El Salvador adota bitcoin, mas maioria da população desconfia da criptomoeda e rejeita projeto

El Salvador passou a ser o primeiro país do mundo a adotar  o bitcoin como moeda nesta terça-feira (7), em meio a forte ceticismo e advertências de economistas e organizações financeiras internacionais.
El Salvador passou a ser o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda nesta terça-feira (7), em meio a forte ceticismo e advertências de economistas e organizações financeiras internacionais. AP - Salvador Melendez

El Salvador passou a ser, a partir desta terça-feira (7), o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda corrente, ao lado do dólar. O plano polêmico do popular presidente Nayib Bukele visa reativar a economia. Especialistas ouvidas pela RFI explicam por que a maioria da população do país latino-americano desconfia e rejeita o projeto.

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O início da era bitcoin em El Salvador, que gera dúvidas entre a população e desconfiança de especialistas, é seguido de perto nas redes sociais por apoiadores e críticos, que usam as hashtags "#bitcoinday" e "#noalbitcoin". O sistema apresentou problemas na largada com vários usuários não conseguindo instalar o aplicativo. O presidente salvadorenho alertou no Twitter que “por alguns momentos o @chivowallet não iria funcionar” e seria desconectado enquanto a capacidade dos servidores fosse aumentada.

O governo comprou as primeiras 400 moedas, a um valor de mercado de US$ 21 milhões de dólares. A administração lançou o sistema eletrônico Chivo para telefones celulares e instalou 200 caixas eletrônicos que vão operar em bitcoins e dólares.

Para incitar a população aderir ao novo sistema, os salvadorenhos que abrirem uma conta na criptomoeda receberão o equivalente a US$ 30 em bitcoins. Mas para especialistas ouvidas pela RFI o ceticismo ainda impera.

Falta de cultura financeira

A economista salvadorenha Lilian Vega diz que a população não tem uma cultura financeira profunda e não sabe o que é bitcoin. “Somente 37% da população tem conta bancária de transações básicas. A população não entende a moeda digital e tem medo de que no momento da transação saia perdendo”, salienta Vega que critica a falta de pedagogia de Nayib Bukele. “Lamentavelmente, a explicação do presidente só confundiu. Ele não conseguiu transmitir uma ideia que acalmasse o ânimo da população”, avalia a economista.

Além de desconhecer, uma pesquisa realizada pela Universidade Francisco Gavida, indica que a maioria da população rejeita o bitcoin considerado volátil. Nathalie Janson, especialista em criptomoeda da Neoma Business School, disse à RFI que “o principal temor dos salvadorenhos é que o governo passe a pagar as aposentadorias em bitcoin”. Apesar das resistências, a economista diz que será interessante observar como “será esta experiência em larga escala” da adoção de uma criptomoeda que pode tecnicamente trazer uma diminuição dos custos bancários para os usuários.

Volatilidade

Na linguagem coloquial salvadorenha, "chivo" é algo muito bom. Mas os críticos da adoção da criptomoeda pelo país usam nas redes sociais "#NoesChivo" porque afirmam que o sistema expõe os fundos estatais a um ativo volátil.

Quando foi criado em 2009, o bitcoin valia centavos de dólar. Atualmente o preço supera US$ 52.000. Mas nos últimos 12 meses seu valor variou muito. Ele chegou a alcançar US$ 62.000 e despencar a US$ 35.000, em função de comentários de investidores como Elon Musk e anúncios de regulamentações chinesas.

Essa volatilidade leva também economistas e organismos como o Banco Mundial, o FMI e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a expressarem ceticismo sobre a medida. "Um dos primeiros riscos é que os custos da experiência são pagos pela população", advertiu o economista Ricardo Castañeda, do Instituto Centro-Americano de Estudos Fiscais.

O governo de Bukele garante que a polêmica medida contribuirá para o acesso da população ao sistema bancário. Ela também evitará, segundo o presidente, uma perda de US$ 400 milhões nas remessas que os salvadorenhos enviam do exterior e que representam 22% do PIB. No entanto, alguns especialistas questionem a afirmação de Bukele.

População prefere continuar usando o dólar

Em El Salvador, que dolarizou sua economia há duas décadas, a maioria dos 6,5 milhões de salvadorenhos prefere continuar usando o dólar. Sete em cada 10 salvadorenhos "discordam ou discordam veementemente" do bitcoin, apontou uma pesquisa recente da Universidade Centro-Americana (UCA), que consultou 1.281 pessoas em meados de agosto. Dos mais de 1.500 consultados em outra pesquisa do jornal La Prensa Gráfica, 65,7% disseram que desaprovam a criptomoeda.

A Assembleia Legislativa aprovou a lei do bitcoin em junho, e no fim de agosto endossou um fundo de US$ 150 para garantir a "conversibilidade automática" do bitcoin ao dólar. A lei estabelece que o câmbio entre as duas moedas "será livremente estabelecido pelo mercado" e obriga a todos "a aceitar o bitcoin como forma de pagamento".

O fato da cotação ser determinada "exclusivamente pelo mercado" torna o bitcoin "altamente volátil", alertou a Fundação Salvadorenha para o Desenvolvimento Econômico e Social (Fusades). A Fundação também considera "inconstitucional" impor "a aceitação obrigatória do bitcoin como forma de pagamento" em qualquer transação econômica.

Incentivado por uma alta popularidade, mas criticado por várias medidas consideradas autoritárias e que afetam a independência entre os poderes do Estado, Bukele defende sua decisão. Ele acusou a oposição de "assustar" a população sobre a criptomoeda.

(Com informações da RFI e AFP)

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