Mar Mediterrâneo

“Não sabíamos se alguém estava pilotando o barco”, conta sobrevivente de naufrágio

Sobreviventes chegam à Sicília.
Sobreviventes chegam à Sicília. REUTERS/Alessandro Bianchi

O nigeriano Collins Ima, 23 anos, diz que sobreviveu apenas “graças à ajuda de Deus”. Um dos sobreviventes do naufrágio que deixou pelo menos 700 mortos no Mar Mediterrâneo no último fim de semana, ele relata ter sido colocado em um barco após 11 meses de trabalho escravo na Líbia. “Não sabíamos nem se o barco era pilotado ou não”, contou Ima à RFI.

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Juliette Gheerbrant, enviada especial da RFI à Calábria.

Natural da província de Eto, na Nigéria, Ima atravessou o deserto do Saara durante duas semanas até chegar à Líbia, onde arranjou trabalho “com um árabe”. Depois de meses de “trabalho duro sem ganhar nenhum euro”, veio a recompensa: “No final, ele me entregou para as pessoas que me colocaram num barco para viver ou morrer, tanto fazia”, conta Ima.

Preso ao lado de outras centenas de pessoas, ele diz que era impossível saber se alguém estava no comando da embarcação. “Só o que eu sabia era que o barco avançava e parecia estar perdido, sem rumo”. Em um dado momento, Ima percebeu a água do mar subindo dentro do barco. “A embarcação começou a encher de água pouco a pouco, antes que o resgate italiano chegasse, no último dia. Agora me sinto em segurança, mas sei que pessoas morrem todos os dias. Não estou morto, mas isso é apenas graças a Deus”.

Embora 700 pessoas estejam registradas como desaparecidas, o número de vítimas pode chegar a 900, segundo o depoimento de um sobrevivente de Bangladesh. Ele afirma que muitos dos passageiros estavam trancados dentro do porão do barco. O tamanho da embarcação também confirma que a quantidade de pessoas pode ser maior.

Entre 40 e 50 crianças

Na madrugada de domingo para segunda-feira (20), os sobreviventes e os corpos das vítimas resgatados até o momento começaram a chegar ao porto de La Valette, na ilha de Malta, antes de serem encaminhados a Catânia, na ilha italiana da Sicília. Na primeira leva, foram 24 mortos e 28 sobreviventes, das mais diversas nacionalidades. Havia pessoas do Afeganistão, Paquistão, Zâmbia, Bangladesh, Senegal, Gana, Mali e Egito. Entre elas estariam de 40 a 50 crianças.

Este novo drama provocou uma intensa comoção entre os italianos, principalmente no sul do país. Todas as cidades da Sicília decretaram dia de luto oficial. O sul da Itália vive um cotidiano dramático, com a permanente chegada de barcos da Líbia e a necessidade de criar abrigos para sobreviventes. Muitos barcos de pesca sicilianos costumam ajudar as operações de resgate.

Desde o início de 2015, pelo menos 900 imigrantes morreram na travessia entre a África e a Itália – sem contar a tragédia deste fim de semana. Mesmo correndo riscos, a maioria dos imigrantes se sente compelida a tentar a travessia, já que está, em geral, fugindo de guerras e perseguições.

Outros, tentam apenas uma situação econômica mais estável. Entre estes, a desilusão é comum. É o caso de Mustafa, um senegalês ouvido pela RFI na Calábria. “Eu vim porque no Senegal não havia trabalho, mas agora me arrependo. Há miséria aqui, e não há trabalho. As pessoas não dizem a verdade sobre o que vamos encontrar na Europa”, lamenta Mustafa.

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