Grécia/crise econômica

Grécia fecha acordo para se manter no bloco europeu após 17 horas de negociações

Com a fisionomia cansada pela maratona de negociações, o premiê grego, Alexis Tsipras, disse que a Grécia reconquistou sua soberania com esse acordo.
Com a fisionomia cansada pela maratona de negociações, o premiê grego, Alexis Tsipras, disse que a Grécia reconquistou sua soberania com esse acordo. REUTERS/Eric Vidal

Após uma maratona de mais de 17 horas de negociação, que atravessou a madrugada, os líderes da zona do euro chegaram a um acordo sobre a Grécia. Segundo o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o acordo foi fechado por unanimidade pelos 19 países que compõem o bloco monetário.

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O compromisso abre caminho para a negociação de um terceiro plano de resgate à Grécia de cerca de 80 bilhões de euros, nos próximos três anos, e mantém o país na zona do euro. O novo empréstimo será constituído de fundos do Mecanismo Europeu de Estabilidade financeira da União Europeia (MES) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O acordo inclui um projeto de investimentos de 35 bilhões de euros da Comissão Europeia e vai permitir a reestruturação da dívida grega a médio prazo.

Com a fisionomia cansada pela maratona de negociações, o premiê grego, Alexis Tsipras, disse que a Grécia reconquistou sua soberania com esse acordo. "O compromisso permite à Grécia captar novos investimentos para sair da recessão e evitar a falência do sistema bancário grego", afirmou. "Foi difícil obter o acordo, mas nós conseguimos estancar a transferência de recursos públicos para o exterior e obter uma reestruturação da dívida grega", acrescentou. O premiê disse que o combate foi duro até o fim, mas o compromisso encontrado garante a estabilidade financeira e a retomada do crescimento na Grécia.

Vitória política de Hollande

O acordo pode ser considerado uma vitória política do presidente francês, François Hollande, que atuou como mediador entre o governo grego e a Alemanha. A chanceler Angela Merkel liderou um grupo de dez países que durante todo o final de semana fez pressão sobre a Grécia. O governo alemão chegou a propor uma saída temporária de Atenas da zona do euro.

Em seu retorno à Alemanha, Merkel disse ter adotado garantias suficientes para o compromisso. Ela insistiu em um ponto muito sensível para a opinião pública alemã: uma parte da dívida grega não será esquecida. Em tom cauteloso, a chanceler advertiu que o caminho ainda será longo e difícil. Ela vai autorizar o Parlamento alemão a discutir o terceiro empréstimo à Grécia depois que o conjunto das medidas do plano forem aprovadas e promulgadas pelo Parlamento grego.

Medidas draconianas

Segundo Hollande, a Alemanha e outros países queriam garantias de que o governo grego vá cumprir suas promessas. Ficou acertado que o Parlamento grego deve se reunir nas próximas horas para adotar um novo programa draconiano de reformas, que inclui aumento de impostos, cortes e mudanças no sistema de pensões, além de privatizações.

Um fundo de ativos gregos de 50 bilhões de euros, que vai ser a garantia do novo empréstimo, será baseado em Atenas. Esta foi uma pequena vitória do governo grego, já que os parceiros europeus queriam que o fundo fosse instalado em Luxemburgo. Os bancos gregos, capitalizados pela União Europeia, irão financiar a metade dos recursos desse fundo; a outra metade virá dos recursos arrecadados com as privatizações e investimentos do setor privado.

Hollande explicou que o objetivo do acordo é permitir à Grécia fazer reformas, ganhar em competitividade e ter crescimento no futuro. O líder francês considerou o acordo "um teste para a solidez das relações entre França e Alemanha". Segundo ele, "não foi fácil" para o premiê grego, Alexis Tsipras. "Ele aceitou porque precisa do dinheiro", afirmou Hollande. Para o chefe de Estado francês, "o acordo foi uma demonstração de solidariedade entre os europeus".

Até quarta-feira, o Parlamento grego deverá votar o novo programa de austeridade. Os bancos do país continuarão fechados por vários dias.

Nas redes sociais, gregos insatisfeitos com o resultado das negociações falam em "golpe de Estado", estimando que o governo grego de esquerda fez concessões demais aos europeus.

A Grécia já se beneficiou em 2010 e 2012 de planos de resgate financeiros por um valor total de € 240 bilhões. O país deve € 322 bilhões aos credores, o equivalente a 180% do conjunto das riquezas produzidas pela economia grega (PIB).

Um "acidente" ainda é possível

Vários países terão de submeter o acordo fechado com a Grécia a seus respectivos Parlamentos (Alemanha, Finlândia, Holanda, entre outros). Estima-se que o acordo só estará aprovado de fato daqui duas ou três semanas. Depois de ter declarado uma moratória de € 1,7 bilhão ao FMI, no dia 30 de junho, Atenas deve reembolsar ao Banco Central Europeu € 3,5 bilhões no dia 20 de julho, e os cofres do país estão vazios.

Os ministros das Finanças do Eurogrupo e o BCE ainda estudam, nesta segunda-feira, de que forma liberarão recursos para a Grécia restabelecer o funcionamento de seu sistema bancário e do Tesouro grego. Os bancos do país estão fechados desde o início de julho.

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