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Economia

Indústria tabagista reage a avanço de cigarros eletrônicos

Áudio 04:37
Cigarro eletrônico virou moda na França.
Cigarro eletrônico virou moda na França. REUTERS/Charles Platiau
Por: Lúcia Müzell
10 min

A venda de cigarros eletrônicos disparou nos Estados Unidos, na França e em outros países europeus, ao mesmo tempo em que o consumo do cigarro tradicional, à base de tabaco, despenca. Mas já dizia o ditado, se não se consegue vencer o inimigo, junte-se a ele. A indústria tabagista tradicional desenvolve novos produtos mais modernos e está comprando fabricantes de cigarros eletrônicos.

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A expectativa é de que três quartos das companhias de cigarros eletrônicos estarão nas mãos das multinacionais da indústria de tabaco até 2017. A britânica Imperial Tobacco, por exemplo, comprou a chinesa Dragon Lite, inventora do produto eletrônico, por 75 milhões de dólares.

Em abril, um concorrente de peso dos cigarros eletrônicos entrou no mercado francês, o Ploom. O princípio é semelhante: o produto, apresentado em forma de cápsulas e em estado líquido, se transforma em vapor antes de ser inalado pelo usuário. A diferença é que, ao contrário do cigarro eletrônico, o Ploom contém tabaco.

Arnaud Rauly, presidente da Federação Interprofissional de Produtos a Vapor da França, admite que o contra-ataque da indústria tabagista é uma ameaça. “Um dos nossos principais problemas é que muita gente associa o cigarro eletrônico a um produto com tabaco. O cigarro eletrônico não é nem um produto com tabaco, nem um medicamento contra o tabagismo”, afirma. “Há muita confusão, e a indústria do tabaco se aproveita disso. Fez muita pesquisa e desenvolvimento para criar produtos alternativos, mas sempre à base de tabaco, afinal ela não pode competir com o cigarro eletrônico. Por isso, está fazendo essa ofensiva em cima dos fabricantes de cigarro eletrônico.”

Confusão

Rauly afirma que, por enquanto, as fabricantes francesas de cigarro eletrônico ainda não estão sendo assediadas pelas gigantes do tabaco, mas têm certeza de que as ofertas não vão demorar a chegar. O representante do setor conta com o fato de que os fumantes vão se preocupar mais com a saúde e recusar um produto com tabaco.

“O cigarro faz 70 mil mortos por ano na França e com o cigarro eletrônico nós podemos baixar esses números. O consumo de produtos à base de tabaco caiu graças ao cigarro eletrônico, que pode substituir completamente a substância nos próximos 20 anos”, destaca Rauly.

O pneumologista e pesquisador Bertrand Dautzenberg é um defensor incondicional do cigarro eletrônico. Ele acaba de coordenar uma pesquisa que avaliou os motivos da queda de 9% do tabagismo entre os jovens franceses desde 2011. A pesquisa mostrou que a principal razão foi o surgimento do cigarro eletrônico.

“Na França, as pessoas sabem que o cigarro eletrônico é perigoso, mas é infinitamente menos perigoso que o tabaco. As pessoas estão abandonando o tabaco. A França e a Inglaterra, por exemplo, registram uma forte queda das vendas de tabaco”, diz Dautzenberg, presidente da Agência Francesa de Prevenção ao Tabagismo. “E a boa notícia das últimas pesquisas é que o cigarro eletrônico não estimula a migração para o tabagismo entre os jovens. Eles provam o cigarro eletrônico e ou o abandonam, ou se tornam consumidores menos fiéis do que seriam do tabaco.”

Brasil proíbe “e-cigarros”

No Brasil, a comercialização de cigarros eletrônicos é proibida pela Anvisa, pela falta de estudos conclusivos sobre os danos do produto à saúde. O pneumologista Ricardo Meirelles, especialista em tratamento contra o tabagismo no Grupo COI (Clínicas Oncológicas Integradas), concorda com a proibição. Para ele, não existe cigarro mais ou menos prejudicial à saúde.

“Não podemos esquecer que a nicotina, presente no cigarro eletrônico, vem do tabaco. Ou seja, de qualquer maneira, o usuário está inalando a nicotina e está se tornando dependente. Ainda não foi descoberta nenhuma forma de utilização de nicotina que seja segura para o ser humano”, observa Meirelles, membro da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer. “Mesmo que haja uma redução no consumo dos cigarros industrializados e o aumento do consumo dos cigarros eletrônicos, a indústria por trás disso vai continuar existindo, com a fumicultura, porque é preciso ter a planta para obter a nicotina“, lembra.

Para o médico francês, entretanto, o cigarro eletrônico se mostra uma ferramenta importante para o abandono do vício. “Eu acho que proibir o cigarro eletrônico é uma bobagem. Eu acho que os brasileiros deveriam deixar as pessoas abandonarem o tabaco”, considera Dautzenberg.

A receita da venda mundial de cigarros eletrônicos passou de 20 milhões de dólares em 2008 para 3 bilhões de dólares em 2013. Já o comércio de cigarros tradicionais foi de 626 bilhões de dólares no ano passado, contra 588 bilhões de dólares no ano anterior.
 

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