Radar econômico

Riscos de Grécia “afundar” na crise são ainda maiores após acordo

Áudio 03:50
Pessoas fazem fila para comprar mantimentos em uma loja em Atenas, Grécia.
Pessoas fazem fila para comprar mantimentos em uma loja em Atenas, Grécia. REUTERS/Marko Djurica

Em troca de um terceiro plano de ajuda financeira, o governo grego aceitou promover um rígido plano de reformas, com aumento dos impostos, mais cortes de gastos e redução das pensões das aposentadorias. O pacote de medidas poderá “afundar” ainda mais o país na crise, passados sete anos de crise econômica e e em meio a uma difícil saída da recessão.

Publicidade

Na opinião do economista Henri Sterdyniak, especialista em política econômica europeia do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE), o plano europeu apresentado a Atenas comete o grave erro de incluir poucas medidas de estímulo ao crescimento e combate ao desemprego.

“As medias de austeridade e as incertezas vão provavelmente se traduzir em dois ou três anos de depressão, o que vai acentuar ainda mais as dificuldades da Grécia. Atenas terá muito problema para cumprir os seus objetivos de déficit primário”, explica. “O que seria essencial era Atenas poder aumentar os investimentos produtivos, mas até agora houve muito poucas medidas nesse sentido.”

Sterdyniak ressalta que, não bastassem as medidas de rigor, Atenas ainda precisará da aprovação prévia dos credores de qualquer novo plano econômico para enfrentar a crise. Na visão do economista, a ingerência internacional deve acentuar a tensão social no país.

“Os riscos de Atenas se afundar ainda mais a crise são muito grandes. Provavelmente, a Grécia não terá o dinamismo necessário para sair da depressão”, afirma. “O Syriza era uma esperança nesse sentido, mas infelizmente ele não teve nenhuma margem de manobra.”

Sem alternativa

Jean-Dominique Giuliani, presidente do think tank Fundação Robert Schuman, avalia que, diante do impasse entre os credores e o governo grego de esquerda radical, a única maneira de manter o país na zona do euro era forçando um compromisso de Atenas com reformas profundas da economia.

“Não se trata de austeridade: se trata se colocar as contas em ordem. Alexis Tsipras não tinha mais escolha. A Grécia já está no fundo do poço, afinal o país não tem mais bancos funcionando”, ressalta o presidente da instituição, com sede em Paris e Bruxelas. “Tsipras só tinha a alternativa de recorrer aos seus parceiros mais próximos, à União Europeia.”

Gregos brasileiros

O pacote de medidas ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento grego – uma etapa que promete não ser fácil. O economista Alexandros Gantzias, diretor da associação Lar Brasileiro, em Atenas, mora há mais de 30 anos na capital grega e viveu toda a crise de perto. Ele acha que, apesar de duro, o acordo com os europeus era necessário.

“O bom é que ficamos na zona do euro. Estávamos quase fora dela, até ontem à noite. Mas o acordo é problemático. Haverá muitos impostos e problemas para o povo grego em geral. Até hoje, tínhamos o povo dividido no meio: uma metade queria o acordo e a outra, não. Agora, acho que os dois juntos vão para a rua”, constata. “O futuro vai ser difícil. Pode ser que, em alguns anos, a situação melhore. O problema é que nenhum governo cumpriu o que prometeu nos últimos cinco anos.”

Permanência no euro

A comunidade grega no Brasil também acompanha os desdobramentos das negociações. O radialista Eustáquio Andréa Patounas, de 63 anos, acha que o mais importante era manter a Grécia na zona do euro - tanto para futuro do país e quanto para estabilidade da moeda única europeia.

“É um país que sempre teve grandes problemas, tivemos a ocupação Otomama, e hoje ainda continuamos escravos: hoje, é do sistema monetário. Mas eu acho que tudo é uma questão de tempo”, observa. “Há um ditado muito famoso na Grécia que é: ‘a Grécia jamais morre’. Não vai ser dessa vez que a Grécia vai falecer.”

Filho de gregos radicados em Brasília, o bancário Ioannis Stylianoudakis, 29 anos, pensa diferente: para ele, Atenas jamais deveria ter entrado na zona do euro. Ele acha que, quando as dificuldades econômicas se acentuaram, o país deveria ter organizado a sua saída da moeda única europeia.

“Eu defendo que a Grécia permaneça na União Europeia. No entanto, a zona do euro exige uma qualificação da economia que a Grécia ainda não tem. Além disso, as medidas de austeridade têm puxado a Grécia para trás”, sublinha. “Para que Atenas consiga superar os seus problemas, terá primeiro de promover o desenvolvimento interno e a integração regional, algo que ela não tem. Os números de comércio da Grécia com os países vizinhos são ínfimos, e isso é inadmissível.”

O próximo capítulo da crise grega é nesta quarta-feira: o Parlamento grego deverá se pronunciar sobre a primeira parte das medidas exigidas pelos credores internacionais. Uma nova rodada se repete na semana que vem.
 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.