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Fato em Foco

Crise na Ucrânia não impede França de vender navios de guerra à Rússia

Áudio 05:28
O navio de guerra francês Mistral, construído em Saint-Nazaire.
O navio de guerra francês Mistral, construído em Saint-Nazaire. REUTERS/Julie Louise
Por: Gabriel Brust
11 min

Um avião comercial abatido por um míssil não foi o suficiente para demover a França da ideia de produzir navios de guerra para a marinha russa. Mas a venda de um porta-helicópteros do tipo Mistral começa a pesar entre a opinião pública europeia, que quer saber por que a França e a Inglaterra continuam a vender armas ao presidente russo Vladimir Putin.

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O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, afirmou ao canal TF1 que o governo não vai voltar atrás na venda de um gigantesco navio de guerra para a Rússia – o primeiro de uma encomenda de dois exemplares (que poderá chegar a quatro) estimada em € 1 bilhão. “É um acordo que foi assinado em 2011, no governo anterior, mas isso pouco importa. Há uma regra que vale em assuntos nacionais ou internacionais: contrato assinado e pago deve ser honrado. O presidente diz que o contrato para o primeiro navio, que deve ser entregue em outubro, será honrado, e o segundo barco, que ainda não foi construído, dependerá da atitude dos russos.”

Fabius também aproveitou para alfinetar a Inglaterra, primeiro país a condenar a concretização da venda. “Os ingleses foram extremamente amáveis, entre aspas, dizendo “nós jamais faríamos isso!”. Pois eu recordaria um princípio, que existe para todos, e também para eles: caros amigos britânicos, falemos também de finanças. Creio que não há poucos oligarcas russos em Londres.”

Estrela naval francesa

Além dos ingleses, os Estados Unidos também classificaram a venda de “totalmente inapropriada”. O Mistral é uma das estrelas das Forças Armadas francesas, com suas 22 toneladas e 199 metros de comprimento. Com capacidade para 450 homens, 16 helicópteros e 60 blindados – ainda dotado de um hospital –, o navio é, segundo especialistas, exatamente o que falta à marinha russa. Some-se a isso um aumento do orçamento militar russo da ordem de 40% – comparável ao da União Soviética – e a necessidade da França de manter os mil empregos garantidos na construção das embarcações e, voilà a conta que fará o Mistral singrar os mares rumo à Asia.

O contrato foi assinado por Nicolas Sarkozy em 2011 em um contexto diferente: o conflito russo não era na Crimeia, mas na Georgia, e o então presidente francês tentava mediar o conflito. Sarkozy também cortejava o Brasil, ainda alimentando esperanças de concretizar outro negócio de grandes proporções, os aviões Rafale – o que acabou não acontecendo. Os caça hoje interessam à Índia, mas o negócio não foi fechado.

Diante da pressão internacional, o secretário francês para assuntos europeus, Harlem Désir, diz que o cancelamento da fabricação do segundo navio pode acontecer, o que constituiria um outro grau de sanção à Rússia: “Trata-se de um grau suplementar de sanção que pode atingir uma futura entrega de material, principalmente para o segundo Mistral, uma vez que o primeiro já foi pago. Poderá haver, dependendo da atitude da Rússia”.

Alemanha e Inglaterra também vendem

Se engana quem pensa que a venda de armas aos russos é uma exclusividade da França. A verdade é que, antes da crise na Crimeia, 2014 se anunciava um ano profícuo para o comércio armamentista britânico e alemão. A Alemanha, terceiro maior vendedor de armas do mundo, depois dos Estados Unidos e da Rússia, não fornecia armas aos russos desde 2005, mas fechou quase 500 contratos de pistolas e veículos no ano passado. Todos foram devidamente abortados.

A Inglaterra, por sua vez, ainda tem 250 contratos de venda ao russos em vigor, apesar de ter exigido que a França que cancelasse os navios. A contradição inglesa enfureceu a diplomacia francesa. Para o diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas da França, Jean-Pierre Maulny, contradição é o que não falta nessa relação ambígua entre União Europeia e Vladimir Putin: “Não há razão para diminuir a venda de armas de maneira geral, mas é preciso observar a situação política e então tomar uma decisão. Mas você me pergunta se não há uma contradição entre a atitude da União Europeia, de continuar vendendo armas à Rússia, e eu digo: sim, efetivamente, há uma contradição neste caso.”

Dependência da Rússia

Não é apenas com armas e equipamentos militares que a Europa está envolvida até o pescoço com a Rússia. Além do fornecimento de gás para o continente, oligarcas do país controlam 2% do mercado imobiliário de luxo de Londres, e paraísos fiscais como as Ilhas Virgens Britânicas fazem um importante serviço na lavagem de dinheiro da ex-União Soviética. A dependência europeia do vizinho gigante pode explicar em parte a timidez das sanções aplicadas até agora.

Para Jean-Pierre Maulny, o desafio será coordenar o discurso grave com ações concretas contra a Russia: “Se querem continuar a exportar armas, então o discurso sobre a Rússia que é adotado pela Europa é critico demais. Seria preciso ter um discurso muito mais aberto sobre os russos. Do contrário, devemos então proibir a venda de armas à Rússia. Há uma forma de contradição neste ponto que não é só francesa, mas é de todos os países da união europeia e sobre todos os aspectos: sobre a venda de armas e também em sanções econômicas e financeiras”.

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