Festival de Cannes: Asghar Farhadi retrata herói perdido nas engrenagens da sociedade iraniana

Cena de "Um Herói", de Ashgar Farhadi, em competição no Festival de Cannes.
Cena de "Um Herói", de Ashgar Farhadi, em competição no Festival de Cannes. © AmirhosseinShojaei

O ator iraniano Amir Jadidi chegou ao tapete vermelho de Cannes nesta terça-feira (13) exalando segurança e elegância. Aos 37 anos, o astro iraniano é o personagem principal do filme “Um Herói”, de Asghar Farhadi. Na tela, ele se transforma em um personagem simples, quase patético, marcado pelos revezes da vida.

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Por Patricia Moribe, enviada especial a Cannes

Farhadi, 49 anos, é um frequentador assíduo de Cannes. Com “Um Herói” ele mostra que tem tudo para estar entre os finalistas para a Palma de Ouro deste ano.

Amir Jadidi vive Rahim, um detento que cumpre uma pena há três anos por dívidas não pagas e ganha uma saída temporária de dois dias. Assim que sai da prisão, ele vai ver a família: cunhado, irmã, sobrinhos e o filho, traumatizado pelo divórcio conturbado dos pais e portador de gagueira.

Depois, vai se encontrar com a namorada, que lhe mostra uma bolsa que ela encontrou na rua, cheia de moedas de ouro. O tesouro poderia ajudá-lo a saldar suas dívidas. Mas, impedido por sua consciência, o detento resolve procurar quem perdeu a bolsa e devolvê-la.

Condenado pelas redes sociais

O gesto traz notoriedade a Rahim, quase sempre com um sorriso beato que pode tanto exasperar, como cativar. Muitos querem se aproveitar do gesto, até na melhor das intenções, como a penitenciária que quer mostrar serviço ou uma associação de caridade que recolhe doações para Rahim, em troca de visibilidade.

Mas vários percalços na intrincada geometria criada por Farhadi fazem com que Rahim finalmente perca a cabeça, colocando a perder uma sonhada saída definitiva da prisão. Ele vira vítima também da fome midiática e das infames redes sociais, que ditam quem ganha ou perde.

Não só Amir Jadidi impressiona na tela, mas todo o elenco. O premiado diretor constrói os personagens e trabalha com primor o elenco. Mas essa competência ele já provou várias vezes.

O diretor iraniano Asghar Farhadi posa para fotos no tapete vermelho de Cannes (13/7/2021).
O diretor iraniano Asghar Farhadi posa para fotos no tapete vermelho de Cannes (13/7/2021). AP - Vadim Ghirda

Trajetória brilhante

O sucesso internacional de Asghar Farhadi veio com “Sobre Elly”, Urso de Prata de melhor diretor em Berlim, em 2009. Ele voltou à Berlinale em 2011 com “Uma Separação”, que levou o Urso de Ouro de melhor filme e vários prêmios para os intérpretes. A história de um doloroso divórcio e as consequências para uma mulher na impiedosa e conservadora sociedade iraniana também valeu o Oscar de melhor filme estrangeiro, além do Globo de Ouro e o César francês.

“O Passado”, com elenco francês, de 2013, apresentado em Cannes, valeu um prêmio de interpretação para Bérénice Bejo. Com “O Cliente”, de 2016, Farhadi ganhou o prêmio de melhor roteiro e o ator Shahab Horreyni levou o prêmio de interpretação masculina. Mas Farhadi boicotou a ida a Cannes em protesto contra a administração Trump, que decidiu restringir vistos para cidadãos de alguns países muçulmanos, entre eles, o Irã.

Farhadi voltou a Cannes em 2018, com “Everybody knows”, dessa vez em espanhol, com Penélope Cruz e Javier Bardem nos papeis principais. Menos convincente, o filme dividiu a crítica.

Desta vez, com “Um Herói”, o cineasta iraniano resolveu voltar a seu melhor pano de fundo, a sociedade iraniana. Ele está em casa.

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