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Economia

Europa se aproxima ainda mais da deflação, que pode gerar nova recessão

Áudio 04:31
Espanha já registra inflação negativa há cinco meses.
Espanha já registra inflação negativa há cinco meses. Flickr/ Creative Commons
Por: Lúcia Müzell

Um novo alerta vermelho soou na zona do euro: o índice de inflação acumulada em novembro deve ficar em 0,3%, um valor que aproxima como nunca a Europa da deflação. A diminuição dos preços teria efeitos nefastos para os salários, investimentos e o emprego, ao mesmo tempo em que a União Europeia ainda não conseguiu se levantar da crise de 2008.

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Em outubro, a inflação foi de 0,4%. A preocupação com a deflação assombra o bloco há mais de um ano. Nesse período, o Banco Central Europeu derrubou a taxa de juros para históricos 0,05%, na tentativa de estimular o consumo.

Os índices tão baixos de aumento dos preços se explicam, em parte, pela queda do valor do barril de petróleo, que reduz o preço pago pela energia. Mas a diminuição do consumo se verifica em vários setores da economia europeia.

O resultado é uma cadeia que pode levar a Europa de volta à recessão. “As pessoas param de consumir, na expectativa de que os preços baixem e as empresas deixam de investir e de empregar. A economia fica parada e tudo isso pode gerar um forte efeito recessivo na zona do euro”, explica Céline Antonin, economista do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE) e professora da Sciences Po. “Foi isso que aconteceu no Japão, que não consegue mais sair dessa situação. Essa é outra consequência da deflação: ela gera um círculo vicioso. Não podemos deixar que essa espiral comece.”

Países mais atingidos pela crise econômica, como a Espanha e a Grécia, já registram inflação negativa e redução dos salários. Esse cenário gera ainda mais dificuldades para acertar as contas públicas, como lembra Agnès Bénassy-Quéré, presidente do Conselho de Análise Econômica, em Paris.

“Alguns países já estão com números negativos e para eles, isso é uma grande dificuldade porque, na maioria dos casos, são países que estão muito endividados. Quando os preços diminuem, o peso da dívida é maior e fica muito mais difícil para eles reembolsarem as dívidas”, afirma. “Esses países estão fazendo esforços sobrehumanos, investindo menos, para poder pagar as contas. E isso já é um efeito deflacionista, que é muito perigoso. Podemos entrar em uma espiral deflacionista.”

Política econômica prioriza ajuste fiscal

Bénassy-Quéré considera que os dirigentes europeus estão cientes do problema, mas têm pouca margem de manobra após terem colocado o ajuste das contas públicas como prioridade número 1 da União Europeia, traumatizada pela crise das dívidas.

“O Banco Central Europeu levou o assunto muito a sério. Isso é certo. Mas entre os governos, há uma batalha entre os que pensam que o mais importante é preservar a credibilidade do pacto de estabilidade e continuar os ajustes orçamentários, e os que pensam que o mais importante é impedir que a zona do euro entre em deflação, que defendem uma passa nos ajustes”, destaca. “Um remédio possível seria balancear as grandes reformas estruturais, que poderiam, de certa forma, substituir a austeridade no orçamento a curto prazo. A longo prazo, não há substituição possível: é preciso fazer os dois.”

Impacto da austeridade

Céline Antonin vai ainda mais longe nas críticas. Ela avalia que as autoridades que comandam a economia europeia continuam ignorando o impacto social da austeridade, que vai recair, mais uma vez, sobre os países mais frágeis do bloco.

“A única margem de manobra que a zona do euro teria é pela política orçamentária, colocando um fim à austeridade e fazendo com que a prioridade não seja apenas a redução do déficit, e sim que a economia seja relançada. As escolhas feitas até agora acabaram com o crescimento e provocaram uma guerra para saber quem vai baixar mais os salários para ter mais competitividade”, observa.

A meta de inflação na zona do euro é de 2%, necessários para trazer de volta o crescimento econômico. Bénassy-Quéré ressalta que, desde o início do ano, países-motores do bloco, como a França e a Alemanha, registram índices em torno de 0,7% - uma situação que não traz boas perspectivas diante do risco de deflação.

 

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