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Economia

Rússia e Ucrânia podem entrar em recessão em 2014

Áudio 03:58
Um desabrigado dorme ao lado da companhia petrolífera Lukoil, nas ruas de Moscou.
Um desabrigado dorme ao lado da companhia petrolífera Lukoil, nas ruas de Moscou. Wikipédia
Por: Lúcia Müzell
8 min

A situação tensa entre a Rússia e a Ucrânia já traz efeitos também na economia desses dois países. O Banco Mundial advertiu que os russos podem entrar em recessão ainda neste ano se o conflito com o vizinho se acentuar, enquanto os ucranianos não escaparão de um crescimento negativo de até 3% em 2014.

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Para tentar equilibrar as contas, Kiev acertou um empréstimo de 15 bilhões de euros com o FMI, sob condições rígidas que, a exemplo do que aconteceu com os países europeus em crise, devem acentuar a precariedade social da população. O país enfrenta sérias dificuldades econômicas desde o início dos anos 2000, como lembra o pesquisador Ângelo Segrillo, coordenador do Laboratório de Estudos da Ásia do Departamento de História da USP e especialista na história da ex-União Soviética.

“A situação deve ficar ainda mais difícil porque vai entrar na espiral da dívida: ao pegar dinheiro com o FMI, tem de cumprir as exigências do fundo, e isso poderá jogar a população contra o governo. Será necessário diminuir bastante os subsídios para o gás, por exemplo, que é muito importante para toda a população”, afirma. “Essas medidas impopulares podem levar a uma nova deterioração da situação política.”

Na opinião de Arnaud Dubien, diretor do Observatório Franco-russo, a situação já era tão delicada que, na prática, a anexação da Crimeia pelos russos tem pouco impacto sobre a economia ucraniana. “Eu acho que a crise na Crimeia teve uma influência econômica mínima. A Ucrânia está em dificuldades há muitos anos, e a situação piorou nesses últimos, com problemas de balança de pagamentos, de competitividade, de corrupção”, destaca. “AUcrânia tem problemas sérios e a crise política precipitou as coisas, ao ponto que hoje o país afundaria se não houvesse uma grande ajuda estrangeira.”

Por enquanto, sanções têm pouco efeito

Já em relação à Rússia, os pesquisadores concordam que as sanções anunciadas pelos países ocidentais em represália à anexação da Crimeia não são bem-vindas, mas têm efeito limitado sobre a economia do país. A fuga de capitais da Rússia e a depreciação da moeda do país, o rublo, se intensificaram nas últimas semanas, mas eram movimentos em curso desde que as economias emergentes passaram a ser mais atingidas pela crise internacional, como destaca Dubien.

“A visão de uma Rússia que estaria à beira do colapso econômico e que poderíamos colocar de joelhos com algumas sanções não corresponde à realidade. A Rússia teve um crescimento baixo no ano passado, mas tem uma dívida pública insignificante, de 11% do PIB, contra mais de 90% na França, por exemplo”, observa. “E sobretudo a Rúsia tem mais de 500 bilhões de dólares de reservas. Ou seja, a Rússia pode encarar, mesmo se a piora da situação não seja uma boa notícia.”

O perigo, segundo Segrillo, seria se os países ocidentais decidissem aplicar sanções econômicas mais severas, o que pode ocorrer se Moscou tentar anexar novas regiões ucranianas. Essa hipótese, entretanto, para ele é remota.

Visão estratégica

“Eu acho que o Putin não vai fazer isso. Ele é um jogador muito calculista, e se ele retirar a parte leste da Ucrânia, ou seja, retirar todos os russos étnicos da Ucrânia, vai perder completamente toda a influência que poderia ter sobre o país”, analisa.

O analista francês destaca que sanções mais rígidas resultariam em perdas econômicas para os próprios ocidentais, que têm na Rússia um dos seus mercados mais importantes. “A Rússia não pode ser poderosa se não tiver uma base econômica sólida e moderna, e disso Putin tem clara consciência. Mas ele também sabe que o mundo hoje é conectado, e os ocidentais vão hesitar em adotar sanções, porque essas sanções também teriam consequências para eles, inclusive para as empresas, principalmente europeias.”

Por enquanto, a perspectiva de crescimento da Rússia neste ano é de 1,2%. Mas a contração poderia ser de até 1,8% se o conflito com a Ucrânia se prolongar, conforme o Banco Mundial.
 

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