mulher, Beth Stephens, no filme "Genderation", da diretor alemã Monika Treut, que concorre ao Prêmio do Público na Mostra Panorama desta edição de verão da 71a. Berlinale.
A icônica Annie Sprinkle (dir.) ao lado de sua mulher, Beth Stephens, no filme "Genderation", da diretor alemã Monika Treut, que concorre ao Prêmio do Público na Mostra Panorama desta edição de verão da 71a. Berlinale. © DR

No último ano do último milênio, há 22 incríveis anos-luz, a cineasta alemã Monika Treut partiu câmera em punho para retratar a então incipiente comunidade trans de São Francisco, onde se realizavam as primeiras experiências do que hoje conhecemos como gender fluid, gender bender ou simplesmente gender hacker – uma identidade fluida que recusa os grilhões do binarismo homem-mulher. Em 2021, Treut revisita no documentário “Genderation” as mesmas personagens do primeiro filme, “Gendernauts”.

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Como é envelhecer sem o apoio dos estereótipos banais da sociedade tradicional? Como é envelhecer tendo rompido no próprio corpo – a primeira morada – a química, a física e a matemática do desejo aceitável pelas instituições estabelecidas? Como é envelhecer tendo feito isso tudo em São Francisco, hoje uma cidade altamente gentrificada, onde morar – fora do corpo, vejamos, numa tradicional habitação popular – se torna uma tarefa quase impossível para uma geração que se impôs o rompimento com as normas do capitalismo? Como é ter medo nessa virada, e, às vezes, se permitir sucumbir às normas para sobreviver?

A cineasta alemã Monika Treut se permite todas essas perguntas sem maniqueísmos nem complacências com as personagens de seu novo documentário, “Genderation”, a geração que transformou o “gender”, o “gênero”, essa palavra tão proibida na boca de fundamentalistas religiosos e políticos de direita e de extrema direita em todo o mundo. O filme é exibido pela primeira vez para o público na Mostra Panorama desta edição de verão da 71ª. Berlinale, o festival internacional de cinema de Berlim.

Sandy Stone, hoje com 84 anos, em cena de "Genderation", de Monika Treut". Stone é uma das mais antigas pioneiras do ativismo trans em São Francisco, professora da universidade do Texas, em Austin, considerada uma das fundadoras da disciplina acadêmica sobre a transidentidade nos Estados Unidos, e no mundo.
Sandy Stone, hoje com 84 anos, em cena de "Genderation", de Monika Treut". Stone é uma das mais antigas pioneiras do ativismo trans em São Francisco, professora da universidade do Texas, em Austin, considerada uma das fundadoras da disciplina acadêmica sobre a transidentidade nos Estados Unidos, e no mundo. © DR

A tarefa da diretora não foi exatamente fácil. Treut não é apenas uma observadora externa da comunidade trans de São Francisco. Ela fez parte dessa comunidade e participou ativamente dos trânsitos subversivos de gênero da geração “Gendernauts”. A diretora realiza com este documentário um verdadeiro tributo cinematográfico a todos os "artistas pioneiros" da “terra dos novos gêneros” os “ciborgues sexuais”, que mudaram seus corpos por meio de novas tecnologias e da bioquímica e, assim, questionaram a própria existência de conceitos como "masculino" e "feminino".

Cerca de 20 anos depois, Treut retorna finalmente à Califórnia em “Genderation” para se encontrar novamente com estes protagonistas de seu premiado documentário queer. Em cena, Sandy Stone, Susan Stryker, Stafford e Max Wolf Valerio, os pioneiros do movimento trans norte-americano dos anos 1990. A maioria deles morava em São Francisco, então um paraíso para as lideranças da vanguarda sexual da época. 

Hoje, os gendernautas têm entre 58 e 84 anos e tiveram que se mudar para outras regiões. São Francisco se tornou a “cidade-dormitório dos funcionários bem pagos das empresas de alta tecnologia do Vale do Silício”, lembra Treut. O movimento alternativo mudou-se para o menos caro bairro de East Bay, os desertos do Sul, as províncias do norte da Califórnia ou, como Max, para o Colorado.

A veterana da turma, Sandy Stone, de 84 anos, é considerada a fundadora da disciplina acadêmica da transidentidade, nos Estados Unidos e no mundo. Professora da Universidade do Texas, ela é também especialista em tecnologia da comunicação e novas mídias. Uma das passagens mais pungentes do documentário mostra o momento em que Stone recebe a confirmação por telefone de que, finalmente, aos 80 anos, conseguiu comprar uma casa. A cena, que pode soar banal numa primeira leitura, ganha cores e camadas dentro do contexto da gentrificação de São Francisco e da luta da comunidade trans por direitos civis de base. Afinal, uma vida de luta, quanto vale?

No filme, a energia dos ativistas de gênero e seus apoiadores, como a icônica artista performática do feminismo pro-sex, Annie Sprinkle, e a escultora Beth Stephens, continua intacta. Como suas vidas mudaram nos anos que se passaram? Como esses ativistas dos direitos civis lidam com a política conservadora de direita que ameaça os direitos conquistados a duras penas pelas minorias sociais nos Estados Unidos? Nesse contexto do novo milênio, “Gendernauts” relembra uma época que agora parece utópica e nos mostra a resistência criativa dos pioneiros do gender hacking em meio às difíceis condições de vida das pessoas trans.

"Conheci Anne Sprinkle por volta de 1987. ", lembra Monika Treut, em entrevista à RFI em seu apartamento no icônico bairro queer de Berlim, o Nollendorfplatz. “Foi há mais de 35 anos, em Nova York, quando ela estava fazendo a transição de estrela de filmes pornográficos para ícone das artes performáticas”, contextualiza. “Fiz na época um curta sobre ela chamado ‘Annie’, e este foi o início da nossa amizade. Foi Annie Sprinkle que me apresentou a transgêneros FTM (female to male, ou homens transgêneros, ndr). Ela sempre deu apoio a pessoas trans”, conta.

“Continuei em contato com todos de Gendernauts, porque, você sabe, quando se faz documentários pessoais, os protagonistas ficam com você para o resto da vida”, diz a cineasta alemã. “As pessoas viviam me perguntando onde tinham ido parar e como estavam atualmente os personagens daquele filme de 1999. Num determinado momento, acabei por perguntar se os próprios não queriam fazer uma espécie de follow up daquele momento, recontar essa história na perspectiva da passagem do tempo”, diz.

“Ser trans quase virou mainstream”

Treut acredita que a maneira de se tratar pessoas transexuais ou transgêneros mudou bastante nas últimas duas décadas. “A situação das pessoas trans mudou bastante, especialmente nos países ocidentais. Ser trans quase virou parte da cultura dominante, hoje existem vários filmes e séries mainstream com personagens trans, e sim, eles conseguiram se estabelecer enquanto personagens”, avalia. “Mas ainda há muita luta por direitos civis para pessoas trans. Mesmo na Europa, não há uma lei clara para transexuais. Ainda é muito difícil na Alemanha mudar seu nome civil nos documentos, é necessário ir a psicólogos, há muita burocracia envolvida. Ainda é difícil, mas [a transidentidade] é mais aceita na sociedade, algo mudou”, analisa Monika Treut.

Cena do filme "Genderation", de Monika Treut, que estreou na edição de verão da 71a. Berlinale, em 10 de junho de 2021.
Cena do filme "Genderation", de Monika Treut, que estreou na edição de verão da 71a. Berlinale, em 10 de junho de 2021. © DR

Ficou mais fácil fazer e financiar filmes trans, mais aceitável? “Sim, quando fiz Gendernauts era mais difícil conseguir dinheiro, as pessoas agora conhecem melhor a cultura trans, você não precisa começar do zero. Mas ainda há muito preconceito, muitos crimes de ódio e muita transfobia nas sociedades ocidentais. Mas quando você compara com 20, 30 anos atrás, as coisas melhoraram, é claro que algo mudou”, afirma.

"Matriarca"

Cena do filme "Genderation" de Monika Treut, em cartaz na edição de verão da Berlinale 2021.
Cena do filme "Genderation" de Monika Treut, em cartaz na edição de verão da Berlinale 2021. © DR

O olhar da cineasta avalia também as mudanças entre seus amigos de São Francisco, nestas últimas três décadas de caminhada. “Sandy Stone, que é a mais velha, tem 84 anos hoje, emana mais autoridade hoje, ela é quase como uma matriarca agora, muito respeitada, dentro e fora da comunidade. Susan Stryker, que é mais nova, mas já na faixa dos 60 anos, também. Os jovens trans andam procurando modelos em seus pares mais velhos. Eles são uma espécie de ancestrais, de sábios, que têm muito a dizer. É muito importante, especialmente dentro de grupos minoritários, ter referencias mais experientes, aquelas que realmente lutaram lá no começo pelos direitos básicos”, relata a diretora.

Perguntada sobre que mensagem gostaria de dar para a juventude trans brasileira, que hoje vive um momento de grande autoafirmação, Monika Treut, que conhece e já filmou no Brasil, diz que é hora de expandir horizontalmente o olhar. “Tenho muitos amigos no Brasil, onde filmei duas vezes, e eles me colocam em dia sobre as horríveis políticas de Bolsonaro, e também daquele bispo que foi prefeito do Rio... o Crivella”, diz. “Essa grande aliança no Brasil dos conservadores com o fundamentalismo evangélico me assusta. Porque essas igrejas ficaram tão poderosas nos últimos 10, 15 anos, é impressionante”, analisa.

“Vejo o fenômeno do gênero não-binário no Brasil, assim como em outras sociedades mais abertas. Nem menciono países islâmicos, porque é ainda mais difícil nestes lugares. Mas eu diria para essa juventude trans brasileira que é necessário neste momento olhar menos para si mesmo e tentar ver as coisas através de uma perspectiva mais abrangente”, afirma. “Se juntar com outras forças progressivas, e olhar menos para o seu próprio umbigo e se abrir para um cenário mais amplo dentro da própria sociedade”, conclui a diretora alemã.

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