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Pandemia de coronavírus trouxe mudanças no comportamento do consumidor e empresas terão que se reinventar

Pessoas mantêm um metro de distância nas filas para poder entrar nas lojas. Em casa, na rua, no supermercado: as novas regras ditadas pelo coronavírus.
Pessoas mantêm um metro de distância nas filas para poder entrar nas lojas. Em casa, na rua, no supermercado: as novas regras ditadas pelo coronavírus. AP - Steven Senne
Texto por: Vivian Oswald
8 min

No pacato vilarejo de Amersham, a 45 quilômetros a oeste de Londres, o morador de uma das pequenas casas em estilo Tudor do centro histórico improvisou. Todos os dias, no mesmo horário, leva para a calçada o remo e os alteres que encomendou pela internet. Por falta de espaço, é ali, diante da vizinhança, que pratica seus exercícios diários. Desde o início da quarentena, milhares de britânicos compraram tantos equipamentos de ginástica pela rede, que os preços dispararam e os estoques esgotaram.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

As academias continuam fechadas até segunda ordem na Inglaterra. Muitas nem devem reabrir por dificuldades financeiras, ou de adaptação às novas regras de distanciamento social e higiene. Ainda que o façam, verão que os tempos são outros. Especialistas afirmam que este é um dos setores da economia que terão de lutar para se manterem no mercado após a pandemia. A crise sanitária e econômica da Covid-19 afetou em cheio o bolso e o comportamento do consumidor, hoje mais racional e menos disposto a sair de casa para gastar.

“Haverá um rearranjo no comércio em geral, e só as empresas que souberem se reinventar sobreviverão. É o caso das academias. Muita gente fará exercício em casa, na rua. Haverá um medo inicial de contaminação. Mas está claro que a renda caiu. Muitos perderam o emprego. Essas pessoas vão cortar gastos para se adaptarem a um novo orçamento, ou para se precaverem para o futuro próximo”, disse à RFI o professor da EAE Business School de Barcelona, Pablo Contreras, especialista em consumo.

Embora vários países tenham começado a reabrir as portas do comércio, a renda e o otimismo do consumidor despencaram. Mais da metade acha que suas finanças não se recuperarão pelos próximos quatro meses ou mais. No Brasil, 73% das pessoas dizem que sua renda encolheu. É o país mais afetado entre as 42 nações ouvidas pela consultoria McKinsey, seguido por África do Sul (70%), Índia (70%), Itália (51%) e Espanha (50%). As expectativas também são baixas. Mais de 70% dos entrevistados pelo mundo estimam que os efeitos da Covid-19 sobre a sua vida e o seu bolso persistam por um bom tempo.

Impedido de ir à academia, morador de Armesham fazendo atividades físicas na calçada.
Impedido de ir à academia, morador de Armesham fazendo atividades físicas na calçada. © Vivian Oswald

 

A China e a Índia, os dois maiores mercados consumidores do planeta, se mantinham mais otimistas do que o resto. Mas os dados foram captados antes de Pequim determinar o confinamento de parte da capital, depois de identificar novos casos de contaminação no maior mercado de carnes da cidade, o Xinfadi, onde trabalham 10 mil chineses. O Império do Meio foi o primeiro país a mergulhar nesta crise, desde que foram identificados os primeiros casos do novo coronavírus na cidade de Wuhan. E parecia ser também o primeiro a se recuperar. As novas restrições impostas nos últimos dias alertam para uma temida segunda rodada de contaminações.

 

Se o otimismo, ou a falta dele, pode ser apenas um sentimento momentâneo, por outro lado, o consumidor está mais racional. E essa pode ser uma das mudanças que vieram para ficar, de acordo com o professor da EAS Business School. “Estamos mais atentos aos preços. Vimos que é possível economizar”, destaca. As compras por impulso e os gastos com supérfluos diminuíram na quarentena. Isso se refletiu no bolso do consumidor.

Compras virtuais

O e-commerce é outro fator de peso. Mais gente se deu conta de que não precisa sair de casa para comprar, e que, pela internet, é mais fácil comparar preços. Cerca de 50% dos espanhóis admitiram que vão gastar mais pela rede mesmo depois da pandemia. O problema é que isso deve agravar a situação difícil do comércio de rua, que, desde antes da pandemia, vinha perdendo a queda de braço para o mundo das vendas virtuais.

Governos já estão atrás de formas de estimular o funcionamento destes estabelecimentos. Com as portas fechadas, as lojas britânicas perdem o equivalente a US$ 2,5 bilhões por semana, pelas contas da associação nacional dos varejistas. Mesmo as grandes marcas globais sentiram que o futuro será diferente, ainda que tenham sido menos afetadas pela crise do que as empresas de pequeno porte. A Zara anunciou fechamento de 1.200 lojas físicas. Deve investir mais no comércio eletrônico e armazéns.

Nos últimos meses, os pequenos também tentaram se informatizar para manter a clientela. No Reino Unido, sem as encomendas de restaurantes, bares e pubs — fechados desde o dia 23 — fazendas por todo o país foram atrás do consumidor final. Muitas criaram sites próprios ou em cooperativa para vender seus produtos online. A novidade cria um canal direto com consumidor, que, antes mesmo da crise, já buscava alimentos orgânicos para a sua mesa.  

“Os hábitos mudaram. Foram criadas novas normas de higiene e distanciamento social. As empresas vão ter de se adaptar. Usar mais meios de pagamento eletrônico, buscar novas formas de fazer negócios, se informatizar”, avisa Contreras. 

Para agradar o novo consumidor, as empresas vão precisar investir em mudanças. Não basta introduzir placas de acrílico nos balcões de lojas e supermercados. Na Espanha, cerca de 50% do comércio não aceita pagamentos eletrônicos, segundo o estudo da EAE. Enquanto 20% dos espanhóis dizem que não pretendem ir às lojas físicas por temer contaminação, 30% não querem experimentar roupas.

“Enquanto algumas indústrias estão em uma posição melhor para enfrentar a tempestade, outras vão precisar lutar para sobreviver”, alerta relatório recente do Fórum Econômico Mundial. Exemplo disso são os setores de turismo e transportes, talvez os mais afetados pela pandemia. Segundo Contreras, o consumidor vê as viagens com novos olhos.

“A ideia de sair de férias é escapar da realidade, se despreocupar, viver sem problemas. Agora, as pessoas serão constantemente lembradas das regras de segurança, de lavar as mãos, de problemas. Tudo isso com menos dinheiro para gastar. Para muitos, não valerá a pena”, explica o professor.

Verão vai salvar economia ?  

Pelo menos até que se encontre uma vacina ou um tratamento para a Covid-19, as demandas serão outras. O consumidor ficará mais exigente. O fato é que, de acordo com a pesquisa da EAE, 70% dos espanhóis reduziram o orçamento de viagem este ano, 24% não sairão de férias, e outros 24% viajarão dentro da própria Espanha para evitar surpresas pandêmicas, do tipo não poder voltar para casa.

Nos últimos dias, a União Europeia (UE) reabriu as suas fronteiras internas, numa tentativa desesperada de aproveitar a alta temporada de verão para estimular a economia. O setor corresponde a 10,4% do PIB global e a quase 15% do PIB em países como a Espanha, Itália e Grécia. Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo, 50 milhões de empregos estão em perigo no setor. Deste total, 30 milhões na Ásia.

Pelo menos até o ano que vem, as pessoas vão continuar priorizando os itens básicos, como alimentos. Máscaras, luvas, álcool gel, sabão e desinfetantes entraram para a tal lista das prioridades e não devem sair tão cedo. 

No início da pandemia, estes foram os primeiros itens a desaparecer das prateleiras dos supermercados, quando as pessoas compravam movidas a pânico. As grandes redes tiveram de aumentar as encomendas dos seus fornecedores. E acreditam que o “novo normal” para o volume de vendas destes itens agora é outro.

Mudança no perfil dos consumidores

As "compras por capricho”, como chamou Contretas, foram para o final da fila das prioridades, com indicam as pesquisas da EAE, da McKinsey e da consultoria Deloitte. Na segunda-feira passada, quando o Reino Unido reabriu o comércio, depois de quase três meses de quarentena, chegou-se a pensar que o apetite do consumidor estava de volta. Mas as longas filas que se formaram em frente às lojas eram explicadas pelas novas regras de distanciamento e um impulso momentâneo de quem esteve trancado em casa por meses. Os lojistas admitem que as compras não chegam a um terço do que seria normal para o período.

As transformações no perfil do consumidor estão apenas começando. Desde a quarentena, muitas pessoas resolveram deixar os grandes centros urbanos atrás de espaço, jardim e uma vida mais confortável, longe das altas densidades que facilitam contaminações. Querem investir em produtos mais saudáveis, que ajudem lidar com o estresse e a ansiedade, ou um ambiente mais “limpo e seguro”, segundo Gabrielle Lieberman, responsável pela área de estratégia para as tendências de consumo e pesquisa de mídias sociais da Mintel, em seu blog. 

Lieberman afirma que novas tecnologias devem ajudar as pessoas a terem uma experiência mais inclusiva do que exclusiva, como a possiblidade de participar de shows ao vivo, a partir do telefone, por exemplo. “As experiências coletivas terão outro significado”, diz.

Outro aspecto interessante é que o consumo da quarentena deve afetar a maneira como se consome depois dela. Professora do Instituto para Mercados Emergentes da Hong Kong University of Science and Technology, Amy Dalton, afirma que a pandemia pode deixar potencializar os problemas de obesidade. 

Estudos realizados nos Estados Unidos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, identificaram que, por se sentirem ameaçados, americanos se trancaram em casa e passaram a compensar o estresse com comida. 

“O mesmo pode acontecer agora, em maior escala. O comportamento alimentar muda. As pessoas ficam em casa, assistindo televisão, tentando lidar com a ansiedade e o estresse. A alimentação movida pela emoção pode levar a problemas como a obesidade”, explicou a especialista. Tudo isso cria novas demandas do consumidor.

Talvez seja cedo para determinar se o padrão de consumo mudou para sempre. Tudo vai depender da dimensão da transformação por que passarão as economias e a própria população. Neste momento, é difícil dizer se a pandemia está perto do fim. Embora pareça contida em alguns países, continua em curva de ascensão em muitas nações. 

Para Nick Chater, professor de Ciência Comportamental da Universidade de Warwick e autor de mais de 200 publicações, é surpreendente a capacidade do ser humano de se adaptar à nova realidade "de maneira incrivelmente rápida”.

“Mudou o contrato social. O mundo inteiro mudou completamente a maneira de viver nos últimos meses, algo inconcebível até pouco tempo atrás, até mesmo para as autoridades", disse o professor.

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