Nadador birmanês desiste de sonho olímpico em protesto contra junta militar

Nesta foto de 29 de abril de 2021, o nadador de Mianmar, Win Htet Oo, participa de uma sessão de treinamento no Centro Aquático de Melbourne. - Win Htet Oo sacrifica seu sonho de competir nas Olimpíadas de Tóquio para protestar contra a junta militar que governa seu país, dizendo que participar seria "propaganda" para o regime.
Nesta foto de 29 de abril de 2021, o nadador de Mianmar, Win Htet Oo, participa de uma sessão de treinamento no Centro Aquático de Melbourne. - Win Htet Oo sacrifica seu sonho de competir nas Olimpíadas de Tóquio para protestar contra a junta militar que governa seu país, dizendo que participar seria "propaganda" para o regime. AFP - ASANKA BRENDON RATNAYAKE

Um nadador birmanês decidiu sacrificar seu sonho das Olimpíadas em Tóquio para protestar contra a junta militar que deu um golpe em 1° de fevereiro, e agora governa seu país. O atleta de 26 anos afirma que participar seria uma "propaganda" para o regime militar.

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Mesmo sem ter ainda uma qualificação direta para os Jogos Olímpicos pelos critérios da Federação Internacional, o tempo obtido em 2019 nos Jogos do Sudeste Asiático por Win Htet Oo (22 seg 62 nos 50 m livre) potencialmente colocaria o nadador na disputa por Tóquio.

Mas, há algumas semanas, o atleta de 26 anos anunciou que estava desistindo. “Aceitar o Comitê Olímpico Nacional de Mianmar como ele é dirigido atualmente é reconhecer a legitimidade de um regime assassino”, escreveu ele em 10 de abril no Facebook.

"No desfile das nações, não andarei sob uma bandeira encharcada com o sangue do meu povo."

Os militares tomaram o poder nem Mianmar em 1º de fevereiro, em um golpe que derrubou o governo civil da ex-ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi.

Desde então, o país está mergulhado em uma crise profunda, com os militares reprimindo com sangue as manifestações quase diárias organizadas para exigir o retorno da democracia. Um vasto movimento de desobediência civil também surgiu, paralisando grande parte da economia e dos serviços públicos do país.

Para Win Htet Oo, ignorar Tóquio era sua forma de participar desse movimento. "Eu queria mostrar aos birmaneses que os atletas podem participar do movimento de desobediência civil", disse ele, falando de Melbourne, Austrália, onde reside.

"Imaginar-me caminhando cheio de sorrisos atrás da minha bandeira, fingindo que tudo está bem em Mianmar, francamente me enojou. (...) Teria sido um exercício de propaganda."

 "A junta militar difama os valores olímpicos"

 A comunidade internacional condenou amplamente as ações da junta militar junto com grandes potências, incluindo os Estados Unidos, a União Europeia (UE) e a Grã-Bretanha, que impuseram sanções contra oficiais militares.

Em março, Win Htet Oo escreveu ao Comitê Olímpico Internacional (COI), pedindo para competir como um "atleta olímpico independente", devido à violência em curso em seu país. Mas, segundo ele, seu pedido foi recusado.

"Estou tentando deixar o COI e as pessoas em geral saberem que o MOC não é um comitê olímpico legítimo e que mancha os valores olímpicos", disse o nadador, com um suspiro.

Para Win Htet Oo, abrir mão de Tóquio-2020 é desistir de um sonho de infância, aquele que motivou sua mudança para Melbourne, em 2017, para acelerar seus treinos. Hoje, ele trabalha como salva-vidas em um enorme complexo esportivo, onde observa os atletas australianos treinando para as Olimpíadas e dá voltas durante os intervalos.

Win Htet Oo diz que "não se arrepende". “Para mim, é apenas o sonho de uma pessoa ir às Olimpíadas, mas em Mianmar milhões de jovens viram seus sonhos e aspirações desaparecerem”, diz ele.

Além das Olimpíadas, seu outro sonho seria ajudar a trazer paz às zonas de conflito de seu país, voltando para lá e divulgando seu esporte entre os jovens. Enquanto o país caminha em direção a "um futuro sombrio", Win Htet Oo diz que se sente compelido a se juntar à luta, para desgosto de sua família na Austrália.

"Assim que as restrições a viagens forem suspensas, quero retornar a Mianmar para continuar a luta, se possível", disse ele. "É nisso que penso todos os dias."

(Com AFP)

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