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Economia

Mercado em mutação leva jovens a se prepararem para “carreira de freelances”

Yéza Lucas, coach francesa que ensina a ser freelancer.
Yéza Lucas, coach francesa que ensina a ser freelancer. Arquivo Pessoal
Por: Lúcia Müzell
5 min

Horários rígidos para cumprir, falta de tempo para a vida pessoal, estrutura burocrática e engessada e, para completar, estabilidade no cargo cada vez menos garantida. Não foram poucas as razões que levaram a francesa Yéza Lucas, 29 anos, a desacreditar no emprego “tradicional” – e ela então percebeu que, apesar das profundas mudanças em curso no mercado, os jovens não são formados para serem trabalhadores autônomos.

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Alguns anos de experiência em empresas bastaram para a jovem, mestre em ciências políticas e especialista em comunicação, entender que não era aquilo que queria para o resto da vida. 

“Quando falamos em ‘freelancer’, pensamos direto na precariedade, que vai ser um sufoco para fechar as contas, mas não precisa ser assim. Pode ser um verdadeiro projeto profissional: aprende-se a ser um bom freelancer”, ressalta a coach. “É um trabalho que nos dá muita liberdade e, se conseguimos nos organizar bem, temos sim uma certa estabilidade – não tanto quanto num emprego tradicional, mas certamente é um trabalho menos chato.”

Nas universidades, Yéza constatou que os estudantes são formados para trabalhar em grandes empresas ou criar novas, mas não para serem autônomos. Os serviços especializados do governo para apoiar desempregados na busca por um novo posto também ignoram as janelas abertas para os freelancers.

Aprender a virar autônomo

A exemplo de médicos ou advogados no passado, hoje, diversas outras carreiras podem ser exercidas desta forma: praticamente qualquer tipo de prestação de serviços, como consultor em marketing, designer gráfico ou professor.

“Podemos desenvolver a sua marca pessoal, aperfeiçoar a arte de escrever melhor para se vender e, mais globalmente, ensino as bases da vida de freelancer: como viver de uma determinada atividade, ter clientes regulares e atrair novos, se organizar no tempo, já que haverá períodos com mais ou menos trabalho”, observa a especialista.

Para Camille Rabineau, 34 anos, foi como ergonomista de espaços de trabalho que esse horizonte se abriu. Com dois cobiçados diplomas em Paris e Londres e uma carreira em empresas públicas e privadas, ela pediu demissão e se lançou como autônoma.

“Sabe aquele clichê do trabalhador independente que é muito solitário, aquele olhar de pena quando lhe perguntam ‘você não fica deprimida de trabalhar sozinha?’. Comigo foi o contrário! Conheci muita gente, desenvolvi novas parcerias”, relembra a gestora de recursos humanos. “Fui trabalhar num coworking que, além de novos amigos, também me proporcionou mais oportunidades de negócios. E sem contar que podemos ser muito solitários nas grandes empresas, quando há ruído nas relações, o clima interno não é legal ou o chefe não te dá muita atenção.”

Camille Rabineau, urbanista que abandonou carreira para criar empresa
Camille Rabineau, urbanista que abandonou carreira para criar empresa Arquivo Pessoal

Mais tempo para a vida pessoal

O melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional costuma acelerar os planos daqueles que já não estavam muito satisfeitos nas empresas convencionais. A chegada dos dois filhos ajudou Camille a tomar a decisão.

“Fiquei surpresa com toda essa liberdade, principalmente de pensamento e de tomar os rumos que eu realmente quero. Ainda é cedo para dizer se o retorno financeiro será equivalente, mas só por poder administrar o meu tempo como eu quero e poder ficar mais com a minha família, já vale”, avalia a parisiense. “A gente revê as nossas prioridades. Nas empresas, estamos sempre em busca de mais e só pensamos em subir, subir, subir.”

Adaptação às mudanças das profissões

Em plena época de uberização do trabalho e em que governos fazem malabarismos para fechar as contas, Yéza avalia que a tendência freelance é inevitável. Mas ela reconhece que nem todos têm perfil empreendedor e algumas carreiras, como a de enfermagem, resistirão mais tempo num modelo mais “clássico”.

“Em geral, as pessoas que não encontram um bom trabalho ou estão sempre insatisfeitas são aquelas que têm muita dificuldade de se adaptar às mudanças, não perceberam que elas chegaram ou simplesmente não as aceitam. Continuam buscando um trabalho que, na verdade, não existe mais”, comenta a coach. “Para ter sucesso hoje, precisamos antecipar um pouco as tendências de amanhã e aceitar de mudar com uma certa frequência a sua atividade, de modo que ela continue respondendo às expectativas da sociedade.”

Outro desafio – talvez o maior para qualquer freelancer – é garantir uma aposentadoria no futuro. Para não ser pego de surpresa, é preciso se planejar desde cedo e não ceder à tentação de adiar as contribuições em troca de uma renda mais alta durante a carreira, em especial nos primeiros anos como autônomo.

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