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G20 se reúne para tentar conter recessão provocada pela maior crise sanitária do século

A Arábia Saudita organiza a 13ª reunião de cúpula do G20, que acontece de forma virtual.
A Arábia Saudita organiza a 13ª reunião de cúpula do G20, que acontece de forma virtual. AFP - FAYEZ NURELDINE
Texto por: Vivian Oswald
7 min

Acontece nesse fim de semana a 13ª cúpula do G20, grupo formado pelas principais potências mundiais. O evento, sediado pela Arábia Saudita, será realizado online por causa da pandemia de Covid-19. Mesmo se temas ligados ao terrorismo e mudanças climáticas estão na pauta de discussões, os participantes têm como principal desafio encontrar soluções conjuntas para enfrentar uma das piores recessões da história.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

A crise financeira global de 2008 exigiu uma ação coordenada dos países do G20 (o grupo das vinte economias mais importantes do mundo) como ainda não tinha sido vista. Foi a partir dali que a plataforma de reflexão, nascida logo no início dos anos 2000, ganhava uma agenda de trabalho de peso e um encontro de cúpula por ano da qual participariam não só ministros de Economia, mas também de chefes de Estado e de governo. A primeira foi em Washington, presidida pelos Estados Unidos. Os países tinham pressa por conta da recessão que estava por vir. Nos anos que se seguiram, com o processo de recuperação em curso, a iniciativa foi perdendo fôlego. Neste fim de semana, em sua 13ª edição, a cúpula do G20 acontece diante do imenso desafio de se conter a maior crise sanitária do século e uma recessão que especialistas comparam aos efeitos das grandes guerras mundiais. A tarefa não é fácil. Mas é a chance de retomar a sua missão inicial e provar a sua relevância como instância ativa.

Tudo conspira contra resultados mais concretos. O vírus obrigou a presidência do G20 este ano, a cargo da Arábia Saudita, a levar todos os eventos e negociações para o meio digital. É a primeira vez que isso acontece. Além disso, os Estados Unidos participam da reunião sob o comando do republicano Donald Trump. O presidente americano, que nunca teve especial apreço pelo grupo, acaba de ser derrotado nas urnas pelo democrata Joe Biden, que só será empossado em janeiro. Ou seja, em menos de dois meses, a Casa Branca que participa desta cúpula estará sob nova administração. Não está claro se Trump estará presente, muito menos a equipe de transição.

O governo saudita afirma que o foco do encontro dos líderes dos 20 países do grupo, que acontece neste domingo (22), estará nos desafios socioeconômicos impostos pela pandemia e na busca por um caminho “mais inclusivo, sustentável, para uma recuperação econômica mais consistente, que sirva de fundação para um futuro melhor”. Dados da secretaria do G20 mostram que estas nações gastaram nada menos do que US$ 11 trilhões para estimular a economia global.

O grupo também lançou a Iniciativa de Suspensão do Serviço das Dívida (DSSI na sigla em inglês), para oferecer aos países mais pobres e vulneráveis alívio urgente e liquidez imediata diante de seus credores. A moratória liberou US$ 14 bilhões para 46 nações nesta situação em 2020. O rascunho da declaração final da cúpula inclui a possibilidade de se estender a moratória da dívida para esses países por mais seis meses. A ONU defende que a prorrogação seja válida até final de 2021. Bancos de desenvolvimento também estariam trabalhando na ajuda de US$ 75 bilhões para esses países no âmbito de um pacote mais amplo de US$ 230 bilhões para que nações em desenvolvimento e as mais pobres possam usar como resposta aos efeitos da pandemia.

Pai da sigla BRIC diz que recuperação é possivel

Para Jim O’Neill, presidente do prestigioso think tank britânico Chatham House, se os países do G20 destinassem a investimentos apenas 1% do valor que gastaram com estímulos até agora, poderiam não apenas controlar a pandemia, como também garantir a recuperação da economia global. Segundo ele, os recursos serviram para que a comunidade internacional possa “expandir amplamente o acesso a testes de Covid-19, tratamentos e vacinas — quando estiverem disponíveis —, e assim salvar vidas, colocar a economia global de volta ao caminho do crescimento de longo prazo e estabilidade”. O’Neill ficou conhecido por ter cunhado a sigla BRIC (que inclui Brasil, Rússia, Índia e China), os países que considerava, quando ainda era economista-chefe do banco Goldman Sachs em 2001, os futuros motores da economia mundial. “Investir agora e garantir o diagnóstico eficiente, drogas terapêuticas e vacinas que sejam desenvolvidas e distribuídas pelo mundo não é apenas a coisa certa, mas a coisa inteligente a ser feita”, disse ele.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que já percebia algum tipo de recuperação econômica desde julho, afirma que a perspectivas já não são tão boas depois do avanço da segunda onda do vírus. A entidade defende que os países mantenham as ações de estímulo e atentem para as crescentes desigualdades sociais. O fundo avalia que as soluções médicas podem estar disponíveis mais depressa e de maneira mais ampla do que se imaginava inicialmente, o que pode resultar no aumento da renda global em quase US$ 9 trilhões até 2025.

A agenda do clima também está no foco das discussões do G20, assim como o terrorismo e os conflitos pelo mundo. Todos esses temas, sobre os quais não há um consenso, vão precisar de uma espécie de acordo entre os líderes que participação da cúpula. E os avanços vão depender da vontade política que demonstrem em agir de maneira conjunta. Em entrevista à imprensa nesta sexta-feira (20), o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Antonio Guterres, afirmou é preciso trabalhar pela transformação do mundo e levá-lo a um modelo mais sustentável. “Está na hora de construir, coordenar e agir. Não temos tempo a perder”, destacou.

Decisões sem o "olho no olho"

É verdade que as reuniões online, por mais que a agenda tenha sido bem adaptada pelos sauditas, perdem o dinamismo dos tradicionais encontros presenciais. Muitos itens de declarações conjuntas já foram acertados a partir do contato olho ano olho nos bastidores de uma sala de reunião, ou nos corredores das salas de convenções em cúpulas anteriores.

Para os jornalistas, a consequência não é muito diferente. A frieza das salas virtuais tira parte da transparência do processo e certamente tira das coberturas o calor do momento da construção de acordos, quando eles são possíveis, o que pode ser muito conveniente para muitos, sobretudo neste momento em que o mundo vive tantas incertezas.

O príncipe da Arábia Saudita Mohammed Bin Salman telefonou para o presidente brasileiro Jair Bolsonaro nesta sexta-feira para discutir a coordenação de esforços para os trabalhos da cúpula de líderes do G20, informou agência de notícias estatal saudita SPA.

Os países do G20 abrigam dois terços da população mundial e correspondem a 80% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

 

 

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