Avignon Off: imigração inspira diretor brasileiro em espetáculo circense

O brasileiro Rafael De Paula, diretor da "Compagnie du Chaos", conseguiu levar a poesia para a prática do mastro chinês.
O brasileiro Rafael De Paula, diretor da "Compagnie du Chaos", conseguiu levar a poesia para a prática do mastro chinês. © Romain Etienne

O brasileiro Rafael de Paula, diretor da "Compagnie du Chaos" (Companhia do Caos), apresenta no festival Avignon Off o espetáculo “Ikuemän”, uma coreografia acrobática que mistura circo e dança. O mineiro, que viveu nos Estados Unidos antes de se mudar para a França, aborda no palco a questão da imigração de maneira poética.

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Silvano Mendes, enviado especial a Avignon

Rafael De Paula começou a estudar circo no Brasil, depois de ter morado nos Estados Unidos com sua família durante a adolescência. Mas foi na França, no Centro Nacional das Artes do Circo (CNAC), de Châlons-en-Champagne, no leste do país, que ele se formou, antes de criar a "Compagnie du Chaos", em 2012.

No entanto, mesmo se o mineiro tem mais de uma mudança de país em sua trajetória, seu percurso pessoal não parece ter sido a inspiração principal produção. “O que me inspirou foi a situação de migração de povos. Migrações às vezes escolhidas, por motivos pessoais, ou por motivos políticos, sociais e opressões diversas”, resume o diretor, que questiona, à sua maneira, o que leva as pessoas a se deslocarem pelo mundo.

Por essa razão, o espetáculo foi batizado “Ikuemän”, que significa “andar” na língua dos caiapós.“Eu pensei nas tribos brasileiras e essa teoria de que os povos teriam vindo do norte e, aos poucos, foram descendo [pelo continente]. E sempre me perguntei: por que eles simplesmente não pararam na Amazônia e ficaram lá? Por que eles decidiram descer e povoar toda a América Latina? Aí veio essa ideia de que o ser humano sempre necessita ir além das montanhas, com essa curiosidade”, explica.

"Também quis colocar o nome dos caiapós na boca das pessoas para por uma luz na situação dos povos indígenas do Brasil”, ressalta. “Eu penso que o artista em geral é um cidadão que participa a todo o pensamento humano do momento no qual ele vive. Eu não diria que nosso espetáculo é político, mas eu e quase todos os participantes do grupo são politicamente conscientes do que se passa no mundo", pontua. 

Rafael De Paula e Joana Nicioli, os dois brasileiros da companhia.
Rafael De Paula e Joana Nicioli, os dois brasileiros da companhia. © RFI

Toda essa reflexão se traduz no palco por meio de uma coreografia interpretada em torno de mastros chineses por De Paula e outros quatro artistas – a brasileira Joana Nicioli, o chileno Hector Diaz Mallea e os franceses Harold De Bourran e Béa Debrabant. Durante quase uma hora eles circulam mas, principalmente, escalam os mastros, realizando acrobacias impressionantes, com se estivessem subindo em árvores de uma floresta para se proteger ou para alcançar o céu.

Tudo é feito com sutileza, longe das performances físicas habituais para esse tipo de prática. “O mastro chinês antes era uma disciplina bem viril, um pouco ‘macho’. Eu sempre quis levar o mastro mais perto do sensível, no sentido dramatúrgico”, comenta De Paula. E o objetivo foi plenamente atingido.

“Ikuemän” fica em cartaz até o final do festival Avignon Off, em 31 de julho.

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