Acessar o conteúdo principal
Esportes

Conheça as histórias dos refugiados que participarão dos Jogos Rio 2016

Áudio 06:17
Presidente do Comitê Olímpico Grego entrega a tocha ao refugiado sírio Ibrahim al-Hussein (à direita).
Presidente do Comitê Olímpico Grego entrega a tocha ao refugiado sírio Ibrahim al-Hussein (à direita). REUTERS/Alkis Konstantinidis
Por: Augusto Pinheiro
12 min

Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos uma delegação de atletas refugiados participará do evento. Os migrantes, de países como Síria e Congo, disputarão com as equipes dos 206 países participantes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, que começam no próximo dia 5 de agosto. Quarenta e três atletas, de diversas modalidades, já foram identificados e treinam para conseguir uma vaga na delegação.

Publicidade

Como eles não competirão por seus países, o Comitê Olímpico Internacional encontrou uma solução para esse problema, como explica o presidente da entidade Thomas Bach: “Esses atletas refugiados não pertencem a uma equipe nacional, não têm bandeira e não têm um hino. Por isso nós vamos dar as boas-vindas para eles nas Olimpíadas com a bandeira e o hino olímpicos. Eles vão ter apartamentos junto com os outros 11 mil atletas de 206 países na Vila Olímpica”.

Para identificar os atletas, o Comitê Olímpico Internacional contou com a ajuda dos comitês nacionais pelo mundo. Os escolhidos recebem financiamento do programa Solidariedade Olímpica para ajudá-los a treinar com o objetivo da qualificação. A delegação contará com entre cinco e dez atletas, cujos nomes serão revelados no mês de junho. Os critérios incluem, além do nível esportivo, a situação pessoal e a atestação do status oficial de refugiado pela Organização das Nações Unidas.

Dois judocas do Congo treinam no Brasil

No Brasil, dois judocas do Congo tentam a classificação: Popole Misenga e Yolande Mabika. Ambos se refugiaram no país fugindo da guerra civil que assola a nação africana. Popole conta, com o português que já aprendeu, que o esporte o ajuda a superar o trauma: “A gente entrou no judô para poder esquecer tudo que a gente viu na guerra. Porque, se você lembrar, você perde”.

Para ele, participar dos Jogos Olímpicos é um sonho: “Eu acho que eu tenho chance de participar porque eu sou filho de Deus. Porque eu já passei pelo pior e sobrevivi. Minha mãe morreu na guerra. Nunca mais vi meu irmão. Até na capital do país, se há eleições, há tiroteios. Matam muitas pessoas”.

O pior ficou para trás, mas Yolande conta que as dificuldades ainda existem. “Eu me separei da minha família durante a guerra. Comecei a praticar judô quando era pequena. Em 1999 participei da minha primeira luta no Congo. Judô é a minha vida. Eu não posso chorar todos os dias. Já chorei muito no meu país. Eu levo duas horas e meia de ônibus para chegar ao treino. Eu pego três ônibus. Isso tudo é difícil para mim”, afirma.

Eles treinam três vezes por semana com o técnico Geraldo Bernardes, que já participou de quatro Olimpíadas. Ele afirma que os congolenses têm potencial. “Eles vieram da equipe principal do Congo, é sinal de que eles têm nível. Treinando aqui eles vão desenvolver bastante e vão ser adversários perigosos para os próprios brasileiros.”

Atleta síria nadou para salvar a própria vida

Na Alemanha, uma das candidatas é a nadadora síria Ysra Mardini. Ela teve que nadar entre a Turquia e a Grécia para salvar a própria vida. “Éramos 20 pessoas no barco. Depois de meia hora, o motor parou de funcionar. Eu perdi tudo. Eu tinha apenas uma camiseta e uma calça jeans. Não tinha nem chinelo.”

Além da ambição esportiva, a jovem conta que a sua participação também transmite uma mensagem: “Quero representar todos os refugiados porque quero mostrar a todos que, após a dor e a tempestade, chegam os dias calmos. Quero que as pessoas não desistam dos seus sonhos. Quero que as pessoas façam o que sentem no coração, mesmo que seja impossível.

Revezamento da tocha contou com refugiado

O revezamento da tocha olímpica também contou com a participação de um atleta refugiado, o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein, de 27 anos, que carregou a chama no interior do alojamento temporário Eleonas, em Atenas. Esse gesto simbólico demonstra a solidariedade com os refugiados em um momento em que há cerca de 60 milhões de pessoas deslocadas no mundo. “Sempre sonhei em competir nos Jogos Olímpicos. Carregar a tocha olímpica é uma grande honra para mim”, revela.

Esportista profissional em seu país, Ibrahim teve a carreira interrompida pela guerra e por um sério ferimento em um bombardeio, que levou à amputação da perna direita. Após atravessar o Mar Egeu em um pequeno barco, Ibrahim chegou à Grécia em 2014 e vive desde então Atenas. Atualmente, ele participa de um time de basquete em cadeiras de rodas na cidade de Maroussi (subúrbio de Atenas) e pratica natação regularmente.

Esporte como integração

A Agência da ONU para Refugiados, a Acnur, utiliza o esporte para ajudar os refugiados a reconstruir suas vidas em um novo país. Desde 1994, o Comitê Olímpico Internacional trabalha com a ACNUR em campos de refugiados e áreas de reassentamento no mundo todo. Entre os projetos estão os que oferecem atividades esportivas para crianças.

No Brasil, o projeto Futebol das Nações promove a integração dos refugiados e proporciona um espaço de debate sobre temas relacionados à inserção na sociedade, como preconceito, acesso ao mercado de trabalho, igualdade de gênero, violência contra as mulheres e até mesmo o ensino da língua portuguesa. A iniciativa é uma parceria do Maracanã e da Caritas Rio, com apoio da Acnur e da ONU Mulheres.

Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados, o Brasil abriga um número recorde de aproximadamente 9 mil refugiados de 81 nações diferentes.

* As entrevistas dos refugiados foram feitas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela ACNUR , Agência da ONU para Refugiados.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.