França/Rússia

França pede cessar-fogo como condição para entregar navio à Rússia

O navio porta-helicópteros Mistral.
O navio porta-helicópteros Mistral. REUTERS/Stephane Mahe

A polêmica da venda de um navio de guerra francês à Rússia ganhou um novo capítulo na tarde desta quinta-feira (4), durante a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), no País de Gales. O presidente François Hollande disse que só entregará a primeira das duas embarcações encomendadas pela Rússia, se houver um cessar-fogo e um acordo político do país com a Ucrânia.

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“Hoje, essas duas condições não estão reunidas”, disse Hollande, que está sendo bastante criticado pela oposição francesa desde que anunciou o cancelamento da entrega do equipamento militar. “Como eu poderia autorizar a entrega de um barco que pode amanhã ser usado em guerra enquanto há essa crise na Ucrânia?”, justificou Hollande, depois de se encontrar com seu colega ucraniano, Petro Porochenko.

Entenda o caso Mistral

O presidente francês disse que assim que as exigências forem cumpridas – em sua avaliação “em outubro ou novembro” –, as embarcações serão entregues. A venda dos equipamentos significa um contrato de € 1,2 bilhão e, destacou Hollande, “muitas horas de trabalho para os canteiros de Saint-Nazaire”, região do sudoeste da França onde os navios do tipo Mistral são construídos.

Até o mês de agosto, o governo francês dizia que o primeiro navio encomendado seria entregue, pois já estaria pronto e praticamente pago. O discurso até então era de que apenas a segunda embarcação ficaria condicionada ao fim do conflito na Ucrânia. Mas o crescimento da pressão tanto da opinião pública francesa quanto dos países ocidentais fez o país anunciar estar semana que mesmo a entrega do primeiro equipamento seria embargada. Hollande negou que se deixe levar por estas pressões: “Quando a crise ucraniana começou, eu adverti que não poderíamos ter sanções que colocassem em risco contratos já assinados, portanto eu não estava me submetendo a nenhuma pressão”.

Idas e voltas do Mistral

O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, afirmou, no mês de agosto, que o governo não iria voltar atrás na venda de um gigantesco navio de guerra para a Rússia – o primeiro de uma encomenda de dois exemplares (que poderá chegar a quatro) estimada em € 1,2 bilhão. “É um acordo que foi assinado em 2011, no governo anterior, mas isso pouco importa. Há uma regra que vale em assuntos nacionais ou internacionais: contrato assinado e pago deve ser honrado. O presidente diz que o contrato para o primeiro navio, que deve ser entregue em outubro, será honrado, e o segundo barco, que ainda não foi construído, dependerá da atitude dos russos.”

Fabius também aproveitou para alfinetar a Inglaterra, primeiro país a condenar a concretização da venda. “Os ingleses foram extremamente amáveis, entre aspas, dizendo “nós jamais faríamos isso!”. Pois eu recordaria um princípio, que existe para todos, e também para eles: caros amigos britânicos, falemos também de finanças. Creio que não há poucos oligarcas russos em Londres.”

Estrela naval francesa

Além dos ingleses, os Estados Unidos também classificaram a venda de “totalmente inapropriada”. O Mistral é uma das estrelas das Forças Armadas francesas, com suas 22 toneladas e 199 metros de comprimento. Com capacidade para 450 homens, 16 helicópteros e 60 blindados – ainda dotado de um hospital –, o navio é, segundo especialistas, exatamente o que falta à marinha russa. Some-se a isso um aumento do orçamento militar russo da ordem de 40% – comparável ao da União Soviética – e a necessidade da França de manter os mil empregos garantidos na construção das embarcações e, voilà a conta que fará o Mistral singrar os mares rumo à Asia.

O contrato foi assinado por Nicolas Sarkozy em 2011 em um contexto diferente: o conflito russo não era na Crimeia, mas na Georgia, e o então presidente francês tentava mediar a contenda. Sarkozy também cortejava o Brasil, ainda alimentando esperanças de concretizar outro acordo de grandes proporções, a venda dos aviões Rafale – o que acabou não acontecendo. Os caça hoje interessam à Índia, mas o negócio não foi fechado.

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