Ucrânia/Crise

Angela Merkel chega a Kiev em meio a intensificação dos combates

Angela Merkel é recebida pelo presidente ucraniano Petro Porochenko em Kiev
Angela Merkel é recebida pelo presidente ucraniano Petro Porochenko em Kiev REUTERS/Gleb Garanich

Menos de 24 horas depois de causar a ira de Kiev e das potências ocidentais, o comboio de ajuda humanitária enviado por Moscou ao leste da Ucrânia voltou à Rússia. O retorno dos cerca de 220 caminhões pode reduzir um pouco a tensão entre o ocidente e a Rússia, que se sancionam mutuamente por conta da crise ucraniana. A chanceler alemã, Angela Merkel chegou neste sábado (23) à capital ucraniana para discutir uma saída política para o conflito.

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"Nós somos um povo pacífico, mas estamos preparados a pagar com sangue e suor, e o faremos, para ter o direito de viver sob nossa bandeira, sob nosso céu e entre nossos campos", afirmou o presidente ucraniano Petro Porochenko em uma cerimônia oficial. Na saída deste compromisso, ele se reúne com Angela Merkel e seu primeiro ministro, Arseni Yatseniuk.

A chefe do governo alemão é a mais importante dignatária ocidental a viajar a Kiev depois do início da crise, que causou o maior conflito diplomático entre a Rússia e o ocidente desde o fim da Guerra Fria. Merkel é a principal ponte diplomática entre a Ucrânia e a Rússia.
Sua visita é vista como um gesto importante de apoio a Kiev, principalmente por acontecer na véspera da festa nacional ucraniana, em que se celebra os 23 anos do fim da União Soviética, da qual o país fazia parte.

Concessões ucranianas

Mas, há analistas que esperam que ela exija também concessões do lado ucraniano para evitar novas sanções contra a Rússia, que já começam a pesar sobre a economia russa. Na semana passada, o vice-chanceler e ministro alemão da Economia, Sigmar Gabriel, defendeu uma Ucrânia "federativa", como forma de pôr fim ao conflito. Os russos são simpáticos a essa ideia, que é, no entanto, rejeitada por Kiev, que se restringe a falar, no máximo, em uma eventual "descentralização".

Antes de viajar, ela conversou ao telefone com o presidente americano, Barack Obama. Os dois se disseram "preocupados" com o que consideram uma "escalada perigosa" da Rússia, cuja presença militar só faz crescer, tanto na fronteira quanto dentro da Ucrânia.

A visita precede uma cúpula regional marcada para terça-feira em Minsk e, da qual participarão tanto Putin quanto Porochenko, além de líderes da União Europeia. A entrada dos caminhões russos pode mudar radicalmente o tom deste encontro, já que Kiev acusou o vizinho de invasão ilegal de seu território.

Comboio da discórdia

A chegada do comboio humanitário foi confirmada pelo ministério russo das Relações Exteriores, que havia anunciado na sexta sua chegada ao destino previsto. Petro Porochenko, assim como os Estados Unidos, exigiu seu retorno imediato à Rússia.

Em Moscou, a televisão pública exibiu imagens de parte dos caminhões sendo descarregada em um depósito de Lugansk, uma das cidades controladas pelos separatistas pró-russos, mas cercada pelo exército ucraniano. A cidade está à beira da crise humanitária, sofrendo com falta de eletricidade e água há várias semanas.

Um jornalista da agência Reuters afirmou ter visto mais de 100 veículos cruzarem o posto fronteiriço de Donetsk-Izvarino, a cerca de 70 quilômetros de Lugansk, em direção à Rússia. De acordo com o exército ucraniano, 184 caminhões deixaram o país nesta manhã. Apesar de os russos garantirem o transporte de 1800 toneladas de produtos básicos, Kiev afirma que os 34 caminhões que suas autoridades puderam inspecionar estavam quase vazios.

Intensificação dos combates

Neste sábado, provavelmente por conta do aniversário da independência ucraniana, os tiros de artilharia pesada se intensificaram em Dontesk. De acordo com testemunhas no local, a maior parte dos tiros aconteceu na periferia da cidade, mas houve explosões também no centro. Em Kiev, seguem os preparativos para a festa nacional.

A porta-voz da Otan Oana Lungescu afirmou que desde a metade de agosto, a Organização tem "múltiplas informações sobre a implicação direta das forças russas - inclusive a aviação, a defesa antiaérea e as forças especiais - no leste da Ucrânia".

De acordo com ela, "a artilharia russa é utilizada contra as forças armadas ucranianas tanto através da fronteira quanto do interior da Ucrânia". A Rússia nega fornecer qualquer ajuda material à insurgência e acusa Kiev de atacar civis indefesos com o apoio do ocidente.

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