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Esportes

Temos que acabar com insultos racistas como provocação contra adversário, diz Liga contra o Racismo sobre caso envolvendo Neymar

Áudio 06:37
Neymar e o jogador do Olympique de Marselha Álvaro Gonzalez durante o jogo no Parc de Princes, em 13 de setembro de 2020.
Neymar e o jogador do Olympique de Marselha Álvaro Gonzalez durante o jogo no Parc de Princes, em 13 de setembro de 2020. AFP/Archives
Por: Elcio Ramalho
16 min

Que consequências terão as acusações de Neymar que disse ter sido vítima de insulto racista por parte de um jogador do Olympique de Marselha durante o clássico entre as duas equipes em jogo pelo campeonato francês? Diante da repercussão do caso, Ongs que militam contra o racismo aguardam o resultado das investigações e pedem uma evolução ao Comitê de Disciplina da Liga profissional francesa para saber reagir e dar um basta neste fenômeno. 

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Na última quarta-feira (16), a Liga de Futebol Profissional da França anunciou a abertura de uma investigação para esclarecer as acusações do atacante brasileiro. Para isso, vai usar imagens de vídeo durante a partida realizada no domingo, 13 de setembro, no Parc des Princes, quando o PSG foi derrotado por 1 a 0. 

Ainda no primeiro tempo, imagens que circularam pelas redes sociais, mostram Neymar chamando atenção do juiz fora do gramado e dizendo: “racismo, não”.  O camisa 10 do PSG diz ter sido chamado de “macaco” pelo zagueiro espanhol Álvaro Gonzalez do Olympique de Marselha. 

O jogo, muito tenso do começo ao fim, terminou com  cinco atletas expulsos por atos violentos, dois do Olympique de Marselha e três do PSG, Incluindo Neymar, que levou cartão vermelho por ter agredido fisicamente Gonzalez. 

Pelas redes sociais, Neymar disse primeiro ter se arrependido por não ter “dado na cara desse babaca”. Na sequência, em outra mensagem, carregada de ironia, desafiou o VAR a identificar o momento do suposto insulto racista. 

E no dia seguinte, em longo texto publicado no Instagram, Neymar ressaltou suas origens de neto e filho de negros, e garantiu que sofreu racismo por parte do adversário, mas também assumiu sua falta de controle emocional dentro do gramado, que resultou na expulsão.   

Em reposta também por meio de redes sociais, o jogador Álvaro Gonzalez disse que não há lugar para o racismo, e sugeriu que Neymar tinha que aprender a perder. A mensagem foi postada com uma foto ao lado de seus companheiros de equipe, muitos deles negros.

A mídia espanhola entrou na polêmica ao dizer que Neymar teria respondido às supostas ofensas racistas com insulto homofóbico contra seu adversário.  

Por enquanto, as imagens divulgadas do clássico não permitem identificar os insultos verbais. O Comitê de Disciplina da Liga Francesa, não informou o prazo para concluir a investigação, mas desde já o resultado é muito aguardado por entidades que militam pelos direitos humanos e contra o racismo, como a LICRA, como é conhecida a Liga Internacional Contra o Racismo e o Antissemitismo.

Em entrevista à RFI Brasil para analisar as acusações de Neymar, Oren Gostiaux, presidente da Comissão de Esportes da LICRA francesa, comenta a importância de esclarecer o caso:  “Houve agressões verbais, mas foram mesmo agressões racistas e homofóbicas? É importante saber. Há duas coisas que precisam ser esclarecidas nesta investigação. É impensável que crianças e futuros jogadores de futebol vejam este tipo de cena, senão é uma questão de tempo para vê-los reproduzir a mesma coisa. Por isso, a necessidade de uma ação pedagógica com essas duas equipes para mostrar que é preciso dar um basta nesse comportamento e nesses atos. Por outro lado, é preciso ver como o regulamento pode sancionar esse tipo de provocação”.

Nos últimos anos, muitos casos de racismo foram denunciados na Europa, principalmente pelo comportamento de torcedores contra jogadores negros. Para combater o fenômeno, muitas campanhas foram feitas pelas entidades como a FIFA e a UEFA para sensibilizar torcedores, dirigentes e jogadores sobre esse crime e às sanções às quais seus autores e clubes ficam expostos.

No incidente entre Neymar e Álvaro Gonzalez, trata-se de uma situação envolvendo os próprios jogadores dentro de campo. Para Oren Gostiaux, advogado além de presidente Comissão de Esportes da LICRA, é preciso também combater o pano de fundo dessas agressões verbais: a estratégia de desestabilizar os adversários a qualquer preço. 

“Não creio que Neymar seja homofóbico, mas estamos diante de uma provocação na qual tudo parecer permitido para tentar desestabilizar o adversário. Não é como um desses insultos racistas que já vimos anteriormente. Trata-se de um novo tipo de provocação que tem apelo midiático e visa fazer o adversário se irritar e explodir”, diz Gostiaus.

“É preciso dar um basta nisso. O racismo  é algo a ser banido e deve ser evitado como provocação. Não se deve ter mais o direito de fazer esse tipo de provocação.  Esses insultos foram banalizados em vários níveis, nos acostumamos a ouvir que isso é coisa do meio amador. Devemos eliminar insultos de qualquer tipo. O esporte deve ser uma prática de respeito e não de humilhação do adversário”, acrescenta.

Protesto contra a minimização do racismo no futebol

A polêmica envolvendo Neymar ganhou novos capítulos durante a semana. Questionado sobre o fenômeno de racismo na modalidade, o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Noël Le Graët, minimizou o problema : "Durante um jogo, pode haver insultos, mas representa menos de 1% dos problemas atualmente. Quando um negro marca um gol, todo o estádio comemora de pé. O fenômeno racista no esporte, e no futebol em particular, não existe ou muito pouco".

A declaração irritou a Ong SOS Racismo que promoveu um protesto em frente à sede da Federação para exigir que o problema do racismo seja tratado com seriedade e não com desdém. O presidente da Ong, Dominique Sopo, criticou ainda a falta de ação do árbitro da partida, que alertado por Neymar do insulto, não reagiu como deveria. 

Segundo Gostiaux, há dificuldades de enfrentar esse problema dentro do esporte porque tanto entidades e clubes procuram se afastar de polêmicas para preservar sua imagem e até  evitam em divulgar os casos. 

No entanto, a Liga Internacional contra o Racismo e Antissemitismo desenvolve um trabalho com a Federação Francesa de Futebol para avançar no tema.

“Nesse momento estamos trabalhando junto com a Federação Francesa de Futebol para formar e sensibilizar o Comitê de Disciplina sobre como  tratar esse fenômeno de discriminação e de racismo. Temos muitos casos, mas o problema é que muitas pessoas não querem mostrar que existe esse tipo de problema em seus clubes, ou em suas ligas. Preferem não informar os casos e transformá-los, por exemplo, em incidente físico para ser punido como agressão  física e não como o verdadeiro problema que deu origem à agressão. Veja o caso de Neymar, mesmo se houve o insulto racista, a punição foi sobre o gesto físico. E é muito difícil atacar a origem do problema”, explicou. 

Diante de um fenômeno que considera tão grave e que precisa ser combatido com rigor e pedagogia, e não apenas com sanções financeiras e jogos de suspensão, o presidente da Comissão de Esporte da LICRA questiona se a evolução não poderia vir da atitude coletiva dos próprios jogadores. 

“Será que os árbitros são formados para gerenciar esse tipo de incidente?  E aí eu me questiono: será que não chegou a hora de os jogadores terem a coragem de dizer: basta. E não tentar manter e acalmar os companheiros, mas de tomar a decisão de tirar toda a equipe de campo, interromper a partida para dizer que não aceitam mais sofrer insultos.  Assim é que vamos conseguir educar as pessoas”, afirma.

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