“Questão epidêmica é muito séria no Brasil”, declara Thierry Frémaux, diretor de Cannes

Thierry Frémaux sendo entrevistado pela RFI em 2016.
Thierry Frémaux sendo entrevistado pela RFI em 2016. RFI/Anthony Ravera

O Festival de Cinema Internacional de Cannes e seu tapete vermelho são uma excelente vitrine, não só para filmes, como para denunciar governos e políticas arbitrárias. Nesta 74ª edição do evento, a crise sanitária e o sucateamento da cultura no Brasil têm sido motivo de vários protestos. Até mesmo o diretor artístico do evento, Thierry Frémaux, tem falado a respeito.

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Por Patricia Moribe, enviada especial a Cannes

Em declaração exclusiva à RFI Brasil nesta quinta-feira (15), Frémaux declarou que o festival nunca adota uma posição política. “O Festival de Cannes é um evento universal, para privilegiar o cinema, a cultura, para que os povos possam falar entre si”.

“Cada país vem falar de si. Convidar Kleber Mendonca Filho para participar do júri, por exemplo, é uma forma de termos o Brasil presente em Cannes”, explicou.

“Claro que como cidadãos observamos com atenção a situação de todos os países. Sabemos que o clima é um problema importante no Brasil. Temos uma sessão dedicada ao meio ambiente. Sabemos, também, que a questão epidêmica é muito séria”, continuou Frémaux, responsável por um dos eventos mais importantes do calendário cinematográfico mundial.

“Para o festival, o cinema deve ser defendido, esse cinema que fala do povo brasileiro, de sua história. É muito importante saber que Cannes pode ser um eco das palavras dos artistas e por isso também temos orgulho em ter o Brasil conosco”, concluiu Frémaux.

Um dia antes de o festival começar, em coletiva de imprensa, Frémaux citou que Kléber Mendonça Filho, que já participou da competição oficial duas vezes, estava “muito abalado com a pandemia que assola o Brasil”. Ele lembrou que o cineasta pernambucano“ denunciou o golpe de Estado contra Dilma Rousseff no tapete vermelho de Cannes, na apresentação de Aquarius, em 2016.

Protestos em Cannes

Na primeira exibição de “O Marinheiro das Montanhas”, em sessão especial em Cannes, manifestantes se levantaram da plateia e abriram uma faixa vermelha junto com os créditos, com os dizeres: “Brasil: 530.000 mortos. Fora, gângster genocida”. Para o diretor Karim Ainouz, “é preciso falar a respeito, senão seremos cúmplices”, “o grande projeto desse governo é destruir e matar”.

Manifestantes em Cannes protestam contra Bolsonaro no final da projeção do filme "O Marinheiro das Montanhas", de Karim Ainouz (09/07/21)
Manifestantes em Cannes protestam contra Bolsonaro no final da projeção do filme "O Marinheiro das Montanhas", de Karim Ainouz (09/07/21) © Patricia Moribe/RFI

A equipe de “Medusa”, de Anita Rocha Silveira, em competição na Quinzena dos Realizadores, roubou um pouco a cena na noite de tapete vermelho do filme “Três Andares”, do italiano Nanni Moretti, no domingo (11), ao exibir, também, um pequeno cartaz, lembrando que o número de vítimas fatais ultrapassava mais de meio milhão no Brasil devido a uma doença para qual já existe vacina.

A cineasta Anita Rocha Silveira (terceira à partir da esquerda) e equipe do filme "Medusa" protestam no tapete vermelho.
A cineasta Anita Rocha Silveira (terceira à partir da esquerda) e equipe do filme "Medusa" protestam no tapete vermelho. John MACDOUGALL AFP

Para João Paulo Maria Miranda, cujo filme “Casa de Antiguidades” foi selecionado para a edição do ano passado, adiada e finalmente cancelada, “o presidente atual é o pior inimigo do Brasil”.

O sistemático desmantelamento do setor cultural também é citado pelos cineastas presentes em Cannes. Jasmim Tenucci, presente na competição oficial de curtas com “Céu de Agosto” disse à RFI Brasil: “A situação é terrível, é um desmonte total da cultura e do cinema, um descaso, enfim, como se a cultura não formasse a nossa humanidade. Aparentemente, o presidente não se incomoda com isso, com a humanidade, não é uma preocupação dele. 

Carlos Segundo também concorre na categoria de curtas, com “Sideral”. Como professor titular de audiovisual na UFRN, ele diz que a destruição do que vinha se construindo em relação às universidades é muito nítido. Ele aponta que em apenas dois anos, os setores da educação e da cultura foram diretamente atingidos, justamente áreas que “propõem transformações no pensamento, estratégicas para o conhecimento”.

O Festival Internacional de Cinema de Cannes acontece este ano, excepcionalmente, no mês de julho, até o dia 17, sábado, quando serão anunciados os vencedores da Palma de Ouro.

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