Morre aos 76 anos o francês Christian Boltanski, gigante da arte contemporânea

Na instalação "Personnes" em 2010, Boltanski criou pilhas de roupas no Grand Palais, em Paris, para refletir sobre as mortes nos campos de concentração nazistas.
Na instalação "Personnes" em 2010, Boltanski criou pilhas de roupas no Grand Palais, em Paris, para refletir sobre as mortes nos campos de concentração nazistas. Fred DUFOUR AFP/File

Um artesão da memória, era assim que se considerava o artista plástico francês Christian Boltanski, com décadas dedicadas a um trabalho sensível em que tecia os elos entre o individual e o coletivo, entre os ritos e a experiência, entre a vida e a morte. Aos 76 anos, o gigante da arte contemporânea morreu no hospital de Cochin, em Paris, nesta quarta-feira (14).

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O anúncio foi feito por Bernard Blistène, ex-diretor do museu de arte moderna do Centro Pompidou, que dedicou uma retrospectiva a Boltanski em 2019. "Ele estava doente. Ele era um homem modesto, que escondia as coisas o máximo que podia", afirmou Blistène.

Autodidata, o artista afirmou ter "lutado contra o esquecimento e o desaparecimento" por meio de suas obras, sempre acessíveis, em uma mistura de objetos, vídeos, fotografias e instalações.

“Nunca quis falar de heróis, mas de pessoas comuns, porque cada um é único e tem coisas para contar. A grande história está nos livros. Eu me interessei à pequena história que faz de cada um diferente. Eu tive o desejo de criar um museu para cada indivíduo. Todo mundo é interessante, você pega uma pessoa qualquer puramente ao azar e ela é extremamente apaixonante”, afirmou Boltanski, em entrevista concedida à ocasião de sua retrospectiva no Centro Pompidou, em Paris.

“É uma grande perda", disse Blistène. “Ele amou acima de tudo a transmissão entre as pessoas, através de histórias, através de memórias. Ele permanecerá como um dos maiores contadores de histórias de seu tempo. Foi um inventor incrível."

O artista plástico, que se tornou conhecido em 1971 ao expor na galeria Sonnabend, viajou o mundo com suas obras que, ao longo da carreira, investigaram a vida, a morte e as dores humanas.

Em 2014, Boltanski fez uma instalação inédita que apresentou no Sesc Pompeia, em São Paulo. A Instalação ocupava 1.400 m² com 950 arranha-céus feitos de papelão e cobertos por páginas com nomes em uma lista telefônica.

Filho dos horrores da guerra

Christian-Liberté Boltanski nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, em 6 de setembro de 1944, filho de um médico judeu de origem ucraniana e de uma católica corsa. Durante a ocupação nazista da França, sua mãe fingiu um divórcio e escondeu o marido no porão.

Após a morte de seu pai, Boltanski vai abordar a perseguição antissemita e os campos de concentração em obras como na instalação “Personnes”, montada no Grand Palais de Paris em 2010.

"O grande trauma da minha vida, sem dúvida nenhuma, (...) foi o fato de que quando eu era criança, a maior parte dos amigos dos meus pais eram sobreviventes do Holocausto e, durante horas, eles contavam atrocidades. Eu devia ter entre dois e cinco anos, realmente muito pequeno, e tenho lembranças dos horrores", contou Boltanski em 2019.

Como artista, ele tinha como seu grande objetivo criar memória para cada pessoa. "Uma coisa que a gente não consegue entender é a importância de cada pessoa e sua morte. Desde que começamos a conversar, cerca de 500 mil pessoas morreram, todas elas únicas, todas elas extraordinárias. Eu faço o culto dos ancestrais e dos humanos", afirmou Boltanski na mesma entrevista.

(Com informações da AFP)

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