Filme francês “Titane”, que provocou mal-estar durante exibição, leva a Palma de Ouro de Cannes

A diretora francesa Julia Ducournau (C) recebe a Palma de ouro do festival de Cannes por seu filme "Titane", com os atores Agathe Rousselle (D) e Vincent Lindon (E), neste sábado, 17 de julho de 2021.
A diretora francesa Julia Ducournau (C) recebe a Palma de ouro do festival de Cannes por seu filme "Titane", com os atores Agathe Rousselle (D) e Vincent Lindon (E), neste sábado, 17 de julho de 2021. AFP - CHRISTOPHE SIMON

“Titane” (titânio), foi o grande vencedor da Palma de Ouro da 74ª edição do festival de Cannes. Julia Ducournau se torna assim a segunda mulher a receber o prêmio, depois da neo-zelandesa Jane Campion, por “O Piano”, em 1993.

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Por Patricia Moribe, enviada especial a Cannes

“Titane” provocou polêmica no festival por casos de mal-estar e crises nervosas entre o público nas projeções em Cannes. O filme narra a história de Alexia, vivida por Agathe Rousselle, uma jovem dançarina que tem um implante de titânio instalado no crânio, após um acidente de carro. O implante cria impulsos assassinos na jovem, que vai cruzar o caminho de um pai à procura do filho desaparecido dez anos antes.

Menção de honra

A noite de gala de premiação de Cannes começou com uma menção especial para o curta “Céu de agosto”, da brasileira Jasmin Tenucci.

O Grande Prêmio do Júri foi dividido entre o iraniano Ashgar Farhadi, por “Um herói”, e o finlandês Juho Kuosmanen, por “Compartimento número 6”.

O francês Léos Carax recebeu o prêmio de melhor direção por “Annette”, um musical dramático com o americano Adam Driver e a francesa Marion Cotillard nos papeis principais.

Cena de "Annette", de Leos Carax, premiado com a melhor direção no Festival de Cannes.
Cena de "Annette", de Leos Carax, premiado com a melhor direção no Festival de Cannes. © UGC Distribution

O prêmio de melhor roteiro foi para Oe Takamasa e Ryusuke Hamaguchi, por “Drive my car”, baseado em um conto de Haruki Murakami.

O australiano Caleb Landry Jones recebeu o prêmio de melhor interpretação masculina, no filme “Nitram”. A melhor atriz foi Renate Reinsve, por sua iluminada atuação no filme “Julia em 12 capítulos”, do norueguês Joachim Trier.

O Prêmio do Júri de Cannes foi para “Ahed’s knee” (O joelho de Ahed), do israelense Nadav Lapid, e “Memória”, do tailandês Apichatpong Weerasethakul.

A atriz britânica e o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul na apresentação de "Memoria", filmado na Colômbia, em Cannes.
A atriz britânica e o diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul na apresentação de "Memoria", filmado na Colômbia, em Cannes. John MACDOUGALL AFP

O prêmio de melhor curta-metragem foi para a cineasta Tang Yi, de Hong Kong, com “All the crows in the world” (Todos os corvos do mundo, em tradução livre). A Câmera de Ouro foi para a croata Antoneta Alamat Kusijanovic, por seu primeiro longa “Murina”.

O italiano Marco Bellocchio, 81 anos, ganhou um prêmio especial pelo conjunto de sua carreira pelas mãos do conterrâneo Paolo Sorrentino, diretor de “A Grande Beleza”. Há dois anos, Bellocchio concluiu “O Traidor”, com locações na Itália, Alemanha e Brasil. A história do mafioso Tommaso Buschetta contou com Maria Fernanda Cândido no elenco.

Estrela ausente

A francesa Léa Seydoux seria a grande estrela da segunda semana de Cannes, mas a atriz testou positivo para a Covid-19, mesmo sendo vacinada e assintomática, e resolveu não aparecer no tapete vermelho. Seydoux estava em cartaz em nada menos que quatro filmes em Cannes, incluindo três na competição.

A atriz francesa Léa Seydoux testou positivo para a Covid-19 e não participa de Cannes.
A atriz francesa Léa Seydoux testou positivo para a Covid-19 e não participa de Cannes. Robyn Beck AFP/File

Em comunicado, ela explicou que faria quarentena em Paris. “Eu gostaria muito de celebrar o retorno do cinema em meu festival favorito”, lamentou a atriz.

Dois curtas premiados

Além da menção honrosa para “Céu de agosto”, o curta “Cantareira”, de Rodrigo Ribeyro, 24 anos, ficou em terceiro lugar na premiação da Cinéfondation, que destaca produções feitas em escolas de cinema mundo afora. Para o diretor, só o fato de estar em Cannes é muito importante para “empoderar quem faz cinema no Brasil, competindo com obras majoritariamente europeias”.

“Céu de Agosto”, de Jasmin Tenucci, traz o mal-estar que paira no Brasil, materializado no dia 19 de agosto de 2019, quando a tarde virou noite em vários locais do país, como São Paulo, por causa da fumaça de incêndios na Amazônia e no Pantanal. “O filme é principalmente sobre o sentimento do Brasil deste momento; eu coloco muitas coisas no ar, tensas, tangíveis e intangíveis, e que afetam a gente, tanto politicamente ou socialmente”, disse a diretora à RFI Brasil, em Cannes.

Cena do curta "Céu de Agosto", de Jasmin Tenucci, em competição no Festival de Cannes.
Cena do curta "Céu de Agosto", de Jasmin Tenucci, em competição no Festival de Cannes. © Jasmin Tenucci

Já “Sideral”, de Carlos Segundo, apresenta um possível lançamento de um primeiro foguete tripulado brasileiro a partir da base de lançamento de satélites Barreira do Inferno, em Natal (RN). “Mas paralelamente, apresentamos uma família simples – pai, mãe e dois filhos – e como esse evento reflete, traz alguma transformação a esse núcleo, ou seja, transformação e rompimento”, explicou o cineasta do primeiro curta-metragem potiguar em competição em Cannes.

O thriller “Medusa”, de Anita Rocha Silveira, participou da Quinzena dos Realizadores. Apesar do visual distópico, o filme traz discussões bastante realistas sobre o Brasil de hoje, como religião, extrema direita e machismo. Para tratar desse assunto, a cineasta decidiu colocar em cena jovens que vêm de um universo muito conservador, “que hoje é uma boa porcentagem da sociedade brasileira”.

O brasileiro Karim Ainouz, vencedor em 2019 do prêmio Um certo olhar, com “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, apresentou “O marinheiro das montanhas”, na mostra Sessões especiais. Para tecer a narrativa, Ainouz se baseou na história de seus pais, Iracema, uma brasileira, e Majid, um argelino, que se conheceram nos Estados Unidos, ambos com bolsas de estudo. Eles se separaram em 1965, quando ele retornou à Argélia e ela, ao Brasil, grávida. Karim só conheceu o pai aos 18 anos, em Paris. O filme é um inventário afetivo dessa relação.

João Paulo Maria Miranda, diretor de “Casa de antiguidades”, selecionado pelo Festival de Cannes no ano passado, participou de diversas atividades, incluindo a subida do tapete vermelho, homenageando os cineastas que não puderam exibir seus filmes em 2020, por causa da pandemia, que acabou cancelando a edição.

Canja de Bill Murray

O documentário “New worlds – the craddle of civilization”, de Andrew Muscato, exibido na sexta-feira (16), traz relato de um concerto que o americano Bill Murray fez na Acrópole de Atenas, em 2018, acompanhado do violoncelista Jan Vogler, da violonista Mira Wang e da pianista Vanessa Perez. Murray faz piadas, canta e até dança tango.

Bill Murray, Mira Wang, Jan Vogler and Vanessa Perez se apresentam em Cannes, após exibição do documentário “New Worlds – the Craddle of Civilization”, de Andrew Muscato (16/07/2021).
Bill Murray, Mira Wang, Jan Vogler and Vanessa Perez se apresentam em Cannes, após exibição do documentário “New Worlds – the Craddle of Civilization”, de Andrew Muscato (16/07/2021). © Dorn Music

O repertório inusitado mistura música clássica, Piazzolla, Leonard Bernstein (“West side story”) e até pop. Quem estava na première teve direito a um miniconcerto de Murray e seus músicos. O show foi arrematado por Murray com um sucesso francês de 1965, “Aline”, de Christophe, acompanhado pelo público.  

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