Esportes

Casos de doping por Meldonium devem desaparecer antes das Olimpíadas, diz médico francês

Áudio 06:11
Embalagem de Meldonium, também conhecido comercialmente como Meldronato.
Embalagem de Meldonium, também conhecido comercialmente como Meldronato. REUTERS/Ints Kalnins

O mundo esportivo foi mais uma vez sacudido esta semana por mais um escândalo de doping. Maria Sharapova chamou a imprensa em Los Angeles para uma revelação bombástica: foi flagrada no teste antidoping durante o Aberto da Austrália, em janeiro, e está suspensa do circuito. Ela disse ter consumido Meldonium, um produto proibido desde 1° de janeiro pela Agência Mundial Antidopagem (WADA, em inglês).

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“Durante anos, tomei um remédio chamado Meldronato recomendado por um médico da família. Dias atrás, quando recebi a carta da Federação Internacional de tênis, descobri que também tinha um outro nome, Meldonium, o que eu não sabia. É importante esclarecer que durante 10 anos esse medicamento não estava na lista de produtos proibidos pela Agência Mundial Antidoping. Eu tomei esse medicamento por 10 anos, legalmente. Mas no dia 1° de janeiro as regras mudaram, e o Meldonium se tornou uma substância proibida, o que eu não sabia”, disse atleta.

Assumindo toda sua responsabilidade, a russa disse ter tomado desde 2006 o medicamento indicado para seus problemas de falta de magnésio, arritmia cardíaca e para prevenir diabetes, doença pré-existente na família.

Sharapova é a mais nova vítima do Meldonium, produto já identificado em pelo menos 55 atletas desde que entrou oficialmente na lista de produtos dopantes da Agência Mundial Antidoping. Três dias depois de seu anúncio, a Federação Russa de Biatlo confirmou que o atelta Eduard Latypov foi controlado positivo para o Meldonium. O atleta, de 21 anos, foi flagrado no exame realizado em fevereiro, durante a IBU Cup, disputada no Canadá.

REUTERS/Gonzalo Fuentes/Files

O caso da tenista russa não surpreendeu os especialistas. O Meldonium surgiu em 1975, na Letônia, na época da antiga União Soviética, e era comercializado com o nome de Meldronato. É indicado para combater problemas cardíovasculares e na prevenção do infarto. O produto, segundo estudos, melhora a oxigenação das células.

“O alvo número 1 desse medicamento é o coração. É preciso lembrar que ele não foi aprovado nos Estados Unidos, na França e em outros países ocidentais da Europa. Só nos países do leste ele é comercializado e utilizado", diz Jean-Pierre de Mendonard, médico francês especializado em esporte e doping. 

"Como sempre acontece com os russos, o medicamento normalmente é desenvolvido para uso entre os militares, e também, por exemplo, pelos cosmonautas. O objetivo é melhorar o rendimento dessas pessoas, para ter mais resistência ao cansaço, garantir uma atividade física prolongada e recuperar mais rapidamente o esforço realizado entre duas ações. Depois, foi integrado no mundo esportivo no início dos anos 2000”,explica.

Na mira da WADA

Na França, o Meldonium foi identificado no início dos anos 2000, quando a substância foi encontrada entre os esportistas, especialmente os nadadores. “É um produto introduzido no organismo por via oral ou injetável. Ele não permanece muito tempo. Mas não é no sangue e sim na urina que ele é detetado. Não se trata de um hormônio, e sim de um regulador metabólico, especialmente de um metabolismo energético, por isso, facilmente detectável na urina”, afirma Mendonard.

A partir do final de 2014, a Agência Mundial Antidopagem colocou o produto na categoria de produtos a serem investigados. E nos Jogos Europeus de junho de 2015, as autoridades perceberam que havia um número incomum de casos positivos para o Meldonium. Um laboratório de Colônia identificou uma taxa de 2,2% casos positivos de um total de 8.320 esportistas controlados. Entre os atletas russos, o índice chegava a 18%.

Segundo o médico francês Jean-Pierre Mendonard, o mundo esportivo, especialmente os países do leste estavam conscientes de que o produto estava na mira da Agência Mundial Antidopagem há um bom tempo. Mas foi a partir de 1° de janeiro de 2016 que a WADA integrou esse regulador do metabolismo à imensa lista de produtos proibidos.

Explicação do criador do Meldonium

Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o criador do Meldonium, Ivars Kalvins, rejeita a acusação de que o produto ajuda a melhorar a atividade física. Atualmente diretor de química médica do Instituto de síntese orgânica da Letônia, o professor Kalvins não entende porque o medicamento foi colocado na lista da WADA e garante que o produto não é dopante.

Difícil avaliar, por enquanto, o impacto econômico para as empresas que comercializam o Meldronato. Mas a repercussão do caso Sharapova expôs mundialmente a substância proibida, o que deverá diminuir a possibilidade dos atletas de recorrer à justificativa do “eu não sabia”, argumento usado pela tenista russa. A cinco meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o escândalo do Meldonium deve ainda continuar por alguns meses antes de desaparecer do mapa, ou melhor, dos testes antidoping, segundo o médico francês Mendonard.

“O Meldonium está morto. O planeta foi alertado por Sharapova, indiretamente, que esse produto é detetável. Ninguém mais vai consumi-lo, só se foi alguém com perfil suicida. Um esportista só usa um produto quando ele é eficaz e não se encontra na lista de produtos dopantes ou não for detetável. Nas próximas semanas vamos ter ainda alguns de pessoas que tomaram o medicamento nos meses de fevereiro e março. Mas, a partir de abril, não deveremos ter mais casos de Meldonium, exceto de pessoas que não tenham neurônios suficientes para controlar seu doping”.

De acordo com o médico Mendonard, o caso do Meldonium tem um precedente. “Não é a primeira vez que um produto produzido pelos russos e ex-países soviéticos para os cosmonautas e militares foi posteriormente introduzido no meio esportivo e o levou à proibição. Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, um produto estimulante não estava na lista, por isso, muitos atletas flagrados foram liberados. Logo depois, quando foi incluído na lista, foram punidos. Depois, poucos foram identificados e os casos sumiram”, explicou.

Sharapova aguarda suspensão

No caso de Sharapova, ela será ouvida por um júri formado por um juiz e dois especialistas para avaliar a punição mais adequada. Ela pode ficar fora das quadras por algumas semanas, meses, ou até mesmo ser banida. Financeiramente, a atleta modelo considerada bem sucedida na associação de sua imagem ao marketing esportivo, levou três duros golpes.

Dois patrocinadores, Porsche e Nike, romperam seus contratos e um terceiro, a marca de relógios Tag Heuera não irá renovar seu compromisso com a atleta. Dona de uma fortuna de US$ 200 milhões, segundo a revista Forbes, Sharapova tem uma preocupação que não diz respeito à sua conta bancária: “Cometi um grande erro, decepcionei meus fãs, o mundo do tênis. Sei que poderei ser punida, mas não quero terminar minha carreira assim. Espero ter a oportunidade de voltar a este esporte”.

A sentença sobre o caso Sharapova, não tem data marcada.
 

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