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Economia

Entenda por que o preço do petróleo despencou e como isso pode prejudicar a Petrobras

Áudio 04:26
Secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Abdullah bin al-Badri.
Secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Abdullah bin al-Badri. REUTERS/Heinz-Peter Bader
Por: Lúcia Müzell

O preço do barril de petróleo não para de despencar – o valor caiu 46% desde junho, chegando a US$ 63 na semana passada, o menor valor em cinco anos e meio. A curto prazo, essa situação deve ter consequências positivas para o Brasil. Mas se a redução se prolongar por mais de um ano, como esperam especialistas, os investimentos previstos para a extração do pré-sal vão acabar comprometidos, com efeitos sobre a economia do país.

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Em um primeiro momento, os brasileiros vão se beneficiar da diminuição dos preços dos combustíveis. Além disso, como o país é importador de petróleo, a queda pode ajudar a balança comercial, que deve encerrar o ano em déficit.

Porém, passada essa fase, a tendência é o cenário se inverter, na avaliação de Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. “Afeta a Petrobras porque compromete o plano de investimentos no pré-sal e, ao mesmo tempo, por ser a empresa petroleira com a maior dívida do mundo, de US$ 140 bilhões, sendo que 80% é em moeda estrangeira. Se entrar em um ciclo de barril em queda ao mesmo tempo em que tem um plano ambicioso de investimentos e uma dívida grande, ela será obrigada a rever tudo”, observa. “E assim, a Petrobras não vai conseguir cumprir um papel de ser alavancadora da economia brasileira nos próximos anos.”

No mundo, o impacto da queda do valor do barril vai ser maior nos países com mais dependência do óleo, como Venezuela, Irã, Rússia e os países do Golfo. Os países mais pobres, como Congo e Gabão, sofrerão ainda mais para conseguir reequilibrar essa conjuntura.

“Todos os países petroleiros vão sofrer com essa baixa dos preços. A Venezuela, por exemplo, vai ter de fazer grandes ajustes orçamentários, que vão atingir os salários do funcionalismo público. São ajustes que, a longo prazo, podem afetar o equilíbrio interno desses países e criar tensões e problemas sociais no ano que vem”, explica Thomas Porcher, economista especialista em geopolítica da energia. “Tem um monte de pequenos países produtores na África e na América do Sul que podem sofrer muito com essa situação.”

Especulação nos mercados

No domingo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) atribuiu a queda contínua do preço à especulação internacional. Thomas Porcher, professor da ESG Management School, concorda que esse fator é importante para explicar a situação.

“Ocorre uma diminuição da expectativa de crescimento mundial em 2015, a oferta está maior do que a demanda e há operadores de mercado que especulam. Eu não acho que o preço vá cair muito mais, nem por muito tempo, afinal o valor atual não cobre nem os investimentos futuros previstos no setor de petróleo”, avalia. “Ao mesmo tempo, os investimentos feitos no petróleo de xisto já foram feitos e a produção vai continuar.”

Conspiração?

Até agora, a Opep se recusou a intervir no equilíbrio do valor do barril – uma atitude incomum que levantou duas hipóteses de conspiração. A primeira indica que a Arábia Saudita e os Estados Unidos querem, deliberadamente, prejudicar países inimigos, principalmente a Rússia, que já enfrenta sanções econômicas internacionais. E a segunda sustenta que o Catar deseja forçar a depreciação do petróleo não-convencional, que tem levado os americanos e canadenses a importar menos.

“A verdade é que ninguém sabe o que está acontecendo. O que se sabe é que é bem anormal a Opep não intervir nos preços do mercado, quando eles descem a um nível tão baixo. Não foi o que aconteceu nos últimos 15 anos”, lembra o especialista.

Para Adriano Pires, as hipóteses de complô são apenas consequências da queda do preço do óleo, ocasionada pelo aumento da oferta e a diminuição da demanda, em um contexto de crise internacional.

“De repente, o governo americano e a Arábia Saudita começam a ver que a Rússia está sendo muito prejudicada e podem tentar esticar esse prazo de barril mais barato, para quebrar Vladimir Putin. Mas a motivação do preço cair não é essa: o preço caiu porque a oferta ficou maior que a demanda”, destaca.

Tanto Adriano Pires quanto Thomas Porcher avaliam que essa situação pode durar no máximo dois anos.

 

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