Programa da ONU propõe renda mínima para os mais pobres enfrentarem a pandemia

Os pobres e mais vulneráveis são os que mais sofrem com a pandemia de Covid-19, ressalta a ONU.
Os pobres e mais vulneráveis são os que mais sofrem com a pandemia de Covid-19, ressalta a ONU. AFP/Sergio Lima

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) propôs a criação de um sistema provisório de renda mínima para ajudar os mais pobres a enfrentar a pandemia de Covid-19. A iniciativa poderia atingir 3 bilhões de pessoas no mundo e, se aplicada, contribuiria para desacelerar a propagação do surto.

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A ideia foi apresentada em um relatório divulgado pelo PNUD na quarta-feira (22). O documento insiste que a medida deve ser adotada de forma “urgente”, já que a pandemia “se propaga a um ritmo de 1,5 milhão de novos casos por semana, principalmente nos países em desenvolvimento”.

Em entrevista à RFI, Alexis Laffittan, especialista de parcerias do PNUD em Genebra, explicou que o programa visa as pessoas mais pobres, “que vivem abaixo ou um pouco acima da linha da pobreza”. Segundo ele, essa medida pode ajudar “os trabalhadores informais, trabalhadores pobres, mulheres e jovens mais vulneráveis, refugiados, migrantes, portadores de deficiências, enfim, os que são mais impactados pela pandemia”. O especialista do PNUD lembra ainda que sete em cada dez pessoas no mundo ganham suas vidas por meio de uma atividade informal.

O valor da renda mínima seria calculado em função do que cada nação considera como a linha da pobreza. “Nos países onde esse parâmetro é de US$ 1,9 por dia, pensamos em uma renda de cerca de US$ 3, não apenas para que os beneficiários possam comprar alimentos e garantir a educação de seus filhos, mas também para poderem ficar em casa quando perdem suas atividades (profissionais). Já nos países onde a linha da pobreza é mais elevada, de US$ 5 diários, propomos uma renda mínima de cerca de US$ 13”, detalha Laffittan.

Os economistas do PNUD já calcularam o custo do projeto, que seria de US$ 199 bilhões mensais e poderia durar seis meses. “Esse valor representa apenas 12% da resposta financeira mundial à crise da Covid-19 em 2020”, compara Laffittan.

Todos saem ganhando

O PNUD também propõe uma fonte de financiamento dessa renda mínima, que poderia vir da moratória sobre a dívida externa dos países em desenvolvimento proposta pela própria ONU. “Apenas um terço do valor dessa dívida já cobriria esse projeto de renda mínima provisória”, calcula Laffittan.

O especialista do PNUD ressalta que esse tipo de iniciativa é vantajoso para todos, já que “90% da renda dos mais pobres é injetada novamente na economia por meio da compra de bens essenciais. Então essa medida de renda mínima seria imediatamente reintegrada na economia”.

Segundo as projeções da ONU, o vírus poderia matar 1,67 milhão de pessoas em trinta países em desenvolvimento. “A Covid-19 exacerbou as desigualdades mundiais e nacionais existentes e criou novas disparidades que atingem de forma ainda mais severa as pessoas mais vulneráveis”, apontou a instituição.

Mais de 15 milhões de casos do novo coronavírus foram oficialmente contabilizados no mundo. A pandemia já matou, desde o final de dezembro, pelo menos 617 mil pessoas.

 

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