Festival de Cannes: Spike Lee chama Bolsonaro, Trump e Putin de "gângsteres"

Spike Lee, presidente do júri de Cannes critica governos autoritários de Jair Bolsonaro, Donald Trump e Vladimir Putin durante coletiva de imprensa nesta terça-feira (6).
Spike Lee, presidente do júri de Cannes critica governos autoritários de Jair Bolsonaro, Donald Trump e Vladimir Putin durante coletiva de imprensa nesta terça-feira (6). CHRISTOPHE SIMON AFP

O Brasil pode não estar concorrendo à Palma de Ouro em Cannes, mas o drama vivido pelo país com a pandemia em consequência da administração do presidente Jair Bolsonaro foi lembrado mais uma vez, durante a apresentação do júri, presidido pelo cineasta americano Spike Lee e do qual o brasileiro Kléber Mendonça Filho faz parte, nesta terça-feira (6).

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Por Patricia Moribe, enviada especial a Cannes

A apresentação do júri à imprensa logo ganhou tons políticos. Lee chegou com um boné preto escrito “1619”, em referência ao ano de chegada dos primeiros escravos africanos aos Estados Unidos.

O cineasta americano, primeiro negro a presidir um júri em Cannes, sempre trabalhou com a questão racial em seus filmes, como “Faça a Coisa Certa” (1988), “Febre da Selva (1991) e “Malcolm X” (1992). A primeira vez que ele foi selecionado em Cannes foi em 1986, com seu primeiro longa-metragem, "Ela Quer Tudo". 

Lee lembrou que “Faça a Coisa Certa” foi feito há mais de 20 anos e “os negros continuam a ser perseguidos como animais”, citando casos como do “irmão” Eric Gardner e o “rei” George Floyd. “Eles foram linchados, assassinados”, acrescentou.

"O mundo é governado por gângsteres", citando Donald Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro.

Resistência

“Como resistir, o que vocês têm a dizer a jovens ativistas?”, questionou uma jornalista americana. “É uma pergunta muito difícil”, respondeu Kléber Mendonça Filho. “Já atingimos mais de 500 mil mortes [no Brasil]. Temos dados técnicos de que se o governo tivesse agido corretamente, 350 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Eu aconselho que vocês discutam os problemas, informem as pessoas”.

Mendonça aproveitou para mencionar que o fechamento da Cinemateca Brasileira há cerca de um ano. “São 90 mil títulos, 230 mil rolos de filme e videoteipes. Técnicos e especialistas forma demitidos. É um caso claro de completo desprezo pela cultura e pelo cinema”, explicou. “Todos amamos o cinema aqui. Resolvi mencionar isso aqui, pois Cannes é um templo de memória e preservação”, concluiu.

Entre outros membros do júri estão a atriz e cineasta americana Maggie Gyllenhaal, o ator francês Tahar Rahim, revelado pelo filme “O Profeta”, e Song Kang-Ho, ator principal do filme sul-coreano “Parasita”.

A competição pela Palma de Ouro teve início na segunda-feira (5), com o filme de abertura “Annette”, do francês Leos Carax, com Adam Driver e Marion Cotillard no elenco. Os vencedores de Cannes serão anunciados em 17 de julho.

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