Sorrentino emociona Veneza com filme sobre adolescência trágica em Nápoles

O cineasta italiano Paolo Sorrentino diz que Napóles era divertida mas perigosa nos anos 1980.
O cineasta italiano Paolo Sorrentino diz que Napóles era divertida mas perigosa nos anos 1980. Filippo MONTEFORTE AFP

O diretor italiano Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar em 2014 com "A grande beleza", emocionou a plateia nesta quinta-feira (2), no Festival de Veneza, com o filme "The hand of God". O longa, autobiográfico e ambientado na turbulenta Nápoles, é dedicado em parte ao seu ídolo, o argentino Diego Armando Maradona.

Publicidade

"Fiz o que pude. Acho que não fiz mal", é a frase de Maradona que inspira o novo e muito esperado filme do cineasta italiano, que concorre com outros 20 filmes no Festival de Veneza. O consagrado diretor, de 51 anos, considerado um dos autores mais relevantes do cinema europeu, herdeiro do estilo de Federico Fellini, regressa à sua cidade para contar a história da sua adolescência e da sua vocação de cineasta em circunstâncias trágicas.

Com um retrato alegre e doloroso dos personagens que compõem a sua infância e adolescência em Nápoles dos anos 1980, Sorrentino consegue partilhar a sua dor pela morte trágica e inesperada dos pais e revelar o nascimento do seu universo, tão pessoal e único, com monges anões, tias sensuais, piadas, mergulhos no mar e passeios de barco.

"Fiquei emocionado ao fazer este filme. Já o vi 40 vezes e todas as vezes me emociono com algumas cenas específicas", confessou o diretor em conversa com jornalistas.

"O que mais me emociona são as cenas em que o menino parece tão indefeso", enfatiza, provavelmente referindo-se a uma das sequências mais dramáticas, de raiva irreprimível, quando é impedido de ver os corpos de seu pai e de sua mãe no hospital.

"Na vida, despedir-se, dizer adeus às pessoas é muito importante. Se elas simplesmente desaparecerem, é como se nunca tivessem partido", confessa.

Maradona salvou sua vida

Embora o personagem central se chame Fabietto Schisa, é claro que se trata do jovem Paolo Sorrentino, que adora futebol, não tem amigos e seu mundo gira em torno da família, dos vizinhos e da paixão pelo time de futebol de Nápoles.

"Para mim, quando criança, o mais importante que aconteceu naquele momento foi que o Maradona foi contratado pelo Nápoles (...) Com ele aprendi o que é arte, porque o Maradona não era apenas jogador de futebol, mas sabia como transcender a realidade. Foi minha primeira oportunidade de me aproximar da arte", explica.

O diretor se refere aos anos em que o craque argentino jogou em Nápoles e ao famoso e mítico gol de mão que Maradona marcou com a seleção argentina nas quartas de final contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986 no México, e que atribuiu à mão de Deus, frase que dá origem ao título do filme.

Ovacionado em suas primeiras exibições à imprensa, o filme de Sorrentino transmite a ideia de que de alguma forma Maradona salvou sua vida, pois por não viajar com os pais para a casa na montanha e preferir assistir ao jogo de futebol do Nápoles, evitou morrer com eles em um vazamento de gás enquanto dormiam. Ele ficou órfão aos 16 anos.

"A mensagem do filme é que há um futuro para todos, independentemente do sofrimento e da dor que experimentaram na vida. Espero que os jovens possam entender isso porque eles estão mais preocupados do que nós com o futuro", resumiu.

Com o ator Toni Servillo, no papel do pai de um banqueiro, o filme de Sorrentino, produzido pela Netflix, entra na briga pelo Leão de Ouro. A gigante da indústria audiovisual, que saiu fortalecida pela pandemia, é favorita na corrida pelo prêmio máximo, depois do obtido com "Roma", em 2018, do mexicano Alfonso Cuarón.

Ao contrário do festival francês de Cannes, Veneza também convidou o filme produzido pela Netflix "The Power of the Dog", que marca o retorno ao cinema da neozelandesa Jane Campion, após mais de 20 anos de ausência.

Com informações da AFP

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe todas as notícias internacionais baixando o aplicativo da RFI