Radar econômico

Paciência de credores com a Grécia começa a se esgotar

Áudio 04:39
Até agora, Grécia ainda não apresentou programa detalhado de reformas.
Até agora, Grécia ainda não apresentou programa detalhado de reformas. AFP PHOTO/ LOUISA GOULIAMAKI

A Grécia parece querer testar até onde vai a paciência da União Europeia. Os credores de Atenas aguardam a lista detalhada de reformas que o governo grego pretende adotar para ajustar a economia, sem as quais os europeus se recusam a depositar a última parcela do empréstimo que concede ao país, num valor de US$ 7,2 bilhões (R$ 22 bilhões). A pressão internacional aumentou desde a sexta-feira – e, nesta queda de braço, a possibilidade de saída da Grécia da zona do euro se reforça.

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Nesta semana, representantes do Tesouro e ministros das Finanças dos países que adotam o euro vão realizar duas reuniões para debater a situação, diante da inércia de Atenas. A constatação é de que o prazo para a Grécia evitar um defaut (calote) está se esgotando, uma vez que o país não dispõe dos quase 4 bilhões de euros que precisa desembolsar para pagar as dívidas nas próximas semanas.

A demora do governo em apresentar o pacote de reformas atrasa ainda mais as tentativas de renegociação da dívida grega, desejada pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, mas vista com desconfiança pelos europeus. O economista Thibault Mercier, do BNP Paribas, especialista nos países periféricos da zona do euro, lembra que, na prática, o processo ainda nem começou.

“Uma vez que houver essa validação técnica da lista de reformas, haverá um acordo político entre os ministros das Finanças dos países da zona do euro. Esse acordo vai viabilizar a entrega do empréstimo que ainda falta à Grécia. Mas até agora, o governo grego só apresentou umas 10 propostas, das quais só duas ou três foram validadas”, observa. “O resto foi considerado insuficiente, vago, ou seja, mais declarações de intenções do que verdadeiras propostas.”

Pressão

No último fim de semana, o FMI, o Banco Central Europeu (BCE) e até o presidente Barack Obama deram um aperto no governo grego. Face a tanto impasse, a saída do país da zona do euro é cada vez menos um tabu – o risco de contágio da crise grega para o conjunto da União Europeia é bem menor do que há quatro anos. O vice-presidente do Banco Central Europeu afirmou que essa alternativa não estava sobre a mesa, mas destacou que “o calote por um dos países-membros não teria necessariamente um impacto nos bancos da zona do euro”.

“Em maio, a Grécia tem de reembolsar cerca de 900 milhões de euros para o FMI. Além disso, têm os titulos de curto prazo que o país precisa pagar, de cerca de 2 bilhões e 8 milhões. O problema é que a Grécia nao recebeu mais nenhum novo financiamento desde agosto do ano passado e continua sem acesso aos mercados financeiros, a não ser para títulos de curtíssimo prazo”, ressalta o economista Jesus Castillo, do Natixis. “Ou seja, hoje a Grécia está completamente dependente do dinheiro que as instituições europeias podem emprestar.”

Mudanças profundas

Nesta segunda-feira, o governo grego ordenou as empresas e governos públicos a transferir os excedentes financeiros para o Banco Central do país, em mais uma tentativa de aumentar a liquidez e quitar as contas que se aproximam. Com o mesmo objetivo, recentemente Atenas mexeu em fundos de aponsentadorias e empresas do setor público para financiar o Estado, porém deixou claro que a prioridade será pagar a folha de pagamentos do funcionalismo e pensões.

“É preciso adotar medidas que melhorem as finanças públicas a curto prazo, seja elevando alguns impostos, para aumentar a arrecadação, seja reduzindo os gastos do funcionalismo. Não há milagres”, avalia Mercier. “Outra questão é o funcionamento da economia a longo prazo. É preciso planejar melhor o sistema de aposentadorias na Grécia e reformar o mercado de trabalho, tornando-o mais flexível e aumentando a competitividade das empresas gregas. Só assim Atenas vai poder pagar as suas dívidas e voltar ter crescimento econômico.”

Desde 2010, a Grécia recebe uma ajuda financeira de € 240 bilhões (R$ 782 bilhões), em troca de reformas na economia. Mas segundo Bruxelas, os avanços feitos até hoje são limitados – ao ponto de o empréstimo se aproximar do fim e, quatro anos depois, o país estar longe de conseguir se levantar da crise.

 

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